Depois do Oscar, Hurst Capital lança operação com filmes de Cannes e Sundance
Nova carteira financia distribuição de dois filmes no Brasil e na América Latina e projeta retorno de 26,75% ao ano aos investidores


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 06:00.
Depois de financiar a distribuição de Valor Sentimental, vencedor do Oscar de Filme Internacional, a Hurst Capital vai novamente buscar dinheiro de investidores para apostar na bilheteria — e no streaming — de produções cinematográficas. A gestora estruturou uma nova carteira para financiar a distribuição de Josephine e Acampamento Miasma no Brasil e na América Latina, com retorno projetado de 26,75% ao ano.
A operação foi montada em parceria com a MUV Capital e a distribuidora Retrato Filmes. Diferentemente de um investimento na produção, o dinheiro entra quando os filmes já estão prontos: financia despesas de lançamento, marketing e comercialização. Em troca, os investidores ficam com uma parcela dos recebíveis gerados pela exploração das obras em cinemas, aluguel digital e licenciamentos para plataformas e canais.
A carteira tem prazo projetado de dez meses, com receitas esperadas entre agosto deste ano e junho de 2027. O retorno de 26,75% ao ano é uma projeção no cenário-base, e não uma remuneração garantida. O resultado depende do desempenho comercial dos filmes e do prazo em que os recebíveis entram no caixa.
A Hurst está aumentando a aposta no audiovisual depois dos resultados de suas primeiras operações. Uma carteira anterior, que incluía Valor Sentimental, devolveu o equivalente a 2,1 vezes o capital investido em seis meses, segundo a companhia. Em outra operação semelhante, o retorno chegou a 29% ao ano em cinco meses.
A tese é transformar uma etapa normalmente financiada pelas próprias distribuidoras em um ativo acessível ao investidor. Em vez de apostar se um roteiro conseguirá sair do papel, a carteira assume o risco de obras já concluídas encontrarem público — e dinheiro — depois do lançamento. “Estamos avançando em uma tese que aproxima dois universos que historicamente estiveram distantes no Brasil: mercado de capitais e indústria audiovisual. O investidor passa a ter acesso a uma economia baseada em propriedade intelectual, audiência e distribuição, com uma dinâmica de geração de receita diferente daquela encontrada nos ativos financeiros tradicionais”, afirma Breno Reis, CEO da Hurst Capital.
De Cannes para a carteira
A maior aposta da nova carteira é Josephine, que ficará com 79% dos recursos. O filme é protagonizado por Channing Tatum e dirigido pela cineasta nipo-brasileira-americana Beth de Araújo. Depois de estrear no Festival de Sundance, a produção tem lançamento comercial previsto para novembro ou dezembro.
A estratégia de monetização vai além da bilheteria. A Retrato pretende explorar o título também por aluguel digital e pelo primeiro licenciamento para plataformas ou canais, com direitos que abrangem outros mercados da América Latina.
Os 21% restantes serão destinados a Acampamento Miasma, filme de terror protagonizado por Hannah Einbinder e Gillian Anderson. A produção chegou aos cinemas brasileiros em agosto e teve passagem pelo Festival de Cannes. Os direitos internacionais foram adquiridos pela MUBI.
A divisão entre dois títulos tenta reduzir uma das principais características de um investimento em cinema: a imprevisibilidade da audiência. Mesmo depois de pronto, um filme pode ter desempenho muito diferente do projetado nas salas e nas plataformas. “Não existe uma única fonte de monetização. Dependendo do título, a receita pode vir das salas de cinema, do aluguel digital, do licenciamento para streaming e da exploração em diferentes territórios. A seleção e a composição da carteira são fundamentais justamente para equilibrar essas diferentes possibilidades”, afirma Laura Rossi, diretora de Investimentos em Audiovisual da MUV Capital.
Do streming para o bolso
A estrutura também ajuda a explicar por que Hurst e MUV estão olhando para a distribuição, e não para a produção. Produzir um filme envolve financiar uma obra antes de saber exatamente quando — ou mesmo se — ela chegará comercialmente às telas. Na distribuição, a aposta ocorre em uma etapa posterior. Os títulos já foram produzidos e selecionados, e o capital é destinado principalmente à compra ou exploração de direitos, marketing e lançamento.
O investidor, portanto, não se torna produtor de Josephine ou Acampamento Miasma. O dinheiro é lastreado em direitos creditórios vinculados às receitas futuras da exploração comercial dos filmes.
A Hurst começou a testar essa tese em 2025. Em parceria com a Retrato, estruturou uma carteira com filmes que haviam passado pelos festivais de Cannes e Berlim, entre eles Sirât, Woman and Child, Two Prosecutors e Sorda. Na ocasião, a estrutura previa aportes a partir de R$ 10 mil e retorno estimado de 23% ao ano em oito meses.
A entrada de capital privado na distribuição ocorre num mercado que ainda tenta recuperar o público perdido durante a pandemia e, ao mesmo tempo, passou a contar com mais janelas de monetização. Em 2024, os cinemas brasileiros venderam mais de 125 milhões de ingressos e movimentaram aproximadamente R$ 2,5 bilhões em bilheteria, segundo dados da Ancine.
A aposta da Hurst é que parte desse dinheiro — somada às receitas posteriores de aluguel e licenciamento — possa virar também uma nova classe de ativo alternativo. O risco, no fim das contas, continua sendo conhecido de qualquer estúdio de Hollywood: o filme precisa encontrar público.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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