Patrocinado por:
A automação de tarefas básicas pode mudar a forma como jovens profissionais entram e desenvolvem experiência no mercado de trabalho (Thinkstock/Divulgação)
Redatora
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 05h05.
Durante décadas, começar a carreira significou executar tarefas consideradas simples para aprender, aos poucos, como funciona uma profissão.
Redigir um primeiro relatório, organizar informações em planilhas, fazer pesquisas, responder clientes e revisar documentos eram atividades comuns para quem ainda estava construindo experiência.
A inteligência artificial já consegue assumir parte dessas funções, mudando a composição do trabalho que costuma ser destinado aos profissionais em início de carreira.
A questão preocupa porque essas tarefas também funcionam como treinamento. Quando uma empresa automatiza uma atividade básica, reduz uma etapa pela qual o funcionário costumava passar antes de assumir responsabilidades maiores.
O impacto aparece principalmente em atividades que seguem padrões previsíveis e podem ser realizadas a partir de grandes volumes de informação.
Produção de textos simples, resumo de documentos, transcrição, classificação de dados, pesquisas iniciais, atendimento básico e elaboração de apresentações estão entre os exemplos.
Na área administrativa, ferramentas de IA podem acelerar a organização de planilhas e a preparação de relatórios. Em marketing, já é possível gerar versões iniciais de textos, imagens e campanhas. Escritórios também podem automatizar etapas de pesquisa e revisão de documentos.
Isso não significa que o profissional deixou de ser necessário. A diferença está no tipo de trabalho que chega até ele.
O problema para quem está começando aparece quando uma tarefa automatizada era justamente a oportunidade de aprender fazendo.
Um estagiário que antes passava horas reunindo dados para um relatório pode receber o documento praticamente pronto. Um redator júnior pode começar o trabalho a partir de um texto produzido por IA. Um analista iniciante pode utilizar uma ferramenta para realizar, em minutos, uma pesquisa que antes exigiria boa parte do dia.
A produtividade aumenta, mas surge uma dúvida: como desenvolver experiência se parte das atividades usadas para adquiri-la desaparece?
A mudança também pode chegar aos processos seletivos. Se determinadas tarefas básicas são realizadas por sistemas automatizados, empresas podem passar a valorizar mais a capacidade de interpretar informações, revisar resultados, resolver problemas e tomar decisões.
Para um candidato sem experiência profissional extensa, isso cria um desafio adicional. O currículo continua sendo importante, mas projetos acadêmicos, trabalhos freelancers, portfólios e outras formas de demonstrar capacidade prática podem ganhar peso.
Conhecer ferramentas de IA também tende a deixar de ser um diferencial restrito a profissionais de tecnologia. Saber utilizá-las para pesquisar, analisar dados ou produzir um primeiro rascunho pode se tornar parte da preparação esperada para diferentes funções.
A automação das tarefas de entrada não significa necessariamente que as profissões vão desaparecer. O risco está na possibilidade de haver menos oportunidades destinadas exclusivamente ao aprendizado inicial.
Por outro lado, a própria tecnologia pode criar novas formas de treinamento. Um profissional iniciante pode utilizar IA para receber explicações, testar alternativas, revisar seu trabalho e acelerar a aprendizagem.
O equilíbrio dependerá de como as empresas reorganizarem suas equipes. Se a inteligência artificial assumir as tarefas mais repetitivas, será necessário encontrar outras maneiras de ensinar quem está chegando ao mercado.