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Ilustração sobre desenvolvimento econômico e tecnologia (Imagem gerada por IA/Exame)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 10h40.
Última atualização em 21 de setembro de 2026 às 10h59.
Inteligência artificial está em toda reunião de diretoria, em toda meta de OKR, em toda aparição de CEO em painel. E, ainda assim, segundo a mais recente edição do Panorama Mindset Digital, pesquisa da consultoria Brivia Group que mede a maturidade digital de empresas brasileiras, o pilar de IA & Gestão Eficiente é, isoladamente, o mais baixo entre os sete avaliados em praticamente todos os 15 setores da economia. A conclusão prática: o discurso corre na frente do resultado.
O levantamento ouviu 350 empresas entre setembro de 2025 e março de 2026, atribuindo a cada uma um Digital Maturity Score (DMS), nota de 0 a 100 que classifica a maturidade digital em quatro estágios: Crítico, Sensibilização, Otimização e Excelência.
Nesta edição, pela primeira vez, o estudo isolou o uso de inteligência artificial como um pilar próprio, separado da digitalização tradicional. Antes, essa camada estava diluída em indicadores mais genéricos; agora, ganhou régua exclusiva, e o resultado expõe uma lacuna que estava escondida nos números anteriores.
O diagnóstico foi resumido por Christiaan van Hattem, estrategista de marketing e negócios da Brivia Group e um dos responsáveis pelo estudo, em entrevista à EXAME: "existe uma questão de estratégia de uso. As empresas liberam a ferramenta para todo mundo, sem critério, e depois percebem que ficou insustentável do ponto de vista de investimento, sem melhoria de produtividade correspondente".
A explicação técnica por trás disso é o consumo de tokens, a unidade que mede o processamento de um modelo de IA, e que é cobrada pelas empresas de tecnologia por volume de uso. Quando o uso de IA é generalizado e sem direcionamento, ele tende a mirar problemas amplos demais, consumindo mais processamento (e mais custo) sem entregar solução proporcional.
Segundo Van Hattem, o padrão mais eficaz é o oposto: "a execução de estratégias usando IA deveria sempre começar por problemas menores e específicos, não tentar resolver problemas de forma generalista, que é o que gera consumo maior de tokens e diminui a margem da empresa".
O pesquisador também identificou um segundo problema, tão relevante quanto o primeiro: a ausência de governança central.
"A gente vê que existe o uso, mas a governança ainda não está bem estruturada dentro das empresas, porque ela é muito centralizada na mão do colaborador individual, e não numa estratégia definida pela companhia", afirmou.
O extremo dessa disparidade aparece no contraste entre dois setores da saúde. A Farmacêutica lidera o ranking geral, com 83 pontos (Otimização), pilotada por indicadores de excelência em propósito de marca e em uso analítico de dados, típicos de uma indústria mais voltada à pesquisa interna e ao rigor regulatório do que ao atendimento direto ao consumidor.
Já o setor de Saúde (hospitais, laboratórios, operadoras) fecha a lista com apenas 54 pontos, a pior nota geral de todo o levantamento, e o pilar de IA nesse setor despenca para 22 pontos, classificado como "Muito Crítico".
A diferença, segundo o estudo, não é de vontade, e sim de complexidade de jornada: a Farmacêutica lida majoritariamente com processos internos de laboratório, enquanto a Saúde lida com o paciente na ponta, muitas vezes obrigado a repetir seu histórico em cada novo canal de atendimento, sem que sistemas hospitalares conversem entre si.
É um contraste que ganha peso justamente agora: o Conselho Federal de Medicina publicou, em fevereiro, a primeira resolução nacional para regular o uso de inteligência artificial na prática médica, com vigência a partir deste mês, uma resposta regulatória a exatamente o tipo de dispersão de adoção que o Panorama capturou no setor de saúde como um todo, cada hospital e clínica adotando ferramentas de forma isolada, sem padrão comum.
Outro achado curioso do estudo são as contradições internas dentro de uma mesma empresa. Van Hattem descreveu o padrão: "às vezes a empresa afirma que tem marca forte, que é reconhecida, que cria comunidade, e, na pergunta seguinte, discorda que a aquisição de clientes dependa cada vez menos de mídia paga. Ou diz que conhece profundamente o cliente, mas não faz pesquisa de comportamento com ele."
Esse tipo de contradição se repetiu em praticamente todos os 15 setores analisados, sugerindo que a percepção que as empresas têm de si mesmas nem sempre resiste a um segundo olhar sobre os próprios números.
Já Fabio Rios, CMO da Brivia Group que também liderou a pesquisa, explica que alguns setores que pontuaram bem na edição anterior do estudo pareceram estagnar nesta.
"Toda vez que surge uma nova onda de tecnologia, ela leva a empresa para uma reflexão estratégica, e às vezes o que parece regressão é, na verdade, um corpo executivo ficando mais criterioso sobre suas próprias necessidades, porque agora entende melhor o que significa maturidade de verdade".
Ou seja, a régua muda de tamanho junto com o setor: uma nota mais baixa não indica necessariamente piora, e sim uma autoavaliação mais exigente.
Uma das perguntas mais delicadas para qualquer empresa que automatiza o atendimento é até onde a IA pode substituir contato humano sem prejudicar a experiência.
Para Van Hattem, a resposta depende do contexto emocional da interação, não da tecnologia disponível: "Para rastrear a entrega de um produto que comprei on-line, não me importo nada com automação total, vou digitar um número e ter a resposta. Mas para uma consulta sobre fisioterapia, se a pessoa do outro lado não tem meu histórico nem sensibilidade para entender o que estou sentindo, a demanda simplesmente não é suprida".
O próprio mercado publicitário já viveu esse limite na prática, embora não exatamente do jeito que o executivo lembrou durante a entrevista.
Nos dois últimos anos, a Coca-Cola usou inteligência artificial generativa para recriar seu clássico comercial natalino "Holidays Are Coming", e enfrentou forte reação negativa em ambas as tentativas: consumidores classificaram o resultado como "sem alma" e reclamaram que a marca havia "arruinado o Natal", justamente por a peça remeter a um momento associado a calor humano e nostalgia, sentimentos que o público não quis ver terceirizados a um algoritmo.
É a mesma lógica citada por Van Hattem, aplicada em sentido inverso ao que ele descreveu: contexto emocional intenso é onde a régua da aceitação à IA cai mais rápido, não onde ela sobe.
A partir desse diagnóstico, a Brivia Group resume em três frentes o caminho mais rápido para qualquer empresa sair de uma nota baixa: primeiro, quebrar os "feudos de dados" internos, garantindo que a informação usada para decisão não fique restrita a um departamento; segundo, cultivar uma cultura de teste e erro controlado, com ambientes isolados (os chamados sandboxes) para experimentar sem risco à operação; e terceiro, formar um comitê central de governança de IA que priorize problemas específicos e mensuráveis, em vez de soluções genéricas aplicadas à empresa inteira.
É, segundo os pesquisadores, a diferença entre empresas que vão colher os primeiros resultados financeiros da IA no próximo ciclo da pesquisa e as que seguirão gastando mais para produzir o mesmo de sempre.