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SAF ou DAO? Alternativas que o tempo trará à profissionalização do futebol

Com blockchain, Organizações Autônomas Descentralizadas, ou simplesmente DAOs, podem ser alternativa ao modelo de clubes-empresa no futebol brasileiro

Brasil deverá ganhar primeiro clube de futebol gerido por uma DAO nos próximos meses (Fernando Torres/CBF/Agência Brasil)

Brasil deverá ganhar primeiro clube de futebol gerido por uma DAO nos próximos meses (Fernando Torres/CBF/Agência Brasil)

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Da Redação

Publicado em 30 de maio de 2022 às 17h00.

Por Bruno Maia*

A corretora cripto Mercado Bitcoin anunciou na semana passada que vai criar um clube próprio e que ele será gerido por uma DAO (sigla em inglês para Organização Autônoma Descentralizada), uma atitude que surpreendeu o cenário esportivo no Brasil. Afinal, a empresa entrou forte em associação com clubes, desenvolvendo produtos e patrocínios com torcidas como Vasco, Santos e Corinthians. A iniciativa não é novidade fora do país, ainda que siga sendo um modelo imaturo, em desenvolvimento, porém de grande potencial, considerando-se as mudanças comportamentais nas áreas de finanças e investimento, principalmente as ideias de descentralização. No mesmo momento em que se fala tanto das Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs) como caminhos para os clubes brasileiros, vale a pena entender do que se trata essa nova alternativa.

Há alguns meses, uma DAO vinha sendo apontada como uma das possíveis compradoras do Denver Broncos, um dos grandes times da NFL, a liga de futebol americano, e maior entidade esportiva em valor de mercado no mundo. Imagine um grupo de torcedores se unindo para comprar (ou formar) um time em que cada centavo investido reveste o comprador de determinados poderes de decisão, tudo sendo operado de maneira automatizada, transparente, sem que nenhuma pessoa se coloque como intermediário entre as vontades dos acionistas e a adoção pelo clube. Grosso modo, é por aí.

(Mynt/Divulgação)

De maneira mais técnica, as DAOs são organizações que representam o interesse de um grupo de pessoas que se une com um fim específico e constituem uma estrutura jurídica em forma de código, com regras específicas de governança, em uma rede blockchain, dispensando a necessidade de uma liderança centralizadora das tomadas de decisão. Esse código substituiria, de certa forma, os obsoletos estatutos dos clubes e permitiria uma interação aberta de todos os integrantes de acordo com o que está previsto e com o poder de cada um dos membros. Isso pode ser definido por quantidade de investimento de cada um ou por qualquer regra que esteja prevista no código.

Para quem não sabe das características de um blockchain, por ora basta dizer que elas garantem transparência, imutabilidade e segurança para que tal governança possa acontecer. São as qualidades deste tipo de rede que substituem a necessidade de um agente intermediário que represente os membros.

Uma série de “contratos inteligentes” passam a ser gerados a partir das interações e decisões dos membros da DAO garantindo a execução das estratégias escolhidas no dia a dia do clube. Alguém pode ver semelhança com os tais “fan tokens” que estão sendo muito ventilados nos últimos meses. Eles também são modalidades viáveis por se estruturarem em redes blockchain, mas por enquanto estão apenas atrelados a benefícios específicos que são autorizados pelo clube ou não. Com a DAO, isso seria regra e o detentor desse token seria, de fato, acionista da empresa.

O exercício desses direitos e responsabilidades de cada membro sobre a DAO, se dá através de tokens, que passam a funcionar como espécie de ações ordinárias do mercado financeiro. Os valores arrecadados com a venda deles entra para o caixa da empresa/clube, ficando disponível para desenvolver ainda mais os projetos da entidade. Cada um desses tokens tem suas atribuições previamente definidas naquele tal código da organização, bem como as regras que definem condições para aquisição e transferência dos mesmos.

Isso pode se dar desde uma política de precificação, até como que tipo de restrições podem ser aplicadas para evitar a entrada de membros que não sejam do interesse da DAO. Quer evitar um torcedor de outro time? É só definir isso de maneira clara no código. No futebol, poderiam ser definidas as políticas de contratação e rescisão de jogadores, bem como a adesão a uma liga ou ainda a adoção a campanhas de caráter social pelo departamento de marketing.

As DAOs vêm avançando rapidamente com o desenvolvimento de aplicações e funcionalidades, conhecida como “Web3”, termo usado para se referir a um novo estágio de desenvolvimento da internet como a conhecemos, baseada na tecnologia blockchain, permitindo maior descentralização das informações, que hoje estão altamente concentradas na mão das chamadas "Big Techs", como Google, Amazon Apple, Microsoft e Facebook.

A venda do Denver Broncos está estimada em 4 bilhões de dólares, que seria o dinheiro que a DAO precisaria levantar para assumir o controle do time das mãos dos atuais donos. A iniciativa tem sido liderada por Sean O’Brien, um funcionário da área jurídica da gigante Cisco, que acredita que a DAO pode permitir aos torcedores serem investidores e acionistas do clube. Ainda é pouco provável imaginar que a iniciativa de O’Brien vá captar todo o dinheiro necessário para atingir seus objetivos, mas o esboço dessa iniciativa pode estar no início de uma nova fase de investidores. Além disso, a NFL, que tem o direito de aprovar ou não a venda das franquias que a constitui, ainda não se pronunciou sobre a possibilidade da franquia ser adquirida por uma DAO.

No caso do Mercado Bitcoin, a pretensão é criar do zero essa nova entidade, gerando uma série de tokens que serão comercializados abertamente ou distribuídos entre quem já é cliente da plataforma. Todas as decisões passarão pela interação com os investidores e detentores de tokens, a começar pelo nome da equipe. Imaginando toda a trajetória que os clubes devem cumprir até chegar às principais divisões do futebol brasileiro, é de se prever um planejamento de longo prazo até que haja retornos financeiros expressivos. De toda forma, com a iniciativa, o Mercado Bitcoin joga luz sobre um formato que pode atrair dezenas de outras instituições e para as quais ele pode servir de plataforma. É um jogo de educação financeira e cultural.

Ainda existem fragilidades no modelo das DAOs que vêm sendo cada vez mais corrigidas, tais quais o aperfeiçoamento em questões como privacidade, limitações dos contratos inteligentes e até resistência a fraudes. É cedo para se avaliar se já existe maturidade, especialmente no mercado brasileiro para uma iniciativa assim, ainda que seja evidente se tratar de um projeto de longo prazo.

As DAOs serão uma das grandes novidades em termos de estruturas jurídicas para próxima década para além do esportes. Algumas já estão conseguindo se capitalizar de maneira expressiva, tornando-se opções de investimento, especialmente para quem está familiarizado com o universo de criptomoedas, que acaba tendo mais proximidade com os conceitos principais. Isso é só uma questão de tempo.

A própria popularização das criptomoedas no mercado financeiro reflete o avanço de conceitos e soluções de Web3 e blockchain no nosso tecido social e isso se reflete no futebol. Novas tecnologias nos permitem transformar a forma como nos relacionamos e criamos o mundo que nos cerca. As DAOs serão cada vez mais comuns na sociedade das próximas décadas e vão encontrar o esporte rapidamente. É questão de tempo para sentirmos o entendimento e absorção legal dessas novas possibilidades. Talvez seja uma segunda, terceira ou quarta fase do modelos da SAF, mas é um futuro que já começa a se anunciar.

*Bruno Maia é executivo de inovação no esporte e CEO da Feel The Match e autor do livro "Inovação é o Novo Marketing"

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