Opinião: inverno cripto ou inverno econômico?

Queda do mercado cripto não pode ser analisada isoladamente, já que outros mercados de risco também têm sofrido muito ao longo de 2022
Criptomoedas vivem mau momento, mas cenário em outros mercados de risco, como ações, não é muito diferente (Ja'Crispy/Getty Images)
Criptomoedas vivem mau momento, mas cenário em outros mercados de risco, como ações, não é muito diferente (Ja'Crispy/Getty Images)
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Da Redação

Publicado em 18/07/2022 às 14:57.

Última atualização em 18/07/2022 às 16:39.

por José Artur Ribeiro*

O ano de 2022 está se apresentando como um dos mais desafiadores para investidores de criptomoedas. Diferentemente do ano passado, a performance das criptos não decolaram e os bons resultados estão sendo superados por quedas consecutivas.

Nesse contexto, não param de surgir comentários sobre o "fim das criptomoedas", ou a "morte do bitcoin". No entanto, a realidade passa longe disso e, se analisarmos o todo o cenário econômico, é fácil perceber que o BTC está passando por movimento similar ao de outros ativos de renda variável.

(Mynt/Divulgação)

Comparações corretas

Nesses momentos de queda, a solução de muitos especialistas é comparar o desempenho do bitcoin com outros momentos de seu histórico. Porém, quando seguimos esse caminho, deixamos de considerar todas as variáveis que impactam o preço de um ativo de renda variável.

De fato, o ano do bitcoin não é nada positivo. Os seis primeiros meses deixaram uma marca de queda, registrando perda acumulada de 60%. Em meados de junho, a moeda alcançou o menor patamar desde 2020, quando foi negociada na casa dos US$ 17.000 nos mercados globais.

Esse preço está longe de sua máxima histórica, de novembro de 2021, quando a moeda alcançou a marca de US$69.000.

Porém, comparar a performance do bitcoin com outros momentos é equivocado. O correto é colocar na balança essa performance ao lado de outros ativos de renda variável, afinal, aplicam-se as mesmas regras, como oferta e demanda e volatilidade do mercado.

Comparando com outros ativos, a queda do bitcoin não é um caso isolado. Aqui no Brasil, ações que já foram as mais importantes da Bolsa também amargam quedas significativas no ano.

As ações do Magazine Luiza, por exemplo, já foram consideradas as mais promissoras da B3, saltando da categoria de small caps para presença importante no Ibovespa. No fechamento do semestre, no entanto, registrou queda de 66,07%.

O mesmo tem acontecido com ações de empresas relacionadas a tecnologia. Meliuz caiu 66,67%, Via perdeu 63,43%, desvalorizações que superam a performance do bitcoin, enquanto Locaweb, que teve queda de 57,29%, e Americanas, que derreteu 56,40%, se aproximam do patamar da maior criptomoeda do mundo.

Se olharmos para as ações de empresas americanas, as quedas também são grandes. Este ano, a bolsa dos EUA teve o pior semestre desde 1970. Para fins de comparação, as ações da poderosa Netflix (NFLX) despencaram 70% desde o começo do ano.

Dessa forma, dizer que estamos diante de um "inverno cripto" é desconsiderar todos os elementos presentes na economia mundial. O momento indica que ativos de renda variável, como criptomoedas, ações e índices, estão todos no mesmo barco.

O que acontece com o mercado cripto

Para entender o que está acontecendo com as criptomoedas e encontrar a resposta para “por que o bitcoin está caindo?”, é preciso entender todos os fatores que impactam a economia mundial.

Nos últimos meses, diversas ações relacionadas às políticas monetárias foram realizadas para tentar conter o avanço da inflação em todo mundo. Mesmo em economias mais sólidas, como a americana, dados relacionados ao desemprego e inflação avançam de forma arrasadora e batem recordes consecutivos.

Além disso, o ano de 2022 está sendo marcado por um conflito, por enquanto interminável, na Europa. A incerteza sobre o fim, amplia a necessidade de sanções econômicas e afeta itens econômicos quase que diariamente.

Por fim, ainda existem as consequências das medidas tomadas para amenizar o impacto da pandemia em todo mundo. Um volume considerável de dinheiro teve que ser colocado em circulação para possibilitar a luta e a sobrevivência em uma época de pandemia global.

Hoje, instituições reguladoras, como o Fed e o Banco Central, aumentaram e ainda estão aumentando as taxas de juros desde o começo do ano. O resultado desse contexto é a fuga para alternativas mais conservadoras e a retirada de ativos mais voláteis como as criptomoedas e as ações.

O que acontecerá com as criptomoedas

Entendendo esse contexto, fica mais fácil perceber que o "inverno cripto" pode ser considerado, na verdade, um "inverno econômico". Estamos diante de um momento complicado, porém, isso não afeta os fundamentos das criptomoedas.

Alternativas como o bitcoin continuam sendo um bom caminho para investidores que acreditam que esse é o ativo do futuro, principalmente levando em conta todos os avanços, segurança e facilidade de negociação.

*José Artur Ribeiro é o CEO da corretora cripto brasileira Coinext.

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