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Empresas asiáticas já começaram a atribuir cargos formais a sistemas de IA, ampliando o debate sobre o papel da tecnologia no ambiente de tabalho. (Stock-Asso/Shutterstock)
Redatora
Publicado em 4 de junho de 2026 às 05h05.
Durante décadas, a ideia de uma inteligência artificial ocupando um cargo dentro de uma empresa parecia um roteiro de ficção científica. Nos últimos anos, porém, algumas companhias asiáticas decidiram testar esse conceito na prática.
Em vez de utilizar a tecnologia apenas como ferramenta de apoio, elas passaram a atribuir funções formais a sistemas de IA, incorporando-os à estrutura organizacional e, em alguns casos, tratando-os como integrantes oficiais da equipe.
O caso mais conhecido surgiu no Japão. Em 2025, o grupo japonês GMO Internet Group anunciou a criação de um sistema treinado com base no histórico de decisões, discursos e filosofia empresarial do fundador e CEO da companhia, Masatoshi Kumagai.
O objetivo declarado não era substituir o executivo, mas disponibilizar uma versão digital capaz de responder dúvidas dos funcionários e acelerar processos de tomada de decisão.
Segundo a empresa, a tecnologia foi desenvolvida para reproduzir a forma de pensar da liderança e tornar esse conhecimento acessível em toda a organização.
A iniciativa chamou atenção justamente porque a IA não foi apresentada apenas como um software interno, mas como uma figura com cargo e identidade corporativa definidos.
Outro caso que ganhou repercussão internacional ocorreu com a empresa japonesa alt Inc.. Em 2023, a companhia anunciou um sistema que remunera funcionários pelo trabalho realizado por seus "clones de IA", versões digitais treinadas com informações e conhecimentos dos próprios colaboradores.
A empresa descreveu a iniciativa como um novo modelo de produtividade, no qual a contribuição da inteligência artificial passa a ter valor econômico mensurável dentro da organização.
Na Coreia do Sul, o movimento tem seguido um caminho diferente. Grandes grupos empresariais vêm incorporando sistemas de IA às operações internas em larga escala.
A operadora SoftBank Corp., que possui forte presença tecnológica na Ásia, disponibilizou ferramentas de IA para todos os seus funcionários com o objetivo de acelerar tarefas administrativas e decisões corporativas.
Embora a tecnologia não tenha recebido um cargo formal, a iniciativa ilustra como a fronteira entre ferramenta e colaborador começa a ficar menos clara.
Apesar dos anúncios chamativos, nenhuma dessas inteligências artificiais possui personalidade jurídica. Isso significa que a responsabilidade legal continua recaindo sobre pessoas físicas e empresas.
Se uma IA aprovar uma decisão equivocada, divulgar informações incorretas ou causar prejuízos financeiros, ela não pode ser processada, multada ou responsabilizada. A obrigação permanece com os executivos e organizações que decidiram utilizá-la.
Por isso, especialistas apontam que termos como "funcionário", "gerente" ou "CEO de IA" possuem, na maioria dos casos, caráter simbólico ou estratégico, funcionando mais como uma representação da função exercida pela tecnologia do que como um reconhecimento jurídico formal.
Se a legislação ainda trata a IA como ferramenta, a cultura corporativa já começa a enxergá-la de outra forma.
Ao atribuir cargos, nomes e funções visíveis aos sistemas, empresas passam a normalizar a ideia de que a inteligência artificial participa dos processos de trabalho de maneira semelhante a um colaborador. Isso altera a forma como funcionários interagem com a tecnologia e pode acelerar a adoção dessas ferramentas no ambiente corporativo