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24 horas, 7 dias por semana: o futuro inevitável das bolsas de valores?

Com avanços tecnológicos e integração global cada vez mais, mercado financeiro avança rumo à operação ininterrupta, mas processo pode demorar

Mercado financeiro: bolsas vão migrar para modelo 24/7? (THOMAS SAMSON/AFP /Getty Images)

Mercado financeiro: bolsas vão migrar para modelo 24/7? (THOMAS SAMSON/AFP /Getty Images)

João Pedro Malar
João Pedro Malar

Editor do Future of Money

Publicado em 11 de dezembro de 2025 às 11h15.

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Desde o surgimento das bolsas de valores, os investidores se acostumaram a uma constância: o caos, sobe e desce de preços, a necessidade de acompanhar constantemente novidades e movimentações e toda a dinâmica do mercado fica restrito a uma janela de horário específico, e sempre em dias úteis da semana. Mas e se o mercado migrasse para um cenário de negociação ininterrupta?

A proposta parece ousada, e impensável até poucos anos atrás para o público geral, mas tem ganhado cada vez mais força. O principal passo em direção a essa nova realidade veio dos Estados Unidos: neste ano, as três maiores bolsas do país avançaram rumo ao modelo 24/7.

A Nasdaq, bolsa de tecnologia, confirmou que pretende adotar o modelo nos próximos anos, provavelmente começando com uma operação 24/5. Já a Bolsa de Nova York recebeu a autorização dos reguladores do país para começar os testes e implementação futura do modelo. E a Bolsa de Chicago, líder dos mercados futuros, já anunciou que vai adotar o modelo 24/7 para derivativos de criptomoedas no início de 2026.

À EXAME, especialistas explicam que a ascensão acelerada do modelo 24/7 reflete uma convergência de fatores: avanços tecnológicos, uma integração cada vez maior de diferentes mercados ao redor do mundo, o crescimento do mercado de criptomoedas — que já segue essa lógica — e a consolidação do funcionamento ininterrupto de diversos serviços no digital. Entretanto, os impactos serão muitos, e profundos.

24/7: como funciona?

Como o próprio nome sugere, o modelo 24/7 implica em um funcionamento das bolsas de valores e do mercado financeiro por 24 horas, 7 dias da semana. Isso significa que investidores poderão realizar operações a qualquer hora, da manhã à madrugada, e também durante finais de semana e, até, feriados.

Na prática, o mercado ainda precisaria parar em algum momento. Discussões sobre o modelo sugerem que horários de baixa negociação, como a madrugada de finais de semana, seriam usados para manutenções e atualizações de sistemas e para a definição de preços de referência para contratos futuros, por exemplo. Mas a ampliação de funcionamento seria significativa.

Apesar da lógica parecer ousada para o mercado, ela não seria uma novidade no dia a dia das pessoas. Com o avanço das tecnologias digitais, a população tem tido cada vez mais acesso a serviços praticamente ininterruptos: entrega de comida e outros produtos, transporte por aplicativo e, até, transferências bancárias por meio do Pix.

No próprio mercado financeiro, o setor de criptomoedas surgiu como o primeiro grande teste da lógica 24/7. Hoje, investidores já podem vender e comprar criptomoedas a qualquer horário e dia, incluindo em feriados e nos finais de semana. Agora, o restante da economia pode estar caminhando para a mesma direção.

Uma mudança inevitável?

Ricardo Hammoud, professor da FGV, avalia que a possibilidade cada vez maior de adoção do sistema 24/7 reflete a combinação de três movimentos. Em primeiro lugar, há o movimento tecnológico, com avanços técnicos que permitem estender os horários de operação com sistemas que aguentem o novo volume correspondente de ações que precisarão ser processadas e armazenadas.

Há, ainda, um movimento de integração dos mercados financeiros. Com a globalização, mercados como o da China, Japão, Estados Unidos e Europa estão cada vez mais unidos e dependentes. Isso gera um interesse, e até necessidade, de investidores de um país terem acesso às bolsas do outro, mas os fusos acabam criando barreiras de acesso com os horários atuais de operação.

Por fim, há o movimento de ascensão dos mercado emergentes, que têm atraído cada vez mais investimentos globais. E a adoção do modelo 24/7 pode criar uma janela de oportunidade importante para intensificar esse movimento e atender a uma demanda de investidores.

Para o professor, a adoção do modelo 24/7 "é uma tendência forte, mas não inevitável. É algo que dificilmente vai ser parado, mas a gente sabe que quando tem algum problema, algum mecanismo que mostre que os riscos são maiores, pode haver a decisão de pausar o processo. Toda decisão financeira envolve retornos e riscos".

"Com o modelo, você vai poder captar do mundo inteiro muito mais fácil, mas aumenta a volatilidade, cria mecanismos de captura de renda ao ter informações quando outros estão dormindo. Pode gerar sérios problemas", ressalta. Exatamente por isso, Hammoud aposta em uma "mudança gradual", e não de uma vez, em direção ao modelo.

