O declínio do Facebook não vem só pelo Tiktok: conheça a Web3, nova fase da internet

A lógica como a internet passa a se organizar com os avanços das redes blockchain também criam uma nova lógica econômica
Web 3 é a nova fase da internet (ipopba/Getty Images)
Web 3 é a nova fase da internet (ipopba/Getty Images)
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Bruno MaiaPublicado em 07/09/2022 às 10:06.

Por Bruno Maia*

O declínio do modelo que consagrou o Facebook e as outras redes sociais parece estar em declínio e parte dessa mudança é comumente creditada ao Tiktok. Não que a plataforma chinesa não mereça créditos, mas há algo anterior a isso e outros elementos na mesa que nos ajudam a projetar o futuro. Sobretudo, o crescimento das redes de blockchain e a Web3.

Precisamos estabelecer duas referências a respeito da “Era das Redes Sociais”, também conhecida como Web2, ou WebSocial. Não é possível ser exato sobre quando começa uma fase ou termina outra, a transição é lenta e fluída, mas não chega a ser errado citar o período entre 2004 e 2020 como o de predominância da Web2.

Neste período, a internet se consolidou como principal meio de veiculação de informações no planeta e sob a premissa de habilitar todo mundo para produzir e distribuir conteúdo. Os grandes negócios foram as plataformas que permitiam isso acontecer da maneira mais divertida, ou seja, as chamadas redes sociais. Começamos essa fase com a internet como coadjuvante e terminamos com ela como protagonista das comunicações.

(Mynt/Divulgação)

Também vimos se confirmar um conceito teórico lançado em 2001, por Thomas Davenport e John Beck, chamado “Economia da Atenção”, que, grosso modo, trata a nossa capacidade humana de dar atenção a tantos e crescentes estímulos como um recurso escasso e aponta o valor que o controle disso teria na sociedade do século 21.

Nessas duas primeiras décadas, vimos a tese se confirmar e o valor que as plataformas que controlaram as nossas publicações de conteúdos se tornarem algumas das maiores empresas do mundo, sendo o Facebook o melhor exemplo disso. Só que quando todo mundo é produtor de conteúdo e novas gerações nativas deste contexto emergem, o valor intrínseco se perde.

Não à toa, o salto que o Tik Tok traz é o de priorizar a distribuição massificada dos melhores produtores de conteúdo, da mesma forma como a rádio e a TV já fizeram décadas atrás. E inicia-se um processo reverso de concentração do poder da mensagem nas mãos de poucos e poderosos emissores. É o caminho natural, principalmente porque a humanidade não inventou nada melhor para financiar a produção de conteúdo do que a publicidade. Afinal, a publicidade, desde sempre, quer a sua atenção.

Isso nos leva tanto ao momento de predomínio do Tiktok, quanto as discussões, por exemplo, de entrada de publicidade nas plataformas de streaming, como a Netflix. Quando todo mundo produz e distribui conteúdo, a conta dificilmente fecha, a não ser pela publicidade, que escolhe sempre investir onde existe mais atenção. Não é à toa que Facebook e Netflix, dois gigantes das últimas décadas, se encontram em xeque de seus modelos ao mesmo tempo.

Na esteira desse esgarçamento do modelo de distribuir conteúdos sociais, uma transformação acelerada pelas plataformas da Web2 não tem reversão: nossas vidas estão totalmente digitalizadas. Desde nossas carteiras de vacinação, nossos pedidos por comida, transporte, até mesmo os registros de transações particulares.

Se os bancos físicos foram praticamente extintos, não é difícil prever esse futuro para os cartórios, por exemplo. A credibilidade que os meios digitais atingiram já estão validadas por muitos países, em vários níveis do estado. É questão de tempo a chegar a 100%.

E nesse sentido, as redes sociais nasceram também como uma espécie de cartório de registros da nossa possibilidade de criar e produzir conteúdo, cobrando para ela as taxas de remuneração que as nossas produções geravam. E assim a publicidade se espalhou por elas, fazendo-as gigantes. E isso também está acabando.

Com a chegada da Web3, as redes blockchain ganham um valor revolucionário por permitirem justamente que a autenticidade e propriedade das informações sejam diretamente reconhecidas e direcionadas a quem de direito, reduzindo a necessidade de intermediação.

Engana-se quem pensa que essa autenticidade atenda apenas a criadores de conteúdo. Não, ela se estende a todas as dimensões sociais, afinal de contas, os cartórios e afins não servem apenas para se registrar ideias, mas todo e qualquer certificado de autenticidade inquestionável.

Essa é a chave da Web3, que nos permite evoluir da Web2. Se na fase anterior, nós fomos habilitados a existir e sermos protagonistas do que circulava na rede, agora nos tornamos aptos a sermos donos. Já começam, por exemplo, a avançar as plataformas de blockchain para registro e exploração comercial de imóveis.

Você pode comprar um apartamento, ter o registro digital dele através de um token, com autenticidade garantida, que além disso pode ser fracionada em centenas de partes, todas elas automaticamente reconhecidas como originais. No caso deste imóvel ser alugado, o valor é pago ao detentor do token e dividido imediatamente entre todos os donos das frações daquele imóvel, de maneira segura.

Este potencial da Web3 se junta à comoditização das plataformas de conteúdo produzido pelo usuário, e ferem gravemente o modelo de negócio que fez as empresas de redes sociais tão grandes assim. Evidente que, pela força econômica já adquirida, essas companhias têm reservas suficientes para se reinventar e nos oferecerem novas possibilidades e ferramentas. Mas a história do mundo costuma se repetir de maneira bastante sem graça e não é difícil prever que vários desses gigantes morrerão tentando salvar o que lhes fez enorme, em vez de abraçar e estimular o novo.

*Bruno Maia é CEO da Feel The Match e especialista em inovação e novas tecnologias do esporte e entretenimento.

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