Patrocinado por:
IA na Gen Z: jovens estão desconfiados da tecnologia (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 28 de junho de 2026 às 07h55.
A geração mais íntima da inteligência artificial (IA) é também a que mais vem perdendo o encanto por ela. Entre os jovens americanos da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), o uso de IA generativa se mantém estável — metade recorre à tecnologia pelo menos uma vez por semana —, mas o entusiasmo caiu, a esperança diminuiu e a raiva aumentou no último ano.
É o que mostra um levantamento da Gallup, conduzido em parceria com a Walton Family Foundation e a GSV Ventures.
O dado mais revelador é que nem mesmo os usuários mais frequentes escapam dessa virada de humor: mesmo quem usa IA diariamente, e tende a ter uma visão mais favorável, ficou menos positivo do que era um ano atrás. A pesquisa ouviu 1.572 jovens de 14 a 29 anos entre 24 de fevereiro e 4 de março deste ano.
Diferentemente do que o discurso de adoção acelerada poderia sugerir, o uso de IA pela geração Z praticamente não mudou em um ano.
Em 2026, 51% dos jovens de 14 a 29 anos dizem usar IA generativa diariamente (22%) ou semanalmente (29%) — número estatisticamente igual ao de 2025. Os estudantes do ensino básico usam um pouco mais do que os adultos da mesma geração: 56% contra 48%.
Enquanto o uso ficou parado, os sentimentos pioraram significativamente.
Em apenas um ano, a parcela de jovens que se diz animada com a IA caiu de 36% para 22% — uma queda de 14 pontos percentuais. A esperança recuou de 27% para 18%, e a raiva subiu de 22% para 31%. A ansiedade permaneceu alta e estável, em 42%.
A emoção mais comum hoje, no entanto, é a curiosidade, sentida por 49% dos jovens — o único sentimento majoritariamente positivo que ainda resiste.
Há uma relação clara entre familiaridade e percepção: entre os usuários diários, 69% se dizem curiosos, 44% animados e 38% esperançosos.
Entre os que nunca usam IA, esses números despencam para 28%, 4% e 2%, respectivamente. As emoções negativas seguem o caminho inverso — 60% dos não usuários relatam ansiedade e 59%, raiva, contra 28% e 18% entre os usuários diários.
Ainda assim, nem mesmo o grupo mais engajado se salvou da desilusão. Entre os usuários diários, o entusiasmo caiu 18 pontos e a esperança, 11 pontos no último ano.
Boa parte do ceticismo se concentra em uma preocupação específica: a de que a IA atrapalhe o desenvolvimento das próprias habilidades. Oito em cada dez jovens da geração Z acham provável que usar ferramentas de IA dificulte seu aprendizado no futuro.
A desconfiança aparece em vários campos. A maioria acredita que a tecnologia será mais prejudicial do que útil para a capacidade de pensar com cuidado sobre informações (42% contra 25%) e de ter ideias próprias (38% contra 31%). A percepção de que a IA ajuda a trabalhar mais rápido caiu 10 pontos em um ano, para 56%, e a de que ela acelera o aprendizado recuou para 46%.
Entre os jovens que já trabalham, o ceticismo é ainda mais acentuado.
Os que veem mais riscos do que benefícios na IA no ambiente de trabalho (48%) são mais do que o triplo dos que enxergam o contrário (15%) — uma piora em relação ao ano anterior, quando a diferença era de 37% contra 20%.
A confiança também é desigual: 69% dos trabalhadores da geração Z confiam mais em um trabalho feito sem IA, contra apenas 28% que confiam em um trabalho feito com auxílio da tecnologia. Praticamente ninguém — 3% — confia mais em um trabalho produzido apenas por IA.
O retrato que emerge é o de uma geração presa em um paradoxo: usa a IA com constância, reconhece que precisará dominá-la — 52% dos estudantes acham que vão precisar saber usá-la na faculdade —, mas duvida cada vez mais de que ela a torne mais criativa, mais produtiva ou mais bem preparada.
A conveniência de curto prazo, para muitos desses jovens, parece não compensar o custo que ela pode ter sobre o aprendizado de longo prazo.
Para a Gallup, conquistar a confiança da geração Z vai depender menos de mostrar que a IA é rápida e mais de provar que ela pode ampliar — em vez de substituir — as capacidades humanas.
Por ora, quem mais convive com a tecnologia é também quem mais parece cobrar essa prova.