Estátua de Satoshi Nakamoto inaugurada na Hundria em setembro de 2021 (Janos Kummer/Getty Images)
Editora do Future of Money
Publicado em 17 de abril de 2026 às 18h27.
Última atualização em 17 de abril de 2026 às 18h46.
A identidade do criador misterioso do Bitcoin nunca foi revelada, mas é especulada há mais de uma década e meia desde o seu lançamento, em 2008, sob o pseudônimo “Satoshi Nakamoto”.
Recentemente, o assunto voltou à tona quando um jornalista do The New York Times, premiado pelo Pulitzer, afirmou que o criptógrafo Adam Back é Satoshi. Back foi o criador do Hashcash e é mencionado no whitepaper do Bitcoin, documento divulgado em 2008 que detalha o projeto, mas negou ser Satoshi Nakamoto.
A verdade é que o criador misterioso do Bitcoin desperta questionamento não só por sua identidade, mas também pelas carteiras cripto que deixou com cerca de 1,1 milhão de bitcoins intocados. O montante valeria atualmente mais de US$ 80 bilhões, colocando Satoshi Nakamoto entre as pessoas mais ricas do mundo.
Além da fortuna intocada, a quantidade de bitcoins pode representar um risco de impacto no mercado, caso seja movimentada e vendida. Desde o sumiço de Satoshi, o mercado de criptoativos evoluiu de forma expressiva, saindo de algo “alternativo” até os bancos e gestoras tradicionais, como BlackRock, Fidelity, Morgan Stanley, JP Morgan, BTG Pactual e Itaú.
A EXAME ouviu especialistas do setor para entender quais seriam os resultados de uma possível reaparição de Satoshi Nakamoto ou, por exemplo, que Adam Back seja confirmado como o verdadeiro criador do Bitcoin.
Fernando Ulrich, conselheiro da OranjeBTC, empresa listada em bolsa que investe em bitcoin como estratégia de tesouraria, disse que a reaparição seria um “estrondo midiático”.
Já Fabrício Tota, vice-presidente de negócios cripto do Mercado Bitcoin, revelou que a volta de Satoshi Nakamoto “é um dos maiores medos de alguns investidores”.
Diego Kolling, head de estratégia de bitcoin no Méliuz, empresa listada em bolsa que investe em bitcoin como estratégia de tesouraria, também afirmou que desaparecer “foi uma das principais coisas que Satoshi fez”. Para ele, o sumiço retirou do Bitcoin qualquer risco pessoal e alavanca de poder, permitindo que o projeto avançasse com base nas melhores ideias, e não na autoridade do criador.
Pensando de forma similar, Fernando Ulrich disse à EXAME que, caso decidisse expor sua verdadeira identidade, Satoshi Nakamoto precisaria prová-la, o que atualmente pode ser difícil. Isso porque uma das únicas formas de provar que se é o criador do Bitcoin seria movimentar as carteiras cripto atreladas à sua identidade, que podem ter tido suas chaves privadas perdidas ou compartilhadas com outras pessoas que não o criaram.
“A essa altura do campeonato é bem difícil o próprio Satoshi conseguir comprovar a sua identidade. Eu digo isso porque ele pode ter compartilhado suas carteiras e senhas com outra pessoa. E agora essa pessoa que tem a senha pode movimentar os bitcoins”, disse Ulrich à EXAME.
Para o conselheiro da OranjeBTC, ainda que o criador do Bitcoin consiga comprovar sua identidade, “ele acabaria sendo mais uma voz dentre tantas outras e precisaria convencer o restante da rede com base nos argumentos no mérito das suas ideias”.
Ao contrário de muitos investidores, que hoje em dia desejam que Satoshi Nakamoto permaneça anônimo, Diego Kolling, do Méliuz, não considera que um retorno seria algo negativo, e mapeou quatro motivos pelos quais o criador do Bitcoin poderá retornar:
“Seria extraordinário ter uma mente tão poderosa pensando conosco novamente sobre como fazer o Bitcoin melhor. Mas convenhamos: se ele está vivo, é provável que já tenha feito contribuições como anônimo — e talvez faça até hoje. O Bitcoin tem e teve contribuidores que não ficam devendo nada a ele em capacidade”, concluiu Kolling à EXAME.
Fabrício Tota também mencionou um possível forte acompanhamento de Satoshi, caso ele retornasse:
“Se o Satoshi reaparecesse, o mercado ia acompanhar cada movimento dele, tanto no blockchain quanto na vida real. Especialmente sobre qualquer sinal de venda. Moveu as moedas? Para onde? Vendeu? Como vendeu? Onde vendeu? Para quem? Antes da venda em si, o que acende o pavio é o movimento no blockchain: as carteiras atribuídas a Satoshi são monitoradas 24 horas por dia. Quais carteiras foram movimentadas? São todas de fato de Satoshi? Os gatilhos seriam fascinantes, e assustadores para uma parte do mercado”, disse.
Fernando Ulrich mencionou uma “turbulência passageira” no mercado. Enquanto em determinados momentos, a venda de 1,1 milhão de BTC poderia representar “o fim”, Ulrich acredita que o mercado já evoluiu para absorver essa demanda sem colocar em cheque o futuro do Bitcoin.
“Não se pode negar, a volta do Satoshi é um dos maiores medos de alguns investidores. Medo de oferta inesperada, medo de o mito virar um risco de curto prazo. Ainda assim, eu apostaria que o preço não demoraria a estabilizar depois do choque inicial. Talvez até subisse de forma expressiva. Um medo a menos para se lidar no futuro. O Bitcoin já virou grande demais para depender de uma figura, mesmo que seja o seu criador. A criatura se libertou do criador”, disse Fabrício Tota, vice-presidente do Mercado Bitcoin.
“O Bitcoin foi desenhado justamente para não depender de ninguém, nem mesmo de quem o criou. É exatamente isso que garante a sua resiliência e o crescimento da adoção ao longo do tempo”, concluiu.
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