"Isso deve ocorrer mais rapidamente nos Estados Unidos e mais lentamente no Brasil. Mesmo assim, a adoção do modelo 24/7 puro é difícil. Você precisa ter um fechamento, manutenção de sistemas. E é algo que gera uma demanda nova no mercado enorme, e pessoas que poderiam explorar novas brechas", comenta.

Juliana Inhasz, professora do Insper, acredita que a adoção do modelo 24/7 é sim inevitável. "A questão é quando vai acontecer. Os mercados como o brasileiro ainda carecem de ajustes significativos para fazer a migração, não acho que vai ser tão rápido assim. O Brasil não vai ser pioneiro, um dos primeiros a encabeçar esse movimento, e talvez nem tenha tanto escopo para gerar esse grande engajamento. Mas deve entrar na onda".

"Algumas bolsas andaram fazendo essa ampliação. O mercado de câmbio já tem um período bem mais amplo [de negociação], porque tem bolsas que funcionam em horários distintos, então teve essa expansão para pegar algumas sobreposições. A hora que acontecer, vai ser uma migração mais rápida, sem um projeto-piloto de aumentar 1 hora por dia em algumas semanas até chegar no 24", avalia.

A professora lembra que "sempre houve uma percepção de que, como a gente tem mercados que são muitos importantes para o sistema financeiro internacional e funcionam em horários diferentes, isso poderia criar janelas, gaps, que distorcem resultados". E a ascensão do modelo 24/7 poderia corrigir exatamente esses problemas.

Inhasz comenta que "essa história de ter horários descasados traz vantagens e desvantagens. Quando precisa que os mercados respondam rápido, eles acabam demorando. Isso gera custos, prós e contras, mas quanto mais dinâmico e interligado é o mercado, maiores são as necessidades de ampliação de horário de funcionamento para que as pessoas aproveitem as janelas de negociação".

Ela ressalta que experiências como a do mercado de criptomoedas "trazem também luz para essa visão de que talvez seja possível repensar o funcionamento do mercado, de forma mais eficiente e com um funcionamento integral".

Efeitos no mercado

Inhasz acredita que a adoção da lógica 24/7 passará por vários desafios. O primeiro é o tecnológico, com a necessidade de desenvolver uma estrutura que aguente todas as novidades do mercado e as novas janelas de negociação, com todas as operações correspondentes e com uma interferência mínima em termos de pausa, o que não será trivial.

Há, ainda, a necessidade de criar estruturas de compensação e liquidação que viabilizem o funcionamento 24 horas. "Não vai fazer sentido as bolsas funcionarem 24 horas e ter compensação e liquidação em um período menor. É um ajuste bem mais amplo", destaca.

Todas essas mudanças também implicarão em custos maiores de suporte, compliance e TI. E alterações regulatórias para a definição de intervalos, monitoramento de riscos e aplicação de mecanismos tradicionais, como o circuit breaker.

A professora aponta, ainda, uma questão comportamental: "Os mercados hoje ainda não estão acostumados a períodos extensos, mesmo com a discussão ganhando mais força. Ainda é um horário comercial, e aí precisa entender como vai ser essa liquidez fora dos horários tradicionais. Tende a ser muito menor, e isso pode aumentar riscos na execução de contratos, quedas de volume, e os preços podem se comportar de forma pouco alinhada em um cenário".

A mudança "pode alimentar volatilidades que não são tão fáceis de se explicar no mercado tradicional. Ativos podem ter mais volatidade, preços subindo e caindo fora do esperado. Vai ter que testar, e é um teste da própria resiliência do mercado. É um aprendizado, mas vai ter um período de adaptação de mais volatilidade e mais incerteza".

Inhasz aponta, ainda, problemáticas importantes do ponto de vista social. "Você já tem no mercado questões delicadas, como operadores e analistas com jornadas já excessivas, com um estresse violento e questões de saúde mental já elevadas. E isso vai piorar. É um custo social que não é desprezível, porque as empresas vão ter que ter equipes grandes, maiores, de alguma forma vão ter que estar bem preparadas e alinhadas".

A avaliação da professora é que o custo social do modelo 24/7 "não pode ser desprezado" e exigirá um alinhamento intenso do mercado, do contrário, a mudança pode não fazer sentido. "Se isso não for bem alinhado, as perdas certamente podem desestimular essa solidificação".

Já Hammoud, da FGV, aponta vantagens dessa migração. A tendência é que investidores ganhem acesso a mercados antes inacessíveis por questões de horários. Além disso, será possível reagir e reavaliar estratégias de investimento devido a acontecimentos fora do horário atual de negociação.

"A precificação provavelmente ficaria melhor e mais justa no começo ao ter uma negociação ininterrupta. Hoje, vemos muito que, quando acontece algo à noite, as ações brasileiras lá foram mudam de valor muito intensamente, mas as ações negociadas aqui tem esse delay. Essa diferença, uma possível arbitragem, vai melhorar para os investidores", diz.

