Felippe Percigo: educação é fator decisivo para derrubar barreiras de adoção dos ativos digitais

Projetos que usam tecnologia blockchain precisam se esforçar para mostrar utilidade ao mundo real e transpor barreiras de adoção
Especialista acredita que educação vai gerar adoção em massa de tecnologia blockchain (Waitforlight/Getty Images)
Especialista acredita que educação vai gerar adoção em massa de tecnologia blockchain (Waitforlight/Getty Images)
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Felippe Percigo Publicado em 30/07/2022 às 10:00.

Quando falamos em “mundo” cripto, naturalmente nos vem à cabeça uma série de atividades em blockchain acontecendo dentro de uma esfera restrita a limites bem delineados. Embora saibamos que existem milhões de coisas rolando “lá dentro”, a impressão é de que toda essa produção vai acabar fatalmente beneficiando apenas quem também habita o interior da circunferência. Assim, se desenha uma narrativa que ergue um muro invisível entre a produção blockchain e o restante do universo.

O maior desafio dos ativos digitais está exatamente em transpor essa barreira. A maneira mais eficaz de se fazer isso é através da educação, mas não existem grandes avanços - e em larga escala - nessa direção, portanto a espera deve ser longa. Uma outra forma - que não exclui a educação, apenas a complementa - seria um real progresso nas regulamentações, algo que também caminha a passos contidos.

Assim, a pergunta permanece: como, então? Bom, eu acredito que a própria comunidade cripto vai precisar, de certa forma, se empenhar para assumir esse papel. A grande virada de chave, na minha opinião, está em estabelecer um esforço conjunto dos projetos para gerar valor que possa ser sentido e apreciado pelo maior número de pessoas também fora dos portões do segmento. Assim, acontecerá um acolhimento natural da tecnologia e a resistência será quebrada.

(Mynt/Divulgação)

O bitcoin, o responsável por toda essa vanguarda, luta há tempos para desestruturar essa muralha. Ao resolver dores reais das pessoas, a moeda vem evidenciando sua utilidade e se liberando do rótulo de ativo de nicho. Por isso, sua adoção avança de forma acelerada no planeta nos últimos anos.

Além de todos os seus inúmeros predicativos, o bitcoin tem tido a chance de mostrar a que veio no dia a dia de milhões de pessoas em países com economias devastadas. Basta olhar para a situação atual na Argentina, na Venezuela e na Colômbia, por exemplo, onde a população recorre à moeda para se proteger seu capital do derretimento da noite para o dia.

Para nações africanas, onde a adoção galopa como na América Latina, o bitcoin também funciona como um modelo de boa governança, antítese do que acontece na região com suas gestões corruptas, que drenam as contas públicas. É, portanto, um instrumento de liberdade, além de uma ferramenta de inclusão de um povo desassistido e em grande parte desbancarizado.

Existem, sim, muitas moedas digitais que carecem de utilidade. Segundo um estudo publicado pela Investopedia, mais da metade das criptomoedas entre as 100 no ranking de maior market cap não oferece nenhum valor real ou funcionalidade a seus usuários. Isso significa que o mercado ficou inchado de projetos sem sentido que estavam se valendo do hype para fazer dinheiro às custas de usuários gananciosos e desinformados.

Situação semelhante se deu no boom da internet. Na época, ocorreu uma multiplicação de sites em plena febre, mas, com o estouro da bolha das pontocom, em 2001, o joio foi automaticamente separado do trigo: só empresas que tinham algo de valor para oferecer ao mundo, como a Amazon e a Microsoft, sobreviveram e prosperaram.

Na minha visão, vivemos um excelente momento para o mercado cripto. É a hora da prova. Com as complicações do quadro macroeconômico, muitos projetos vão desaparecer. A seleção natural vai nos entregar um ecossistema mais enxuto e resiliente que poderá, então, abraçar o desafio de criar soluções que contemplem demandas do mundo real.

Eu tenho visto algumas iniciativas interessantes nascendo e, se derem certo, devem colaborar em larga escala para aproximar os criptoativos da rotina das pessoas. Uma delas está relacionada à Polygon, uma solução de escalabilidade de rede Ethereum que, mesmo em meio ao inverno cripto, está bem capitalizada e trabalhando em ritmo acelerado.

A Polygon foi a empresa de blockchain escolhida pela Disney para seu programa de aceleração de negócios inovadores. O foco deste ano do programa está voltado para o metaverso, NFTs e outros elementos que potencializam experiências imersivas, como realidade aumentada e inteligência artificial.

Imagine que, se a parceria for bem-sucedida, será através da Polygon que o público em geral terá acesso a NFTs, por exemplo, do Mickey, um personagem de 93 anos de idade, parte do imaginário coletivo de gerações. Entenda que não estamos falando de um Bored Ape, que, por mais popular que seja, é uma manifestação essencialmente circunscrita aos limites do universo cripto. Uma parceria com a Disney vai muito além, pois cria uma ponte entre uma solução blockchain e uma audiência completamente ampla e diversa.

A Meta, de Mark Zuckerberg, também convocou projetos descentralizados, como a própria Polygon, além de Ethereum, Solana e Flow, para colaborar na implementação de NFTs às redes sociais Facebook e Instagram. Estamos falando aqui de mais de 4 bilhões de usuários ativos contemplados pela tecnologia blockchain.

O protocolo de empréstimos DeFi Aave também está fazendo um movimento que vale a pena ser citado. A companhia anunciou recentemente que está desenvolvendo uma stablecoin própria, chamada de GHO, que terá paridade de 1 para 1 com o dólar. A ideia é que ela seja supercolateralizada, apoiada por um conjunto diversificado de ativos digitais selecionados a critério dos usuários.

No processo de desenvolvimento de suas moedas estáveis, a Aave está introduzindo o conceito de facilitadores. Esses agentes, que poderão ser protocolos ou entidades, por exemplo, serão responsáveis pela emissão e queima da stablecoin para manter a paridade, semelhante ao que ocorre com a MakerDAO e a moeda estável DAI. Neste caso, a GHO será impactada diretamente pela cotação da AAVE.

Os facilitadores terão liberdade para escolher suas próprias estratégias para cunhar GHO. O bacana é que o mecanismo permitirá que entidades não-cripto possam atuar no papel de facilitadores e se integrarem ao blockchain. Imagine que uma dessas entidades crie uma estratégia para usar GHO como uma rampa de entrada e saída para ativos do mundo real. O usuário poderia, por exemplo, dar um imóvel como garantia a um empréstimo envolvendo a stablecoin.

De fato, as stablecoins foram instrumentos concebidos originalmente para encurtar essa distância. Com alguns percalços normais, a missão está sendo cumprida com sucesso. Outros novos candidatos estão tomando posições nessa maratona e vai ser bonito assistir ao surgimento de novos tempos. Sorte nossa que estamos aqui para acompanhar a largada.

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