Stone enfrenta o desafio da comparação com Cielo, a nova queridinha do setor

Ação desabou de 22% após divulgação do balanço do segundo trimestre, acima das projeções dadas pela empresa
Stone: TPV de R$ 91 bilhões no trimestre e receita de R$ 2,3 bilhões ficam acima das projeções, mas rentabilidade preocupa (Getty Images/Getty Images)
Stone: TPV de R$ 91 bilhões no trimestre e receita de R$ 2,3 bilhões ficam acima das projeções, mas rentabilidade preocupa (Getty Images/Getty Images)
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Graziella Valenti

Publicado em 19/08/2022 às 20:06.

Última atualização em 19/08/2022 às 20:14.

A Stone bateu as projeções que forneceu ao mercado em receita, movimentação financeira (TPV) e lucro antes de impostos, ajustado pelo plano de opções e sem os efeitos relacionados ao investimento no Banco Inter. Aliás, a receita líquida da companhia de serviços financeiros dobrou. O que explica, então, a queda superior a 22% das ações hoje, para US$ 8,60, após a divulgação dos resultados ontem no fim do dia?

A primeira sensação, falando com investidores e analistas, é que está difícil bater a nova queridinha na indústria de meio de pagamentos, a Cielo — que fez um grande esforço de recuperação do negócio depois de amargar alguns anos difíceis. A Stone terminou o dia hoje avaliada em US$ 2,6 bilhões na Nasdaq. Na B3, Cielo vale pouco menos de R$ 14,8 bilhões. Câmbios ajustados, as empresas valem hoje praticamente a mesma coisa. A diferença é que, no ano até hoje, as ações da Cielo têm alta acumulada de 145%, e as de Stone, queda de 46%.

E a comparação entre elas ficará mais acirrada na cabeça dos investidores, agora que estão cada vez mais próximas em tamanho de receita.

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A Stone teve R$ 2,3 bilhões de receita líquida no segundo trimestre e espera R$ 2,4 bilhões para o próximo. Sem considerar Linx, a receita dobrou na comparação anual. A Cielo apresentou um faturamento líquido de R$ 2,5 bilhões (alta de 33,7%). O TPV da Cielo subiu 33,8%, para R$ 221 bilhões, enquanto o da Stone teve alta de 50% e chegou a R$ 91 bilhões, acima das projeções dos analistas.

Mas o que incomodou o mercado, olhando para os números da Cielo, são as margens da Stone. A recuperação da rentabilidade da empresa está em um ritmo mais lento do que os investidores gostariam. O resultado líquido recorrente da Cielo ficou em R$ 383 milhões, 112,5% superior ao mesmo período do ano passado, enquanto o da Stone ficou em R$ 76,5 milhões, ante uma perda de R$ 155 no segundo trimestre de 2021. As despesas financeiras ainda pesam muito para a empresa, que teve quase R$ 1 bilhão de despesa nessa linha, enquanto a controlada de Banco do Brasil e Bradesco teve pouco menos de R$ 100 milhões.

O bom desempenho — até surpreendente — da Cielo fez analistas e investidores elevarem suas apostas na Stone, para além da orientação que a própria companhia havia fornecido.

Entre as dúvidas sobre o futuro que surgiram da comparação dos negócios está se a Stone vai conseguir repassar para os preços o aumento do custo de funding, com a Selic muito mais salgadaneste ano. Há uma diferença, porém, entre Cielo e Stone que não está clara para todo mercado.

O funding para as antecipações de recebíveis pode ser feito de duas formas: com dívida ou com a cessão desses recebíveis, ou seja, o repasse deles para o mercado. Apesar de terem efeitos econômicos iguais sobre o negócio, a forma de contabilizar é bem diferente. No funding feito com dívida, o crescimento faz a margem subir na largada, porque o custo do dinheiro acrua ao longo do tempo, ou seja, aumenta. Já na cessão de recebível, é o contrário, o custo fica mais pesado na largada e depois vai diminuindo. Só o tempo poderá dizer o que vai ser da comparação dos dois negócios e suas diferentes estratégias.

Quando descontados os custos financeiros das operações de antecipação, o que aparece é uma queda de 1% nessas receitas da Stone. Enquanto o mercado esperava, em média, um aumento. O resultado líquido das transações, portanto, caiu. Em comentário ao mercado, o JP Morgan, uma das casas mais pessimistas em relação à companhia, apontou que enquanto a Cielo aumentou o resultado financeiro líquido das operações em 46%, a Stone teve redução de 19%.

Decepcionou também que a Stone fez um aumento do take-rate, a taxa cobrada, apenas de 2,06% para 2,09% na comparação entre o primeiro e o segundo trimestre. O CEO da companhia, Thiago Piau, afirmou em entrevista ao EXAME IN, que deve haver uma evolução mais forte no próximo trimestre — em agosto já foi feito um ajuste. E a mensagem que transmitiu é de que a companhia está agora, mais do que nunca, focada na rentabilidade das operações.

Tudo isso dito, o que fica é que o caminho da Stone até recuperar a credibilidade que tinha com o mercado, quando chegou a ser avaliada em US$ 35 bilhões, ainda precisa de mais tempo. As palavras de Piau na apresentação dos resultados, logo após sua divulgação, não foram suficientes até o momento. É preciso que a rentabilidade se recupere e em uma velocidade maior, na visão dos analistas.

O analista do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da Exame) Eduardo Rosman afirma que, diante do que foi apresentado, sua projeção de parece agressiva demais. A companhia teve um resultado recorrente de R$ 90 milhões nos seis primeiros seis meses do ano, enquanto seus cálculos apontavam para R$ 360 milhões para o acumulado de 2022 e R$ 810 milhões para o próximo ano.

Já para Pedro Leduc, do Itaú BBA, as estimativas que a Stone deu para o terceiro trimestre, apesar de melhores do que o segundo, ainda representam um avanço conservador. Ainda assim, ele aponta uma conclusão mais em linha com o discurso da empresa: uma aceleração menor da receita, mas um avanço maior de rentabilidade, o que sugere ganhos de eficiência à frente. O lucro antes de impostos da Stone no segundo trimestre, de R$ 107 milhões, ficou 8% acima de seus cálculos, que previam R$ 98 milhões nessa linha.

Todos os analistas citados destacaram que preferem Cielo no setor.

 

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