IPOs: Track&Field, Enjoei e Méliuz são as pequenas grandes promessas

Empresas têm porte pequeno, mas cada qual um charme no negócio que despertou atenção dos investidores

O saldo de 2020 de ofertas e IPOs, que já supera 96 bilhões de reais, não vai bater recorde só em volume, mas também em diversidade. Tem negócios de todos os tipos, setores e tamanhos — justamente a variedade que a B3 sempre buscou. Nesse momento, estão na rua oito ofertas iniciais que devem movimentar 6,3 bilhões de reais. Dentre elas, há três negócios nada óbvios que estão chamando bastante atenção e interesse: a companhia de moda e varejo fitness Track&Field, a plataforma de venda de moda usada Enjoei e a companhia de cashback Méliuz.

Somente com as oito transações em andamento, o volume  de ofertas de ações do ano já vai ultrapassar 100 bilhões de reais. Três digitos só se viu em 2010, quando a Petrobras fez a megaoferta de 120 bilhões de reais, para absorver o pré-sal, que estava em poder da União. Por isso, esse marco anterior nem é considerado.

Dos três IPOs com mais atenção neste momento, nenhuma megaoferta, nem megacompanhia. Bem ao contrário, na verdade. O porte menor — em relação ao padrão de empresas da bolsa — não tem sido empecilho para que o trio encontre seu perfil de investidores.

A Track&Field é um negócio de tamanho médio, com marca consolidada e margem de lucro elevada para o setor de varejo e consumo. Já Enjoei e Méliuz são startups em plena fase de crescimento, com muito a fazer pela frente. Mas tudo indica que vão marcar uma estreia bem-sucedida desse estágio de empreendimento na B3. Cada uma das três tem algo de desejável dos hábitos atuais de vida. A Track&Field prega bem-estar e saúde, a Enjoei tem uma pegada de reciclagem de consumo pela via digital e a Méliuz pode ser colocada no maravilhoso mundo das fintechs.

Outra novata que se lançou em busca de recursos é a Wine, rede de comércio eletrônico de vinhos. Mas, como começou mais recentemente as apresentações, ainda é cedo para saber se seus números têm enebriado os investidores.

A Track&Field é quem chega primeiro: fixa o preço de sua ação na oferta pública na quinta-feira, 22. Na semana passada, a empresa já tinha demanda garantida, conforme o EXAME IN apurou com fontes próximas à transação. O interesse pelo negócio já superava o livro de oferta mais de uma semana antes de fechar. A colocação deve ficar entre o piso e o meio da faixa indicativa de preço, que vai de 10,65 reais a 14,95 reais por ação.

O caminho da empresa até a bolsa tem uma história um pouco diferente das demais. O objetivo principal da listagem é a perpetuação do negócio, fundado em 1988 pelo trio Frederico Wagner, Ricardo Rosset e Alberto Dominguez Von Ihering Azevedo — cada um hoje já com sua lista de herdeiros. Trata-se de uma das principais vantagens de transformar uma empresa familiar em uma companhia aberta, de acordo com os princípios mais difundidos das boas práticas de governança corporativa.

A companhia tem 234 lojas, sendo 197 no modelo de franquia. As vendas totais da marca alcançaram 469 milhões de reais no ano passado e 139 milhões de reais nos seis primeiros meses deste ano, inevitavelmente impactadas pela pandemia. Além da moda fitness e acessórios, a empresa também tem ampliado a atuação na organização de eventos de bem-estar, como corridas de ruas. No ano passado, foram 162, que reuniram quase 135 mil inscritos.

Na faixa intermediária de preço, a oferta da Track&Field deve movimentar 630 milhões de reais. Além dos fundadores venderem parte das ações,  55% dos recursos da emissão primária — estimada em 232 milhões de reais — também vão para o bolso dos donos, pois o dinheiro captado será usado para pagar dividendos. Ou seja, está para lá de evidente que companhia não tem necessidade de capital. Antes mesmo da oferta tinha mais caixa que dívida, em saldo positivo de 56,5 milhões de reais ao fim de junho. Mas uma oferta maior é importante para garantir um mínimo de liquidez para as ações.

