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Bitcoin ainda não é proteção contra moedas de países, mas pode chegar lá, dizem especialistas

Para analistas, comportamento do ativo digital ainda não o coloca como porto seguro contra variação cambial e inflação, mas isso pode mudar no futuro

Volume de negociação entre bitcoin e libra ainda não permite estabelecer causalidades, na visão de especilista (SEAN GLADWELL/Getty Images)

Volume de negociação entre bitcoin e libra ainda não permite estabelecer causalidades, na visão de especilista (SEAN GLADWELL/Getty Images)

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João Pedro Malar

12 de outubro de 2022, 10h30

O volume de negociação entre o bitcoin e a libra atingiu o maior nível da história no fim de setembro, em linha com uma piora das perspectivas econômicas para o Reino Unido. Entretanto, especialistas afirmaram à EXAME que esse movimento, sozinho, ainda não indica que a criptomoeda está se tornando um ativo de proteção contra moedas de grandes economias.

No dia 26 de setembro, o volume movimentado entre a criptomoeda e a moeda britânica foi de US$ 881 milhões (R$ 4,5 bilhões, na cotação atual), um valor bem acima da média diária, até então de US$ 70 milhões (R$ 364 milhões).

Até então, o maior volume registrado entre os dois ativos foi de junho de 2021, quando chegou a pouco mais de US$ 500 milhões. O novo recorde ocorreu no mesmo dia em que a libra atingiu o menor valor em relação ao dólar desde 1971.

Mesmo assim, o comportamento histórico do bitcoin mostra que ainda não há como estabelecer uma correlação entre movimentos de queda de moedas fiduciárias com uma valorização do bitcoin, na opinião do diretor de investimentos da gestora Uniera, Caio Villa.

(Mynt/Divulgação)

Ele atribui a relação, estabelecida por alguns investidores, a um “otimismo” entre os agentes do mercado quanto ao bitcoin e o seu potencial na economia, o que abre margem para interpretações mais entusiasmadas quanto ao comportamento da criptomoeda mesmo com poucas evidências.

“Por mais que tenha inflação nas moedas fiduciárias, o bitcoin também tem inflação, mesmo que seja controlada e reduzindo pela metade a cada 10 anos. Pode ser que um dia, se o bitcoin se tornar gigantesco, com muita captação e milhões de mercado, possa vir a ser isso [um ativo de proteção], mas hoje não”, afirma Villa.

Para ele, o bitcoin é atualmente um investimento conservador no setor de criptomoedas, com menos volatilidade que outros criptoativos, mas ainda não é possível compará-lo a uma moeda fiduciária forte como a libra. “Dá para discutir até com moedas mais fracas, mas euro, dólar e libra, não, não é proteção em relação a elas, é outro tipo de investimento”.

Villa acredita que as stablecoins pareadas com outras moedas fiduciárias podem agir como proteção, mas esse não é o caso do bitcoin. Se esse comportamento existisse, o bitcoin “não teria sido tão volátil” tanto em toda a sua história quanto em 2022.

“A cotação do bitcoin caiu pela metade no início do ano. Ele é um investimento, não proteção contra a inflação. Pode comprar bitcoin para o dinheiro não desvalorizar, mas como investimento, não proteção”, diz.

Há o problema, ainda, de comparar a criptomoeda, algo “100% descentralizado” com moedas fiduciárias, que são “100% centralizadas”. Essa diferença envolve uma característica especulativa do criptoativo, o que dá margem para valorizações maiores, mas também desvalorizações.

O diretor da Uniera ressalta que o volume negociado entre bitcoin e libra é “irrisório atualmente”, o que impede traçar uma correlação direta. Nesse sentido, a única moeda fiduciária em que isso pode ser feito é o dólar, que envolve um volume negociado elevado.

Se o bitcoin não é um ativo de proteção comparado com moedas fiduciárias, Villa já enxerga uma correlação com o ouro. “Dá para traçar um paralelo com ouro, renda variável, mas com proteção contra inflação de moedas grandes, acho que não dá ainda”.

Para Rodrigo Zobaran, analista de pesquisas quantitativas da Kinea, considerar o bitcoin como ativo de proteção contra moedas depois de um movimento de um único dia é exagerado, e é “ normal que em momentos de queda em algum mercado, um determinado ativo não responda do mesmo jeito”.

Ele afirma que a criptomoeda “não é um ativo de proteção hoje, dá pra ver isso pelo comportamento do preço. Um ativo de proteção precisa subir quando um mercado importante cai, e tem que ser um ativo procurado nessa queda”.

O cenário em 2022, porém, é o oposto. Desde que as perspectivas sobre a economia global se deterioraram em meio à inflação alta e juros em processo de elevação, o bitcoin teve uma forte desvalorização, indo do recorde de mais de US$ 60 mil em 2021 para a faixa dos US$ 20 mil.

“O movimento com a libra, mesmo recorde, foi muito pequeno. Não há uma causalidade, e pode ter sido apenas uma coincidência”, opina Zobaran. Para ele, a correlação atual do bitcoin não é com as moedas fiduciárias, mas sim com o Nasdaq, índice da bolsa de ações dos EUA voltada a empresas de tecnologia.

“Quando tem movimentos de mercado que parece que as coisas estão muito correlacionadas, é muito fácil montar narrativas de curto prazo. Mas olhando para o passado, o bitcoin ainda se comporta como uma empresa de tecnologia”, defende o analista.

Isso significa que a volatilidade do ativo é alta, e que ele pode subir ou cair mesmo em situações que esse não seria o comportamento esperado. “Não necessariamente esses movimentos são uma indicação de como ele se comporta sempre, pode ser só uma coincidência”.

Bitcoin como porto seguro

A comparação entre o bitcoin e a libra, e o otimismo com o recorde de volume em um momento de crise no Reino Unido, envolve, em última instância, uma discussão já clássica no setor de criptomoedas sobre o potencial do bitcoin atuar como reserva de valor.

Na visão de Caio Villa, esse cenário ainda é distante, e demandaria que a criptomoeda atingisse um valor de mercado “muito maior”, na casa dos US$ 50 trilhões, para reduzir sua volatilidade.

Já Zobaran considera que o bitcoin ainda se comporta “mais como ativo de risco do que de proteção. Isso faz sentido se pensar no que é o bitcoin. Ainda é um investimento em tecnologia, algo nascente, não tem uma consolidação como o ouro”.

“O bitcoin hoje é comprado porque as pessoas apostam que será uma tecnologia interessante no futuro. Quando os mercados em geral caem muito, os ativos de risco são os primeiros que as pessoas se desfazem, caso do bitcoin”, explica o analista.

Para ele, a passagem do ativo para um investimento de proteção demandaria que a tecnologia por trás dele, o blockchain, se tornasse algo essencial na sociedade, com elevada adoção e uso corriqueiro em transferências. Enquanto isso não ocorrer, ele acredita que o bitcoin seguirá sendo uma “aposta no futuro”.

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