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Mercados

As empresas estão saindo da bolsa. O que isso diz sobre o futuro do mercado de capitais

Com mais capital disponível no mercado privado e ações negociadas a múltiplos baixos, permanecer na bolsa deixou de ser o destino natural das grandes empresas

Ibovespa: ações acumulam perdas. (Germano Lüders/Exame)
Ibovespa: ações acumulam perdas. (Germano Lüders/Exame)
João Kepler

João Kepler

CEO Equity Fund Group e colaborador

Publicado em 8 de agosto de 2026 às 09:00.

Durante décadas, abrir o capital foi tratado como o ápice da trajetória de uma empresa. O IPO simbolizava maturidade, acesso a recursos, liquidez para os acionistas e reconhecimento do mercado. Parecia um caminho natural: crescer, abrir capital e permanecer na bolsa para sempre.

Mas esse roteiro começou a mudar.

Nos últimos anos, um movimento ganhou força no Brasil e no mundo: empresas estão deixando as bolsas de valores. E, ao contrário do que muitos imaginam, isso nem sempre acontece porque os negócios estão em dificuldades. Em diversos casos, ocorre porque seus controladores entendem que manter essas companhias fora do mercado público pode gerar mais valor no longo prazo.

Um exemplo recente chamou atenção do mercado. Multinacionais estão acelerando a retirada de suas subsidiárias da B3, aproveitando o baixo preço das ações para recomprar as participações de investidores minoritários e fechar o capital. O número de empresas listadas na bolsa brasileira caiu de 394, em 2022, para 344 em junho de 2026. Entre os casos mais conhecidos estão Santander Brasil, EDP Brasil e Carrefour Brasil. Sem falar da Neogrid, Serena Energia, Neoenergia, Mills, entre outras.

Esse movimento merece uma reflexão. Se os próprios controladores, que conhecem a empresa melhor do que qualquer analista ou investidor, estão aumentando sua participação por meio da recompra de ações, é razoável concluir que acreditam que o valor econômico de longo prazo dessas companhias seja superior ao preço que o mercado está disposto a pagar neste momento. Isso não significa que o mercado esteja "errado", mas mostra que os controladores possuem uma visão diferente sobre o potencial futuro daqueles ativos.

Para grupos internacionais que possuem caixa em dólar ou euro, determinados ativos brasileiros passaram a ser negociados com descontos relevantes quando comparados a mercados mais desenvolvidos. A combinação entre juros elevados, percepção de risco, câmbio e múltiplos mais baixos faz com que algumas aquisições se tornem particularmente atrativas. Em muitos casos, adquirir uma operação já consolidada pode ser economicamente mais eficiente do que construir uma equivalente do zero.

Mas a verdade é que ser uma companhia aberta nunca foi tão desafiador. Além dos custos com auditorias, compliance, governança corporativa, relações com investidores e exigências regulatórias, existe a pressão permanente por resultados de curto prazo.

O mercado acompanha os resultados trimestrais com enorme intensidade. Analistas revisam projeções constantemente e pequenas diferenças entre expectativa e realidade podem provocar oscilações relevantes no preço das ações. Muitas vezes, o comportamento do mercado reflete muito mais mudanças nas expectativas do que alterações estruturais na qualidade do negócio.

Isso cria um dilema para muitos executivos.

E isso termina criando um certo dilema para os executivos e conselho. Projetos capazes de gerar enorme valor em cinco ou dez anos frequentemente exigem investimentos que reduzem a rentabilidade no curto prazo. Em consequência, parte da administração acaba direcionando esforços para atender às expectativas imediatas do mercado, quando poderia estar concentrada na construção de vantagens competitivas mais duradouras.

Ao fechar o capital, essa pressão tende a diminuir. Os gestores passam a ter maior liberdade para realizar investimentos de longo prazo, promover reestruturações, acelerar processos de inovação, investir em inteligência artificial, realizar aquisições e executar transformações estratégicas sem que cada decisão seja imediatamente refletida na cotação das ações.

