No sul do país, TM3 Capital tem R$ 500 milhões e 50 startups investidas

Fundada por ex-Bematech e ex-Icatu no sul do Brasil, firma planeja atingir R$ 1 bi sob gestão em cinco anos e estender atuação para a América Latina
TM3: foco em encontrar 'tesouros' nacionais (iStockphoto/time99lek)
TM3: foco em encontrar 'tesouros' nacionais (iStockphoto/time99lek)
Por Karina SouzaPublicado em 25/05/2022 10:13 | Última atualização em 25/05/2022 10:13Tempo de Leitura: 6 min de leitura

No momento em que a aversão ao risco das companhias de tecnologia domina as bolsas globais, uma gestora de recursos brasileira mantém o foco em encontrar tesouros nacionais. A TM3, fundada em 2011 por Marcel Malczewski, co-fundador da Bematech, e por Jon Toscano, ex-diretor de private equity do Icatu Equity Partners, cresceu nos últimos dez anos com foco em ativos de tecnologia e alcançou o posto de maior empresa de investimentos em venture capital do sul do Brasil. A firma tem R$ 500 milhões sob gestão, já participou de mais de 50 operações e o portfólio de todas as empresas investidas está avaliado em R$ 1,1 bilhão.

Depois de consolidar a presença no sul do país, a TM3 avança para o sudeste e mira terras internacionais. O objetivo é chegar ao primeiro bilhão sob gestão nos próximos cinco anos, de olho em estabelecer operação em outros países da América Latina. A crise? O estouro da bolha? Apenas um solavanco, na visão da casa.

Hoje, a gestora tem escritórios em Curitiba, São Paulo e Florianópolis, além de 13 associados. Os fundos da casa, além de capital próprio, contam com recursos do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), e BNDES. Além disso, é claro, investem com a TM3 family offices e investidores pessoa física de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

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Além do investimento em tecnologia (responsável por R$ 400 milhões dos R$ 500 milhões sob gestão), a firma também tem no portfólio fundos líquidos (com R$ 50 milhões captados) e outros R$ 50 milhões aplicados em projetos de Real Estate. Especificamente no setor de construção civil, o foco são empresas com viés de tecnologia, mas também com propostas ESG. Para completar a oferta, a companhia também lançou recentemente a frente de consultoria para empresas, “o que conversa muito com a nossa estratégia de análises, valuation, atividades muito presentes no dia a dia”, diz Marcel. 

Num momento tão delicado para as startups — com a fuga dos investidores dos ativos de risco — Malczewski, hoje CEO da TM3, acredita que as startups de capital fechado não devem enfrentar um ajuste de valor tão forte quanto as companhias de tecnologia abertas. “Essas empresas caminham quase num ‘mundo paralelo’ de investimentos”, diz o executivo.

No próximo ano e meio, o plano é levantar R$ 200 milhões para projetos de fundos imobiliários, multimercado e de ações. “Os R$ 300 milhões restantes [para a meta de R$ 1 bilhão em cinco anos] viriam de fundos de venture capital, que planejamos estruturar nos próximos três anos”, diz  Malczewski, CEO da TM3. Como primeiro passo para esse plano, a companhia vai estruturar o sexto fundo de venture capital, que tem como meta captar pelo menos US$ 6 milhões (aproximadamente R$ 30 milhões) no início de 2024. Na contramão do desânimo do mercado para os ativos de tecnologia, a firma acredita que empresas do setor devem continuar crescendo.

Como a TM3 chegou até aqui

“Desde o momento em que fiz o IPO [oferta pública incial] da Bematech, eu tinha interesse em, no futuro, atuar nesse ecossistema de inovação, usando alguns dos meus recursos para investir em empresas de tecnologia. Pelo fato de a empresa, na época, já ter uma estrutura organizada, capital aberto, eu não queria fazer investimento anjo, queria fazer através de fundos”, diz Marcel Malczewski, CEO da TM3. 

Em busca de realizar esse sonho, o primeiro fundo foi estruturado em 2011, logo que o executivo saiu da posição de presidente para chairman da Bematech, em parceria com Toscano e com a Trivella Investimentos. Ao todo, eram R$ 10 milhões sob gestão, com foco em investir em companhias early-stage. Foram quatro contempladas e, entre elas, estava a Veltec, empresa de inteligência em gestão de frotas, adquirida pela norte-americana Trimble em 2018.

Em 2014, outro fundo, o VC2, foi estruturado em parceria com a Cypress, butique de M&A de São Paulo e captou R$ 20 milhões. Nessa seara, o destaque foi a M2M, empresa de monitoramento de frotas para o setor de transporte público, adquirida pela Sonda por R$ 43 milhões em 2019. Ambos já foram encerrados. 

Em seguida, o VC3 foi formado por outros dois fundos (Seed 1 e Seed 2), que permanecem como “Evergreen” e miram aportes de até R$ 2 milhões por empresa. O fundo foi criado em parceria com a ACE, aceleradora de São Paulo e é responsável por observar e escanear o mercado de startups do Sul do país, captando investimentos que giram em torno de R$ 6 a R$ 8 milhões. Alguns exemplos de empresas empresas que já passaram pelo VC3 são a Mercafácil, de supermercado online, investida pela Z-Tech, hub de inovação da Ambev, além da Hiper, startup desenvolvedora de software de Brusque adquirida pela Linx por R$ 50 milhões e a VHSys, startup de sistemas de gestão para PMEs, que contou com investimento da Stone no último ano. 

“Na última década o cenário mudou muito. A gente via o nível de maturidade de projetos de startups relativamente baixo até 2014, praticamente. De lá para cá, o perfil do empreendedor e dos projetos mudou e passou a ser muito animador. Fundos maiores passaram a ser estruturados, principalmente em São Paulo, até projetos de incubadoras, universidades, tudo isso ganhou força ao longo desse período e, de certa forma, nos impulsionou”, diz Marcel.

Como resultado desse cenário, o VC4 foi estruturado em 2018, captou R$ 100 milhões e ainda está investindo em companhias no chamado late-stage, com aportes de até R$ 30 milhões. Mas o grande destaque veio mesmo em 2021, quando a firma ganhou a licitação para um FIP de R$ 250 milhões cujos recursos serão investidos pelo Bandes.  Os recursos virão do Fundo Soberano do Espírito Santo, a partir de uma parcela dos royalties do petróleo recebido mensalmente pelo estado. O objetivo principal é investir em empresas de segmentos fora da cadeia de óleo e gás – aumentando as chances de gerar riqueza para o estado sem depender do petróleo.