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Investimento em royalties musicais rende mais que ativos tradicionais; veja como funciona

Ainda inicial no Brasil, empresas enxergam potencial de crescimento do setor apesar de riscos e desconhecimento

Investimento em músicas a partir de criptoativos gera renda mensal ligada ao pagamento de direitos de reprodução (Hannah Carvalho/Divulgação)

Investimento em músicas a partir de criptoativos gera renda mensal ligada ao pagamento de direitos de reprodução (Hannah Carvalho/Divulgação)

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João Pedro Malar

10 de novembro de 2022, 08h00

Ouvir uma música pode ir muito além de um momento de distração e prazer, e inclusive se tornar uma forma de ganhar dinheiro. Para isso, entram em ação os chamados royalties musicais, um pagamento dado aos autores de canções por aqueles que as reproduzem. Até recentemente, esses direitos ficavam restritos aos próprios artistas, às gravadoras e distribuidoras, mas graças ao uso de novas tecnologias, como o blockchain, a situação mudou, e qualquer pessoa já pode investir no mercado musical.

A união de royalties musicais com a tecnologia blockchain, permite que os direitos autorais de músicas sejam tokenizados, ou seja, transformados em criptoativos que podem ser comprados e vendidos por qualquer pessoa e que dão ao seu proprietário o direito de receber o pagamento proporcional à participação daquele token no total de direitos daquela obra.

Apesar da implementação recente, o mercado tem apresentado bons resultados nos últimos meses. Dados da Brodr, uma plataforma brasileira de negociação de royalties tokenizados, apontam que em setembro os ativos oferecidos tiveram uma rentabilidade que variou entre 0,43% e 3,42% dependendo da música.

O valor é superior ao rendimento de formas de investimento tradicionais no mesmo período, como a poupança, o CDI e o Tesouro Direto, perdendo apenas para os investimentos em dólar, uma modalidade mais arrojada.

Outra plataforma brasileira que negocia royalties musicais tokenizados é a Tune Traders. Um dos principais casos de sucesso da empresa envolve a faixa "Travo", dos artistas Paulo Novaes e AnaVitoria. Vendido por R$ 46 em 2019, ele já teve uma valorização acumulada de 13%, com projeção de alta de 21,7% até o fim da oferta.

Além dos resultados, o setor tem tido uma adoção crescente entre grandes artistas e bandas. Nomes como Snoop Dogg, Chainsmokers, Zeca Baleiro, Ivan Lins e Nando Reis já aderiram à tokenização de royalties de suas obras.

A solução também é interessante para artistas em começo de carreira, que conseguem rentabilizar um valor que não tinham garantia de que receberiam, já que os royalties só seriam pagos no caso da obra se tornar conhecida e muito executada.

Para os investidores, a opção de investimento é uma aposta: se o artista ou a música "estourar", o lucro será muito maior em relação ao valor investido. No caso de um artista já consagrado, os tokens de royalties costumam também serem mais caros, dado que a chance de retorno é muito maior.

Atualmente, plataformas como a Brodr, Tune Traders, ANote Music, Foxbit, Phonogram.me, Vezt, Dequency e Royal, entre outras, oferecem a modalidade de investimento no Brasil e no mundo. O formato ainda tem suas dificuldades, em especial relacionadas à falta de conhecimento de potenciais investidores, mas tem crescido rapidamente, avaliam integrantes do setor à EXAME.

Como funcionam?

Uma das primeiras empresas a unir o universo da música com o dos criptoativos no Brasil foi a Brodr, um marketplace de royalties musicais e tokens não-fungíveis (NFTs, na sigla em inglês) ligados à área e aos artistas com os quais ela possui acordos.

Pedro Nasser, CEO da Brodr, considera que o mercado de criptoativos musicais ainda é novo para o público, e que a negociação de royalties é apenas um segmento dentro dele.

A lógica para quem compra royalties musicais tokenizados é a mesma da versão tradicional: toda vez que uma música é tocada em um ambiente físico ou virtual, uma pessoa ou empresa precisa pagar um determinado valor aos criadores daquela canção, ou então a quem comprou os direitos desses criadores.

Nasser explica que a diferença no segmento dos criptoativos é que os royalties que antes ficavam concentrados nos artistas e gravadoras ou distribuidoras podem agora ser divididos e comercializados por investidores comuns, que veem no ativo uma forma de tentar adquirir uma forma de renda passiva mensal.

Para Nasser, esse novo tipo de negociação de royalties musicais permite que o artista "saia um pouco das mãos das gravadoras". Ainda de acordo com ele, trata-se de "um mercado restrito, um ativo com pouca liquidez, então a ideia [da tokenização dos royalties] é aumentar a conexão do artista com o fã”.

O projeto de criação do token musical costuma ser semelhante na maioria dos casos. A empresa responsável compra os direitos de reprodução pelas músicas dos artistas e então divide o royalty em uma quantidade limitada e finita de tokens, que podem ser comercializados como qualquer outro criptoativo.

