Por que vale a pena olhar para a CargOn, startup que foi dos R$ 390 mil aos R$ 6,5 mi em um ano

Empresa fundada em 2020 toca em um ponto fundamental para a indústria e ainda pouco explorado por empresas de tecnologia do setor: gestão de fornecedores de entrega
CargOn: mercado a ser explorado no Brasil em gestão digital de fornecedores logísticos é enorme (Michael H/Getty Images)
CargOn: mercado a ser explorado no Brasil em gestão digital de fornecedores logísticos é enorme (Michael H/Getty Images)
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Karina SouzaPublicado em 16/10/2022 às 12:49.

A startup CargOn pode ser um nome ainda desconhecido do público geral, mas o tamanho do crescimento da empresa em apenas três anos é um incentivo e tanto para dedicar alguma atenção a ela. Nascida em 2020, em plena pandemia, a empresa faturou R$ 394 mil no primeiro ano de vida, cifra que passou para R$ 6,5 milhões no último ano e deve chegar a R$ 14 milhões em 2022. O aumento acelerado faz jus à proposta diferenciada no mercado: ser um operador logístico digital para a indústria, ou seja, cuidar de toda a cadeia, desde o momento em que um produto acaba de ser produzido até a entrega final. Em 2022 — depois de ter passado por duas rodadas de captação que totalizaram R$ 5 milhões — a empresa abre uma nova rodada, agora via equity crowdfunding, para captar outros R$ 2,8 milhões.

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“São ‘N’ startups dentro desse setor e ‘N’ empresas dentro de uma mesma cadeia logística, todas desplugadas. A gente faz a conexão entre a indústrias e todos esses prestadores de serviços, daí conseguimos gerar valor. Nosso olhar é totalmente voltado para a indústria. Diferente de uma Loggi, por exemplo, que quer ter capilaridade, nós pegamos a Loggi e ‘organizamos’ para quem produz”, diz  Denny Mews, CEO e fundador da startup, ao EXAME IN. Hoje, a startup tem 15 clientes, mais de R$ 1 bilhão em fretes transacionados e mais de R$ 11 bilhões em mercadorias transportadas. Entre os clientes, estão Lojas Renner (em que a CargOn faz a ponte do trabalho com a Uello, startup adquirida pela varejista), ArcelorMittal, Atlas/Daco Fogões e Lafarge Holcing (um dos maiores produtores de cimento do mundo).

Ao contrário do estereótipo de fundadores, dos “jovens gênios” ou de profissionais recém-formados, a CargOn é fruto de um estudo de quem conhece de perto o mercado. Denny Mews, CEO da startup, trabalhou por 20 anos no setor (sendo 17 deles na catarinense Coopercarga, primeira investidora da empresa) e viu de perto as dores da indústria para lidar com transportadoras. Somou isso à formação em tecnologia e começou a estudar como tirar o projeto do papel em 2019. No ano seguinte, colocou o negócio de pé, mesmo em meio às adversidades geradas pela covid-19.

“Muitas startups estão olhando apenas para a visão da transportadora. Mas, ainda há um espaço a ser explorado. Isso porque, como gosto de dizer, ‘a dor da indústria é multiplicada pela quantidade de transportadoras que a atendem’. Ela tem cinco, dez, 100 transportadores para poder fazer o negócio fluir. Imagine ter de comprovar entrega e controlar demanda para cada um deles? Então, nosso olhar foi entender que teríamos de desenvolver uma plataforma capaz de gerenciar a todas elas, de forma simples”, diz Mews. 

Como funciona

Traçar um paralelo exato com esse tipo de serviço não é das tarefas mais simples, mas talvez o que mais se aproxime, para dar uma dimensão de mercado a ser explorado, seja o da CargoX e da FreteBras, ainda que estejam mais focadas em apenas uma das pontas que engloba o trabalho da CargOn. No ano passado, as empresas destacadas se uniram, em uma 'holding' que surgiu com aporte de US$ 200 milhões dos fundos Softbank e Tencent.

A CargoX está dedicada ao fornecimento de ativos (caminhões) para fazer o transporte. A CargOn gerencia esses ativos. A plataforma e os serviços gerenciam diferentes transportadores (sejam eles 'analógicos' ou digitais, como é o caso da startup que teve aportes do Softbank). "Nosso foco é gestão desde o final da produção, onde se inicia a necessidade do transporte, até a entrega final", diz Mews. Nesse processo, uma etapa dele é cumprida pelas transportadoras.

Detalhando um pouco mais o trabalho da CargOn, a startup desenvolveu uma plataforma própria com diversas APIs capazes de conectar os sistemas das indústrias e das transportadoras ao da CargOn para fornecer uma visão única. São ‘pontes’ muito simples de serem construídas, em que é possível plugar soluções como SAP e Totvs, por exemplo, e controlar todo o fluxo logístico. No passo a passo, inclui desde a finalização da produção, quando é necessário organizar o despacho, além de organizar os fornecedores de logística, controle das cargas em tempo real, emissão de documentação fiscal, comprovações de entrega e, para finalizar, um BI para análise de todo o cenário desse suply chain. Mas isso ainda não era o suficiente para crescer.

