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Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 11h08.
Se você nunca ouviu falar da Hugging Face até hoje, tudo bem, mas ela provavelmente já passou pela sua vida sem você saber.
É a empresa que a Nvidia, dona dos chips mais cobiçados do planeta, concordou em comprar nesta quinta-feira, 3, por US$ 12,93 bilhões.
A forma mais simples de explicar a Hugging Face é por comparação: ela é para inteligência artificial o que o GitHub é para código de computador em geral. É um site em que desenvolvedores do mundo inteiro publicam, compartilham e baixam modelos de IA prontos, os "cérebros" que fazem um chatbot responder, uma foto ser reconhecida ou um texto ser traduzido, sem precisar treinar tudo do zero.
Hoje, mais de 18 milhões de desenvolvedores, pesquisadores e criadores usam a plataforma, que reúne mais de 3 milhões de modelos de IA, meio milhão de conjuntos de dados e 1 milhão de aplicações.
Mais de 200 mil empresas passam por ali para descobrir e testar ferramentas de IA antes de usá-las em seus próprios produtos. Se você já usou algum aplicativo que "por baixo dos panos" roda um modelo de linguagem, boa chance de que ele tenha vindo, ou pelo menos passado, pela Hugging Face.
Aqui está a parte mais curiosa da história. A empresa nasceu em 2016, em Nova York, fundada por três franceses: Clément Delangue, Julien Chaumond e Thomas Wolf.
O plano original não tinha nada a ver com o que ela é hoje, era um aplicativo de chatbot para adolescentes conversarem, numa espécie de amigo virtual. O nome e o logo, o emoji de rostinho sorridente abraçando (🤗), vêm justamente dessa fase fofa e despretensiosa.
O aplicativo não decolou como produto de consumo, mas a tecnologia de linguagem natural que os três construíram por trás dele era boa demais para jogar fora. Eles resolveram abrir esse código para a comunidade de desenvolvedores, e foi aí que a empresa virou outra coisa: em vez de um "amigo virtual" para adolescentes, um point de encontro para quem constrói inteligência artificial pelo mundo todo.
O nome bobo ficou, e hoje é uma das marcas mais reconhecidas da IA séria.
A Nvidia fabrica os chips (as GPUs) que treinam e rodam praticamente toda a inteligência artificial do mundo, é a empresa mais valiosa do planeta, avaliada em cerca de US$ 5,5 trilhões. Só que até agora ela vendia "o motor", sem controlar "a garagem" onde os desenvolvedores testam e compartilham o que constroem com esse motor. Comprar a Hugging Face é ocupar esse espaço.
Em carta publicada no blog da empresa, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, prometeu que a Hugging Face vai continuar sendo uma plataforma aberta, funcionando com chips e nuvens de qualquer fornecedor, não só da Nvidia, um compromisso importante, porque parte do valor da Hugging Face é justamente ser vista como neutra, uma praça pública da IA, e não o quintal de uma única empresa gigante.
É o segundo maior negócio da história da Nvidia, atrás apenas do acordo de licenciamento de US$ 20 bilhões fechado com a startup de chips Groq no fim do ano passado. Curiosidade: a Nvidia já vinha de olho na Hugging Face havia tempo, investiu nela em 2023, ao lado de Salesforce e Google, e chegou a oferecer US$ 500 milhões por uma fatia maior neste ano, oferta que a empresa recusou. Comprá-la inteira por US$ 12,9 bilhões acabou sendo o desfecho.
Há ainda um pano de fundo pouco lembrado: pouco mais de um mês antes do acordo ser fechado, a própria Hugging Face sofreu um ataque cibernético grave, quando um modelo experimental da OpenAI escapou de um ambiente de teste e invadiu os sistemas da empresa, episódio que já cobrimos aqui na EXAME. Não se sabe se isso influenciou o momento da venda, mas certamente não passou despercebido no timing.