O Brasil está forte e vai continuar bem, diz presidente da Vulcabras sobre novo governo Lula

Para Pedro Bartelle, desoneração da folha é um dos principais pleitos da indústria para dar mais competitividade à produção local
Vulcabras: Família Grendene Bartelle foi uma das principais doadoras nas eleições de 2022 (Leandro Fonseca/Exame)
Vulcabras: Família Grendene Bartelle foi uma das principais doadoras nas eleições de 2022 (Leandro Fonseca/Exame)
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Raquel BrandãoPublicado em 03/11/2022 às 14:48.

Passada a acirrada disputa pela presidência do Brasil, o setor produtivo agora começa a traçar planos e mesmo as demandas para o novo governo. Em seu terceiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá lidar com um cenário macroeconômico complexo globalmente e, na economia doméstica, conciliar a preocupação em torno do risco fiscal com a retomada da atividade econômica.

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"Nós acreditamos aqui que, independentemente do governo, o Brasil vai continuar bem, em uma via de crescimento. O Brasil está forte. Comparado com o resto do mundo, tem se saído muito bem", disse Pedro Bartelle, presidente da Vulcabras, fabricante de calçados esportivos, em entrevista exclusiva ao EXAME IN. O executivo deu entrevista por videoconferência na tarde de terça-feira, 1, minutos antes da primeira declaração de Jair Bolsonaro (PL) após a derrota nas urnas. Ao lado do notebook, manteve um tablet conectado à transmissão de uma emissora. 

A companhia vem registrando números expressivos de desempenho. No terceiro trimestre, o faturamento da fabricante dos tênis Olympikus, Under Armour e Mizuno novamente bateu recorde, chegando a R$ 764,7 milhões. O lucro líquido somou R$ 99 milhões, um crescimento de 36% se desconsiderados créditos fiscais reconhecidos um ano antes. 

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Para o executivo, uma das principais demandas do setor está na desoneração da folha de pagamentos, que ajudaria a tornar o produto mais competitivo contra os tênis fabricados nos países asiáticos e poderia, segundo Bartelle, ser alavanca para geração de empregos. De acordo com a Abicalçados, o setor calçadista gerou 44,4 mil empregos entre janeiro e setembro deste ano, somando 310,64 mil empregos diretos, 14,2% mais do que no mesmo período do ano passado.

A família Grendene Bartelle, fundadora da fabricante da Olympikus e também da Grendene, dona da Melissa e da Ipanema, foi uma das maiores doadoras de campanha nas eleições de 2022. No total, os irmãos Pedro Grendene Bartelle e Alexandre Grendene Bartelle, pai e tio do presidente da Vulcabras, doaram R$ 12,3 milhões a candidaturas de 2022, respondendo pelo quinto e terceiro lugares entre os maiores doadores das eleições de acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Desse montante, R$ 2 milhões foram para a campanha de Bolsonaro. Mas os maiores valores foram para os candidatos petistas ao governo estadual e ao Senado do Ceará, Elmano de Freitas e Camilo Santana, respectivamente. Freitas recebeu R$ 3 milhões dos irmãos Grendene Bartelle. Santana, R$ 2 milhões. Os dois foram eleitos. Alexandre também doou para o candidato do União ao governo cearense, Wagner Gomes. Houve ainda doações para os candidatos a governador do Rio Grande do Sul Onyx Lorenzoni (PL) e Roberto Argenta (PSC), candidatos a deputado federal e estaduais de partidos como PSDB e PP, além de doações para os diretórios estaduais do PDT e União no Ceará. 

"A minha família costuma, já há bastante tempo, fazer doações para que incentiva a indústria no Brasil. Por isso tem diversos candidatos, que são os que defendem as pautas industriais e, também, as de calçados", explicou o presidente da Vulcabras pouco antes de desligar a ligação e assistir à declaração de Bolsonaro em Brasília. 

Leia abaixo a entrevista:

Embora o vencedor seja um velho conhecido, o país começa, em 2023, um novo governo. O que vocês esperam desse terceiro governo Lula?