Existe outro aspecto igualmente importante. Uma empresa aceita todos os custos de permanecer listada porque espera receber benefícios proporcionais, especialmente o acesso eficiente ao mercado de capitais para financiar seu crescimento. Quando novas emissões deixam de representar uma alternativa competitiva de captação de recursos, o custo de manter o capital aberto pode superar, para algumas companhias, os benefícios econômicos dessa estrutura. Naturalmente, esse cenário não decorre da atuação da B3 em si, mas do ambiente macroeconômico, do custo de capital, da percepção de risco e das condições do mercado financeiro brasileiro.

Ao mesmo tempo, o mercado privado nunca teve tanto capital disponível. Fundos de private equity, venture capital, family offices, fundos soberanos e investidores institucionais movimentam hoje trilhões de dólares ao redor do mundo. Empresas conseguem financiar crescimento, realizar aquisições e acelerar sua expansão utilizando diferentes fontes de capital, muitas vezes sem precisar recorrer ao mercado público.

Essa transformação mudou profundamente a lógica da criação de valor. Durante muito tempo, acreditava-se que a maior valorização de uma empresa acontecia depois do IPO. Hoje, em muitos casos, boa parte da criação de valor ocorre antes da abertura de capital e, em algumas situações, continua sendo construída integralmente no mercado privado.

É justamente por isso que tenho defendido, há bastante tempo, que o melhor momento para investir em uma grande empresa costuma ser quando ela ainda não parece tão grande.

Historicamente, muitos investidores concentravam sua atenção nas empresas já listadas. Hoje, parte das maiores oportunidades continua surgindo no mercado privado, onde ainda existem maiores assimetrias de informação, menor competição por ativos e maior potencial de criação de valor.

Isso não significa que o mercado privado seja superior ao mercado público. Ambos desempenham papéis fundamentais no desenvolvimento econômico e atendem empresas em diferentes momentos de sua trajetória. O que mudou foi o fato de que a bolsa deixou de ser a única alternativa relevante para financiar crescimento.

Curiosamente, o mesmo desconto que leva algumas multinacionais a recomprar suas subsidiárias também desperta o interesse de fundos de private equity e investidores estratégicos. Investidores de longo prazo costumam procurar ativos cuja percepção de valor futuro seja superior ao preço praticado pelo mercado naquele momento.

O fechamento de capital também não deve ser interpretado automaticamente como um sinal positivo. Em alguns casos, ele decorre da convicção dos controladores de que a empresa vale mais do que o preço de mercado. Em outros, pode refletir reorganizações societárias, simplificação da estrutura corporativa, mudanças estratégicas ou uma avaliação de que o mercado local deixou de ser a melhor plataforma para financiar seu crescimento. Cada operação possui motivações próprias e precisa ser analisada individualmente.

Esse movimento também produz efeitos para o mercado brasileiro. A redução do número de companhias listadas tende a diminuir a diversidade de oportunidades disponíveis aos investidores e pode reduzir, em determinados segmentos, a atratividade relativa da B3 para alguns investidores institucionais internacionais. Ao mesmo tempo, reforça a importância de criar um ambiente econômico capaz de estimular novas aberturas de capital e fortalecer o mercado de capitais nacional.

Na minha visão, estamos assistindo a uma mudança importante na dinâmica do financiamento empresarial.

Abrir capital deixou de ser uma etapa obrigatória da jornada de crescimento para se tornar uma decisão estratégica entre diversas alternativas disponíveis.

No fim, empresas que constroem valor de forma consistente conquistam a liberdade de decidir qual estrutura de financiamento faz mais sentido para a sua estratégia em cada momento da sua trajetória. Essa talvez seja uma das transformações mais relevantes do mercado de capitais nos últimos anos.

Para quem decide. Por quem decide.

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João Kepler

João Kepler

CEO Equity Fund Group e colaborador

Escritor | Educador l Anjo Investidor l CVO Bossa Invest l CEO Equity Fund Group

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