JGP decide dar mais luz a fundo de health care, com médica à frente da gestão

Dedicado a brasileiros, mas com alocação internacional, fundo prioriza setor de biotecnologia
Saúde: retorno do JGP Health Care desde lançamento está em quase 75% (Vano SHLAMOV / AFP/Getty Images)
Saúde: retorno do JGP Health Care desde lançamento está em quase 75% (Vano SHLAMOV / AFP/Getty Images)
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Graziella Valenti e Karina Souza

Publicado em 17/06/2022 às 11:00.

Última atualização em 23/06/2022 às 14:07.

"Tentamos nunca esquecer que a medicina é para as pessoas. Não é para o lucro. Se não nos esquecermos disso, eles nunca falham em aparecer". A frase de George Wilhelm Merck foi escolhida como destaque para a primeira carta da JGP que abre espaço para seu fundo de biotecnologia, lançado em 2016, e que a casa decidiu colocar mais na vitrine. Apesar de ser do fundador do laboratório Merck, a sentença não poderia unir de melhor forma a lógica do setor com o perfil da gestora carioca, que há dois anos, aproximadamente, decidiu adotar para toda sua estratégia (com produtos mais e menos dedicados) uma régua pautada também os fatores de sustentabilidade, sociais e de governança, o triunvirato poderoso do momento, conhecido como ESG.

"Os investidores no setor de saúde podem criar um círculo virtuoso recompensando boas empresas. Há um papel a ser desempenhado pelo mercado de capitais na reestruturação da saúde, indiscutivelmente, e consideramos o JGP Health Care como um veículo dessa transformação", diz a carta, escrita pela gestora Suy Anne, cuja história de vida e da carteira se misturam profundamente. Lançada em 2016, a carteira acumula um retorno de 73,4%, até o fim de maio deste ano.

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A carteira é essencialmente composta por  ativos internacionais, uma vez que no Brasil há poucos representantes do segmento, em especial quando se fala em biotecnologia - principal alocação do fundo, com mais de 26% do patrimônio, e um segmento que sozinho movimenta cerca de US$ 600 bilhões. Na B3, há apenas empresas de planos de saúde e hospitais.

Investir no setor de saúde não é uma tarefa para leigos. À complexa avaliação de ativos, soma-se o prazo longo para retorno e a falta de familiaridade do mercado de capitais com empresas de um modo geral. Trocando em miúdos, ter uma carteira que encontre oportunidades num ramo tão específico e de conhecimento tão sofisticado exige uma gestão para lá de especializada. É aqui, nesse ponto, que a história de Suy Anne e do fundo começam a se cruzar.

Formada em Medicina pela Universidade Federal do Ceará, a gestora concluiu sua residência em oftalmologia. Com doutorado pela Universidade Federal de São Paulo, partiu para um pós-doutorado na Johns Hopkins Medical School, a meca que une pesquisa, desenvolvimento e capital. Foi lá que se apaixonou pelo mercado de capitais e se deu conta de como o mercado era essencial para a transformação da indústria. Decidiu, então, emendar uma especialização também em finanças, com um mestrado na mesma instituição, que cursou até 2009. 

Em 2013, em uma guinada na carreira, Anne aceitou uma posição de analista na JGP. "Mas meu sonho sempre foi ter um fundo dedicado. Eu já sabia disso desde o começo, quando cheguei aqui", conta ela, em entrevista ao EXAME IN. A proposta para montar o JGP Health Care foi apresentada em 2015 e o fundo ganhou vida — com perdão do trocadilho para a situação — no ano seguinte. 

Agora, a iniciativa, com uma alocação total da ordem de R$ 100 milhões, começa a ganhar mais visibilidade. Diante do envelhecimento da população e da necessidade de medicamentos cada vez mais complexos que possam levar à longevidade, a gestora quer mostrar que pode ser o veículo para aproximar investidores de empresas da ‘saúde do futuro’. Para a JGP e para Anne, investir em saúde não é uma moda passageira, mas uma necessidade de recompensar empresas que fazem um bom trabalho e de aproveitar ganhos em um segmento cada vez mais necessário para o desenvolvimento da sociedade.

