Gavekal: Por que a economia americana deve aguentar a guerra em Ormuz
EUA deixaram de ser grande importador líquido de energia e passaram a ocupar posição relevante como produtor


Mitchel Diniz
Editor de Invest
Publicado em 24 de março de 2026 às 05:00.
A escalada das tensões no Oriente Médio, com risco de interrupção no Estreito de Ormuz, reacendeu o temor de um novo choque energético global. Mas, para a Gavekal Research, o impacto sobre os Estados Unidos tende a ser mais limitado do que em crises anteriores — e o motivo passa por uma mudança estrutural na economia americana.
A casa argumenta que, embora o aumento dos preços de petróleo e gás pressione empresas e mercados, os EUA estão mais preparados para absorver esse choque.
Desde o início do conflito no Irã, em 28 de fevereiro, os preços de energia subiram e bolsas globais recuaram. Ainda assim, segundo o relatório, os mercados americanos tiveram perdas mais moderadas, refletindo a posição relativa mais favorável do país no cenário energético global.
Menor dependência externa de energia
O primeiro fator de resiliência é estrutural. Os Estados Unidos deixaram de ser um grande importador líquido de energia e passaram a ocupar posição relevante como produtor de petróleo e gás.
“Como grande produtor de petróleo e gás, o país não depende do fornecimento do Oriente Médio”, destaca o relatório.
Isso coloca a economia americana em vantagem em relação à Europa e a diversas economias asiáticas, que seguem altamente dependentes das rotas que passam pelo Estreito de Ormuz. Em caso de bloqueio prolongado, essas regiões tendem a enfrentar inflação mais alta e crescimento mais fraco.
Outro ponto relevante é o comportamento do gás natural. Embora o petróleo tenha preço global, o gás nos EUA segue descolado dos níveis observados na Europa e na Ásia, devido à capacidade limitada de exportação.
“Os EUA não estão enfrentando o mesmo choque de preços de gás observado na Europa e na Ásia”, afirma o documento.
Empresas mais eficientes no uso de energia
A segunda razão para a maior resiliência está dentro das próprias empresas. Nos últimos 15 anos, a economia americana reduziu sua intensidade energética — ou seja, passou a gerar mais produção com menos consumo de energia.
Segundo o relatório, “o uso de energia pelas indústrias privadas dos EUA, como proporção da produção bruta, caiu”.
Esse movimento não se explica apenas pela migração para o setor de serviços. Há também um ganho de eficiência e maior foco em atividades de maior valor agregado. Na prática, isso significa que aumentos no custo de energia têm impacto menor sobre margens e lucros.
Impacto limitado sobre lucros e investimento
Mesmo em um cenário de petróleo mais caro e possível convergência dos preços do gás, a Gavekal avalia que as empresas americanas estão em melhor posição para absorver o choque.
“A economia corporativa dos EUA é hoje mais resiliente a esse tipo de choque do que em ciclos anteriores”, afirma o analista Tan Kai Xian, autor do relatório.
Além da eficiência operacional, o balanço das empresas também mudou. A forte geração de caixa nos últimos anos — em parte sustentada por estímulos fiscais — reduziu a dependência de financiamento externo.
Com isso, o investimento tende a ser menos sensível à alta de juros. Ao mesmo tempo, os níveis de endividamento corporativo caíram, enquanto a capacidade de pagamento de juros melhorou, atingindo patamares considerados confortáveis.
Inflação e juros no radar
O choque energético ainda pode ter efeitos macroeconômicos relevantes, especialmente via inflação. A alta dos preços de energia tende a pressionar os índices, mas a Gavekal vê diferenças importantes em relação ao ciclo de 2022–2023, período em que as cotações também dispararam em função da Guerra na Ucrânia.
Naquele período, a inflação combinava fatores de custo e demanda. Agora, o choque deve ser predominantemente de custos, o que reduz a necessidade de um aperto monetário agressivo.
Ainda assim, um conflito prolongado pode colocar o Federal Reserve diante de decisões mais difíceis, sobretudo se os preços continuarem subindo.
Risco maior está nos mercados, não nos lucros
Para a Gavekal, o principal impacto do choque energético pode não vir da atividade econômica, mas dos mercados financeiros.
“O risco de uma queda acentuada nos lucros corporativos decorrente desse choque parece limitado”, diz o relatório.
Por outro lado, o aumento dos rendimentos dos títulos, impulsionado pela inflação de energia, pode pressionar as avaliações das ações — especialmente em um mercado já considerado caro.
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Mitchel Diniz
Editor de InvestJornalista há 20 anos, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pela FIA Business School. Passou pelas redações de Valor, Folha de S. Paulo, GloboNews e InfoMoney.
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