Mas o professor também acredita que a volatilidade será um ponto central nesse novo cenário. "Você teria horários com volume de operação menor, e aí se uma, duas pessoas operam um volume maior, teria um impacto grande. Você pode ter um overtrading, de pessoas que nunca param de operar, e ainda ter uma automação elevada via IA para preencher as lacunas em que as pessoas não estariam trabalhando".

"Outro risco é os bancos, fundos com pessoal mais capacitado, terem vantagens maiores em relação a bancos e fundos menores", comenta. Hammoud acredita, ainda, que a mudança obrigará cada vez mais empresas do mercado a adotar escalas e turnos de trabalho na madrugada.

E no Brasil?

No Brasil, a decisão sobre o modelo 24/7 passa pela B3, a dona da Bolsa de Valores. Felipe Gonçalves, superintendente de Produtos Juros e Moedas e Cross Market na B3, explica à EXAME que a discussão sobre o tema no Brasil já existe "faz tempo", em especial no segmento de derivativos.

No caso do mercado de futuros, a discussão envolve a adoção de modelos 24/5 ou 23/5. "É um caminho que nós como B3 queremos seguir e é o que a gente já vem discutindo faz alguns anos, com todos os participantes do mercado e os reguladores".

Já sobre o modelo 24/7, Gonçalves diz que as discussões refletem a experiência do mercado de criptomoedas, mas a adoção é mais complexa. "O que a gente como B3 está fazendo é uma discussão de horário com os clientes. É uma coisa que impacta muito todo mundo, então tem que fazer isso por etapas. É um passo por vez".

"Primeiro tem um passo inicial, que tem que dar, e a nossa expectativa é de, no começo do ano que vem, expandir o horário para negociar das 8h às 20h para contratos derivativos de cripto e ouro", comenta.

Sobre a expansão de horários ou de produtos nessa lógica, o executivo explica que o processo ocorrerá "passo a passo" e em diálogo com o mercado. "Não estamos falando de dar um passo para o 24/7, não chegamos nesse momento. O que a gente tem se planejado, quando faz evoluções do sistema, é chegar em um modelo 23/5".

"No mercado de derivativos, acredito que sim, é uma migração inevitável. Já no mercado à vista, a discussão a gente ainda não fez. A discussão é bem técnica, mas impacta bastante coisa", pontua.

Gonçalves ressalta que o modelo 24/7 também obrigaria mudanças na própria regulação brasileira, algo que não será necessário para a primeira expansão de negociação das 8h às 20h. "Para fases mais amplas, como um modelo 23/5, tem um determinado horário do dia em que teria o corte, o dia vira, e isso envolve uma questão regulatória também, de determinar o horário de virada. Estamos fazendo o movimento, é um movimento conjunto que estamos fazendo, e estamos em diálogo com os reguladores e vamos precisar nos alinhar para definir as etapas".

Mesmo assim, o executivo acredita que a discussão deve avançar. "O público pessoa física tem uma importância de ter horários alternativos além do horário que as pessoas estão trabalhando. Para o institucional, tem questões de dias que ocorrem eventos forado horário de negociação e é importante ter o mercado aberto. Tem produtos internacionais que tem picos de liquidez em outros horários. E o último ponto é até a expansão da B3 para clientes de outros lugares do mundo, como Ásia, e é é interessante ter esse horário estendido".

Juliana Inhasz, do Insper, afirma que, no caso brasileiro, "a gente vai depender cada vez mais do funcionamento de outros mercados, e conforme mercados asiáticos migrem para esse modelo, vão naturalmente concorrer com o brasileiro enquanto estivermos funcionando, e isso vai abrir um mercado para que o mercado brasileiro entre no horário deles para aproveitar janelas de oportunidade".

"Hoje não consigo enxergar a B3 com capacidade para dar as caras nessa empreitada [de adoção de um modelo 24/7]. É um aumento de estrutura violento e uma disrupção muito grande para fazer de forma rápida", avalia.

Para Ricardo Hammoud, da FGV, a tendência é que as bolsas dos Estados Unidos migrem para um modelo 24/5 daqui a um ou dois anos. No Brasil, essa migração seria mais lenta, demorando de quatro a seis anos.

"Não acho que vai ser algo rápido, porque, para a B3, se aumenta de forma abrupta e acontece algum problema, algo muito sério, o brasileiro não é muito acostumado com renda variável, e poderia causar danos irreparáveis para a marca e o mercado de renda variável", ressalta.

Em comunicado enviado à EXAME, Zeca Doherty, diretor-executivo da Anbima, avalia que a migração para o modelo 24/7 "é uma mudança de longo prazo, já que exigirá adaptações na infraestrutura das instituições, ajustes regulatórios e coordenação entre diversos agentes para garantir segurança e estabilidade". Ou seja, o investidor brasileiro ainda pode demorar para ter um mercado sem limites de tempo.

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