O principal interesse da JGP está em empresas que tenham pesquisas sendo desenvolvidas na área de doenças complexas e mais caras. E isso se traduz na estratégia de alocação. Além de biotecnologia o fundo tem ainda empresas de equipamentos médicos (24,1%), de serviços de saúde (21,8%), empresas farmacêuticas (12,1%), e de diagnósticos (11,8%). O fundo, dedicado ao público brasileiro, está aberto para captações na plataforma do BTG Pactual Digital (do mesmo grupo de controle da Exame ) e que tem investimento mínimo de R$ 20 mil.

A maior parte das empresas investidas está nos Estados Unidos (85%), país que gasta mais de US$ 4 trilhões por ano em saúde, o que corresponde a quase metade do gasto total de saúde global. “Além disso, a maior parte das empresas de inovação em saúde estão sediadas lá. Por vezes, surgem iniciativas em outras regiões, como a Europa e a Ásia, por exemplo, mas o que vemos é que as companhias em algum momento vão para os Estados Unidos para se desenvolverem”, diz Anne. As demais regiões citadas pela gestora respondem por 10% do fundo (empresas europeias) e 5% (asiáticas). 

A opção pela diversificação entre setores busca resguardar investidores da volatilidade de algumas dessas companhias — aprovação de tratamentos ou medicamentos — ao longo do tempo. Para dar um exemplo, ela ressalta, na carta publicada neste mês, que não é incomum ver uma ação caindo 50% em um dia e subindo 200% em pouco tempo depois, já que o desempenho das empresas está ligado a estudos clínicos, patentes, aprovação de drogas e fusões e aquisições. 

Um exemplo recente disso é a Mirati, empresa americana de oncologia que se dedica a descobrir novas terapias contra o câncer. Nesse mês, as ações da companhia tiveram alta de 38% num único pregão, depois da divulgação de avanços significativos em uma droga que tem como foco tratar metástase cerebral de pacientes com câncer de pulmão, durante um congresso nos Estados Unidos sobre oncologia. O episódio virou troca de mensagens entre Anne e André Jakurski, fundador da JGP. Outro exemplo é o da Moderna, uma das empresas responsáveis por desenvolver vacinas contra a covid-19 e cujo caso ganhou destaque nessa primeira carta sobre o fundo. A receita da companhia passou de US$ 206 milhões em 2017 para um faturamento projetado em US$ 17,9 bilhões em 2021. 

Em uma visão geral, o ritmo de aprovação de novas drogas pelo FDA (a Anvisa dos Estados Unidos) está em patamares cada vez mais acelerados. Se em 2008 eram aprovadas apenas 24 novos medicamentos por ano, em 2020 foram 53 e, em, 2021, outros 50. Não deve diminuir tão cedo: de acordo com dados das Nações Unidas, em 2050, 1 em cada 6 pessoas no mundo  terá mais de 65 anos, em comparação com 1 em cada 11 em 2019. 

Identificar as empresas com maior potencial dentro desse segmento é quase um estado da arte do investimento em saúde. Lidar com a complexidade do desenvolvimento de drogas e entender cada etapa desse processo pode fazer com que investidores sem um nível alto de especialização não consigam despender o tempo necessário para entender todos os riscos que essas empresas oferecem. Daí vem o principal diferencial da JGP a, com Suy Anne à frente da estratégia de alocação.

Agora, com o fundo acumulando seis anos de histórico, o foco é tornar o setor ainda mais conhecido diante dos investidores. Dessa vontade, somada ao cenário pós-pandemia e à depreciação de ativos de saúde globalmente, veio a divulgação de uma carta aos investidores em junho deste ano. O documento detalha, em 28 páginas de um tom bastante didático, o porquê de investir no setor de saúde e ressalta que, mais do que promover retornos significativos aos investidores, trata-se de uma oportunidade de contribuir para o desenvolvimento da humanidade.

 

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