Novo marco da euforia dos IPOs na pandemia: duas estreias no mesmo dia

Na primeira semana de agosto, mercado absorve nada menos do que R$ 10,5 bilhões em novas ações em circulação

Agosto, reza a lenda, é mês para ser esquecido. Ruim. Mas esse de 2020 vai ser lembrado. Um dia após o BNDES ter vendido diretamente na bolsa, sem oferta pública, uma posição de 8,1 bilhões de reais em ações da Vale no maior block trade da história, absorvido em menos de duas horas, o mercado deu outro sinal da grande liquidez e apetite dos investidores. Duas estreias na B3 fecharam nesta quinta-feira: a da rede de farmácias D1000, com uma operação de 460 milhões de reais, e da varejista de materiais de construção Quero-Quero, uma colocação de quase 2 bilhões de reais. Na semana, o mercado absorveu nada menos do que 10,5 bilhões de reais em novas ações em circulação.

Dois IPOs no mesmo dia num ano com pandemia, com as maiores taxas de retração econômica no mundo ao mesmo tempo, já seria notícia — considerando que é sempre quando o homem morde o cachorro e nunca o contrário, segundo a lição nº 1 do jornalismo. Mas para ficar completa a noção de ineditismo é preciso explicar que a Quero-Quero, uma varejista que ficou de portas fechadas durante parte do segundo trimestre, tornou-se o que o mercado chama de full corporation com a oferta concluída hoje — uma companhia sem dono, sem um controlador majoritário. A gestora de fundos de private equity Advent vendeu toda sua participação no negócio em bolsa, a maior parte da colocação realizada nesta quinta-feira. Um último detalhe: mercado não gosta de ofertas secundária (que não é para o caixa da empresa, como uma emissão primária) em IPOs.

A semana conseguiu reunir o maior block trade da história, um raro IPO abaixo de 500 milhões de reais, e uma segunda Lojas Renner — a varejista americana JC Penney decidiu vender o controle da companhia brasileira na bolsa em 2005, depois de passar um longo tempo em busca de um comprador que nunca encontrou, na primeira pulverijação de controle em bolsa no país.

Agora, o dilema dos especialistas vai aumentar. Começaram a surgir críticas ao excesso de IPOs e aos valores dos papéis mais queridinhos das pessoas físicas, mas o fato é que ninguém sabe mais o preço das coisas. O motivo não são dúvidas sobre os tradicionais métodos de avaliação de empresas: fluxo de caixa descontado e múltiplos. Nada disso. Essa parte os especialistas continuam sabendo fazer, e vários já estão dizendo que os valores estão salgados. Em especial, das novatas.  O dilema, o difícil mesmo, está em saber qual o real efeito — e o limite — da migração de dinheiro da renda fixa para a renda variável, devido ao patamar da Selic, que ontem foi reduzida para 2% ao ano. É a era do juro negativo no Brasil, quem imaginaria! Quanto o desequilíbrio entre oferta e demanda em uma bolsa com 330 companhias abertas vai distorcer os preços? Será temporário? Será duradouro?

Os pequenos investidores não param de chegar ao mercado e comprar ações tomando suas próprias decisões: outro movimento com consequências e limites desconhecidos. Agora, há 2 milhões de CPFs registrados na B3 — 2,5% da população economicamente ativa do país, mesmo depois da explosão com o saldão de preços da pandemia, que encorajou muitas pessoas a colocar os pés no mercado. Nos Estados Unidos, as estimativas variam entre 50% e 80% da população como aplicadores de bolsa. Os fundos de ações voltaram a captar, depois alguns meses mais parados.

Diante desse quadro e para não morrerem pela boca, os bancos de investimento, cujos executivos sorriem de orelha a orelha mesmo sem tempo para respirar, estão tentando dar sinais de que sabem navegar esses mares da euforia melhor do que em outros tempos. Na hora de fechar as operações, estão sempre buscando deixar uma ‘gordura’, uma valorização para depois. Mesmo com livros demandados que poderiam fazer os IPOs estrearem no teto da faixa de preços sugeridos, estão convencendo as companhias a vender um pouco mais barato as ações. É uma forma de buscar preservar espaço para os investidores lucrarem com os papéis. Tanto a pequena D1000 como a Quero-Quero tinham livros para saírem com preços melhores. Mas não: a rede farmácias saiu no piso, com a ação a 17 reais, e a varejista de materiais de construção ficou em 12,65 reais, no meio do intervalo proposto.

Agosto está só começando, meus amigos. Se ele demorar para acabar, como costuma rezar a mesma lenda do mês ruim, quantos bilhões mais ainda virão?

 

 

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