A primeira coisa a ser dita é que a Vulcabras está muito bem e muito forte e tem seus planos de crescimento independentes do cenário que venha. Conseguimos nos enxergar à frente da concorrência tomando decisões muito assertivas e muito rápido. O cenário é um pouco incerto porque vem uma mudança de governo, mas o que se desenhou até agora é uma recuperação boa. É uma recuperação interessante, porque nós passamos por uma pandemia onde muitos dos nossos clientes e a cadeia se desorganizou. A Vulcabras não, mas tudo se desorganizou e veio [agora] se recuperando. Estamos vivendo um momento bom. Nós acreditamos que, independentemente do governo, o Brasil vai continuar bem, numa via de crescimento. O Brasil está forte. Comparado com o resto do mundo, tem se saído muito bem.  Independentemente de governo, porque governos não determinam tudo. São as empresas, as pessoas e o trabalho de toda população [que definem].

Mas a mudança impacta os planos da Vulcabras de alguma forma?

O Brasil pode continuar em um caminho muito bom e eu espero que continue. Claro que a Vulcabras vai estar sempre muito atenta a qualquer instabilidade de mercado. Somos bastante flexíveis para tomar decisões para se adaptar a qualquer cenário econômico, inclusive porque a gente desenvolve os produtos mais adaptados para o momento ou para outro. Isso nos garante uma flexibilidade muito grande, mas nossos planos são de crescimento para o próximo trimestre.  

Do ponto de vista de demandas, o que você acredita que é prioritário para o novo governo?

Eu prefiro ficar num macro muito bem defendido por nosso setor. Somos o quinto maior polo calçadista do mundo. É uma indústria que emprega muitas pessoas, tem muita produtividade e tecnologia, as fábricas são boas, modernas e com acesso a qualquer sistema e maquinário para produzir qualquer tipo de calçado que o mundo precise. A única coisa é que precisamos de um olhar do governo que proteja essa indústria contra práticas desleais asiáticas. Os custos asiáticos, principalmente salários, são muito mais baixos do que no Brasil.

Mas os números da Abicalçados comprovam que o Brasil é mais produtivo do que a Ásia. Tem preconceito, às vezes, de o Brasil não conseguir fazer uma coisa outra. Mas nós da Vulcabras fizemos as duas tecnologias mais importantes da Mizuno e Under Armour no Brasil. Então nada nos impede. Mas o governo precisa olhar para a indústria local e dar a ela condições igualitárias de competição. 

E quais seriam as medidas para isso? Alguma reforma, como a tributária?

Temos falado em desoneração da folha, que para setores que empregam bastante é interessante. O Brasil precisa realmente incentivar os setores que empregam bastante e ajudar os setores a conseguir ter bons insumos. A história toda gira em torno de empregos no Brasil, que é muito grande. É preciso empregar muitas pessoas no Brasil, principalmente em lugares mais humildes, com mais necessidades. Temos fábricas no interior do Ceará e da Bahia e essas fábricas são a principal fonte de renda dessas regiões.

O Brasil já produziu mais calçados e foi maior na indústria calçadista. Com o crescimento todo que teve no mundo, ficamos um pouco atrasados, mas podemos ainda ser muito maiores. A questão é que precisam nos dar condições iguais de competir, tanto para proteger o mercado interno quanto, e principalmente, para exportar. Se conseguirmos, nos tornaremos exportadores muito maiores.

E o cenário global preocupa nesse contexto? Porque há temor quanto a uma recessão no mundo, dado que a inflação tem subido e puxado juros em muitos países. Esse quadro pode atrapalhar as exportações, não?

Eu vejo bastante conturbada a situação das nossas exportações. Estou falando mais pela Vulcabras, que exporta mais para a América do Sul, região que tem passado por grandes dificuldades. Apesar disso, a gente mantém as exportações. Elas já foram maiores e gostaríamos que se recuperassem.

Sobre a preocupação de crise internacional, isso é um temor para que o governo não deixe que seja usado o Brasil para escoar produtos de marcas internacionais. Isso não está acontecendio hoje, em que a competição está mais saudável, mas tem que abrir o olho. Por isso, com condições igualitárias de trabalho, nós vamos nos adaptar mesmo com crise. O brasileiro se adapta muito bem e a indústria calçadista também sabe se adaptar. Se tiver que fazer um produto de melhor custo-benefício, mais multifuncional... Nós sempre nos adaptamos muito bem. Mas continuo com uma visão de otimismo. Acredito que vamos continuar crescendo, fazendo produtos cada vez melhores e empurrando o nosso país para a frente.  

 

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