Há um problema estrutural apontado por Mews em relação à outra ponta, os sistemas das transportadoras 'analógicas'. “São arcaicos, complexos, difíceis de se manter e de customizar”, afirma. No caminho para integrar as duas pontas, a CargOn criou um Portal do Transportador. Nele, as transportadoras que possuem alguma dificuldade com os seus próprios sistemas conseguem fazer a gestão completa da carga, sem se preocupar em integrações, customizações ou modificações. Dessa forma, segundo o executivo, ficou muito mais fácil gerir as transportadoras para atender a indústria, simplificando e digitalizando todo o processo.

Como um próximo passo daqui para frente, a startup quer ampliar o alcance do portal do transportador. Se hoje ele consegue apenas garantir que as empresas de transporte se pluguem ao sistema da CargOn, os planos para o futuro são de evoluí-lo o suficiente para que ele, em si, se torne um TMS (sistema de gerenciamento de transporte) de referência para o setor. “Nós queremos disponibilizar isso de forma simples, inclusive com um olhar tributário. Estamos conversando com alguns fornecedores para já conectar a contabilidade a esse sistema e o transportador não precisar ter sistemas separados para fazer isso. Esse é o nosso olhar e a forma como entendemos que é possível conectar mais essa cadeia”, diz Mews.

Futuro

Um fator que colabora para o crescimento da CargOn é ser agnóstica em relação ao tipo de indústria que atende. Hoje, a empresa trabalha com produtos que vão do aço à linha branca. O olhar da empresa é principalmente para indústrias médias a grandes, excluindo as multinacionais — que já têm condições de criar soluções próprias para fazer o que a empresa faz. “Mas elas são 2% do total. Há um universo enorme a ser explorado no país”, diz Mews.

Além de expandir o alcance do Portal do Transportador, a CargOn também estuda, a partir do novo aporte, estruturar uma vertical de crédito para os transportadores, que hoje têm pouco acesso a esse mercado. Outro plano, com o dinheiro novo, é o de aumentar a operação comercial para trazer novos clientes.

A captação, aliás, será feita na EqSeed, fintech que conecta investidores a startups e empresas privadas para investimentos de até R$ 15 milhões. A empresa, aliás, foi a primeira autorizada pela CVM a realizar rodadas de investimento de startups sob a instrução 588/2017.

Como diferencial em relação a outras plataformas, a EqSeed aponta que, da base de 48 mil investidores, 60% deles são qualificados (com investimento acima de R$ 1 milhão). Além disso, o rigor para assumir startups é outro ponto importante. Hoje, menos de 1% das empresas que passam pela plataforma têm a rodada aprovada. A empresa faz desde o pré-seed (investimentos a partir de R$ 500 mil, no caso da fintech) até o limite máximo estabelecido pelo regulador, de R$ 15 milhões.

Para driblar o ‘inverno’ das startups e chamar a atenção para a empresa, o fundador une esses dados ao que chama de equilíbrio financeiro da CargOn. A empresa ainda reinveste todo o lucro que tem em crescimento, mas tem um discurso alinhado ao que investidores procuram no momento de juros altos e de bolsos menores: ser um modelo de negócio sustentável. 

O mercado de Logtechs

A CargOn é mais um exemplo de uma lista de empresas de um setor em alta. Ainda não é possível traçar com exatidão os efeitos da pandemia sobre startups desse nicho, mas alguns dados de 2020 da plataforma Distrito ajudam a elucidar o papel que as logtechs têm no mercado brasileiro. 

De acordo com o Distrito Logitech Report, trata-se de um mercado super recente. Das 283 empresas identificadas no setor naquele ano, metade tinha até cinco anos de vida. Ainda assim, já arrastaram um investimento bilionário para si. De 2011 a 2020, US$ 1,3 bilhão foram investidos em startups do setor no brasil, em 100 rodadas de investimento. 

O valor considera principalmente os aportes feitos no iFood (US$ 591,9 milhões), Loggi (US$ 295 milhões) e CargoX (US$ 177,8 milhões). Só em 2020, dado mais recente, foram US$ 187,6 milhões em investimento — e, excluindo as três citadas anteriormente, o Distrito aponta crescimento constante de aportes no setor desde 2017.

Entre os sub-setores em que estão divididas, a categoria de Gestão Logística é a que concentra o maior número de empresas, com 131 startups desse tipo. Soluções de entrega representam 20% das logtechs, seguidas por logística reversa (12%), estoque de produtos (11,3%) e intermediação entre fornecedores e transportadores (11%) — sendo este último o nicho de principal aproximação com a CargOn.

O mapeamento das 10 principais no setor, descrito no relatório, ajuda a corroborar a fala de Mews sobre o setor. Entre elas (Ifood, Loggi, Mandaê, CliqueRetire, FreteBras, DeliveryCenter, Cargo X, Modern Logistics, Cobli e Truckpad) a maior parte está focada no ponto unitário de pegar cargas e entregá-las, mas poucas — para não dizer nenhuma — está focada na gestão de outras startups que estejam fazendo esse tipo de serviço. 

O olhar atento ajuda a CargOn a se manter relevante em um mercado cada vez mais competitivo. Ao entender de perto uma das principais dores do setor, a meta da empresa é se tornar referência nacional nesse tipo de serviço. Deixar a era do operador logístico ‘analógico’ para trás e conseguir fazer desde a separação da carga até a entrega final de forma digital — sem nenhum tipo de contato por telefone, por exemplo — é a palavra que a companhia quer espalhar, rumo ao mercado nacional.

 

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