Esses tokens servem como “cotas”, diz Nasser, sem uma variação no seu valor inicial mas com uma geração de renda mensal que é destinada proporcionalmente ao comprador dependendo do número de cotas dele. Caso o investidor perca o interesse, pode vender o token para outra pessoa ou revendê-lo para a empresa.

No caso da Brodr, o protocolo blockchain escolhido para hospedar o contrato inteligente responsável pela tokenização dos royalties foi a Polygon, popular solução de segunda camada da rede Ethereum. Já no caso dos tokens de royalties musicais lançados recentemente pela corretora de criptoativos Foxbit, a base é a Ethereum.

Nasser avalia que o uso da tecnologia blockchain é essencial especialmente por causa da segurança: "Você poderia fazer a venda dos royalties fora dessa tecnologia, vender só cotas, mas optamos pela tecnologia NFT porque traz mais segurança, e é algo descentralizado, com vários operadores autenticando. Mesmo se a Brodr quebrar, a pessoa segue com o token disponível e pode ir negociando”.

Já Rodrigo Ikegaya, diretor de produtos da Foxbit, acredita que esse tipo de criptoativo “mostra o potencial do processo de tokenização, como torna mais acessíveis novas formas de investimento e de diversificação de investimento”.

No caso da corretora cripto, não há uma compra direta dos direitos pelas músicas, mas sim uma parceria com uma empresa que realiza essa intermediação e seleção de artistas, que vende os royalties temporariamente, por 48 meses.

Ikegaya destacou que esses criptoativos não são tokens de governança, ou seja, o detentor não participa de negociações e tomadas de decisão do autor da obra: "Esse trabalho continua sendo entre cantor e autor. Se tudo der certo, pode ter uma música que vira tema da novela por exemplo, e o token tem uma supervalorização, mas é algo incerto”.

Ele acredita que a principal vantagem de investir nesse tipo de ativo é a diversificação. "As criptomoedas são muito voláteis, e esses investimentos são uma diversificação, não investe tudo em um ativo de risco, então consegue se expor menos a esse risco. Você já sabe mais ou menos o valor de compra e venda”.

Criptoativos musicais no futuro

O executivo da Foxbit considera que a junção entre criptoativos e royalties musicais ainda é algo “muito novo”, mas que “traz uma forma diferente de falar, investir". Para ele, é uma forma inovadora de investir: "Você não está apostando em uma empresa, é um jeito diferente de diversificar essa aposta, o que precisa ser calibrado é o acesso a esse tipo de investimento”.

“Antes, uma grande empresa comprava os direitos autorais por R$ 1 milhão, hoje, por R$ 300 já pode ter acesso, então os criptoativos tornam mais acessível, populariza. É importante sempre testar, adequar também às demandas dos investidores, o que eles querem”, opinou Ikegaya.

Justamente por ser um tipo de investimento inovador, ele destaca algumas particularidades. A principal é a sua sazonalidade, que reflete um certo nível de incerteza no valor mensal recebido.

Algumas canções tocam mais no verão ou no Natal, por exemplo, e algumas gravadoras pagam os royalties trimestralmente ao invés de mensalmente. Por isso, há uma certa previsibilidade, mas que não é total. E o imprevisível também pode ser positivo, como quando uma música viraliza.

O CEO da Brodr defende que “não tem promessa de rentabilidade, mas os fatores externos que afetam investimentos em ações, não afetam royalties musicais. As pessoas não deixam de escutar música por problema financeiro, político, guerra, mesmo quando cai os royalties, é muito temporário. O único fator preponderante que afeta rendimentos mensais é o número de reproduções”.

Nasser vê essa forma de investimento como uma diversificação e blindagem do patrimônio, que é descorrelacionado do mercado e com menos riscos que outros criptoativos: “Para entrar nesse investimento, é como em qualquer outro. Precisa estudar, saber como funciona, a segurança que vai ter, quem está pagando os royalties, custos e riscos envolvidos, a questão de pirataria, sazonalidade, e tomar a decisão com base nessas informações".

Ele diz que o mercado tem potencial de se expandir acompanhando os próprios ganhos cada vez maiores com royalties, mas que essa velocidade dependerá do cenário macroeconômico brasileiro e global, atualmente negativo.

“Quando tem juros altos e inflação descontrolada aqui ou lá fora, qualquer investimento fica prejudicado. É um desafio vender esse tipo de investimento alternativo quando a renda fixa dá mais segurança”, pondera.

Há, ainda, um desafio de “explicar o mercado para os investidores e os próprios artistas, convencê-los que é válido, têm riscos, mas que é uma forma de proteger patrimônio e ter uma outra fonte de renda. Assim como outros investimentos, precisa de alguns cuidados”.

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