Da operação total, 132 milhões de reais serão distribuídos para os acionistas, com base no que foi declarado em 2019. O restante será dividido entre o pagamento de um compromisso financeiro de 35 milhões de reais  e mais investimentos, em um total de 65 milhões de reais.

A Track&Field teve receita líquida própria de 79,5 milhões de janeiro e junho e prejuízo de 1,3 milhão, reflexo dos efeitos do isolamento social para contenção da covid-19. Em 2019, a receita líquida somou 276 milhões de reais e a última linha do balanço ficou positiva em quase 52 milhões de reais — uma margem líquida de quase 19%.

O projeto de crescimento apresentado pela Track&Field é basicamente orgânico. A companhia não tem planos ambiciosos de aquisição ou coisas semelhantes. A manutenção de seu DNA é algo muito valorizado na empresa. Além do modelo de franquia, a expansão inclui acelerar o projeto digital: para onde irão os 65 milhões de reais de investimentos da captação primária. Apesar de ter um portal de e-commerce desde 2009, a empresa só começou a avançar para o modelo ship from store (entrega a partir das lojas) e retirada das compras em loja em agosto deste ano. O aplicativo da marca foi lançado no ano passado.

A preservação da cultura da companhia e o desejo dos fundadores de se manter no controle é o que está por trás também do modelo societário. A Track&Field será listada no Nível 2 da B3, ou seja, terá ações ordinárias e preferenciais — apesar de não enfrentar nenhuma restrição regulatória como costuma ser o caso de quem escolhe esse nível de governança. A empresa adotou um modelo de super-preferencial, só que com alavancagem bastante inferior à das aéreas Azul e Gol. Aqui, cada ação preferencial paga 10 vezes mais dividendo que a ação ordinária. Na Azul essa proporção é de 75 e na Gol, de 25.

Portanto, a Track&Field está longe de ser um caso óbvio para o gosto dos investidores. Mas o desempenho e a longevidade do negócio despertaram atenção suficiente. Não há promessa de plano mirabolante, nem crescimento exponencial. Bem ao contrário. A empresa quer seguir seu projeto de expansão que a trouxe à atual quantidade de lojas, espalhadas por 24 estados do país, ao longo dos últimos 32 anos.

Já as startups Enjoei e Méliuz, desde que colocaram o nome na fila da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no aguardo do registro da oferta, atraíram atenção de investidores. Conforme o EXAME IN já destacou, bem antes de fechar a operação de Enjoei, já havia disputa entre fundos de investimento renomados para ancorar a compra dos papéis. A oferta total, no centro da faixa de preços, é de 1,15 bilhão de reais. Desse total, cerca de 604 milhões de reais serão de ações vendidas pelos diversos fundos que já estão na base de acionistas da empresa, como Dynamo, Monashees e Bessemer (concentrada nesses dois últimos).

A diferença de 551 milhões de reais irá para o caixa da empresa, dar conta do crescimento, cujo potencial é o que está atraindo os investidores. Na semana passada, a empresa fez uma atualização de prospecto que a CVM julgou relevante. A autarquia pediu então que fosse concedido mais prazo para análise das novidades pelo mercado. Resultado é que o fechamento da transação escorregou para o começo de novembro (dia 5) e, por conta disso, a empresa abriu prazo para desistência daqueles que já fizeram reserva (se julgarem necessário). Entre os itens que mais chamam atenção está a informação de que a empresa aderiu ao modelo de jornada e salários reduzidos durante a pandemia, o que contribiu para que a margem Ebitda ficasse positiva no período. O tão aguardado break-even pode não estar tão perto.

No caso de Méliuz, cuja oferta deve movimentar 590 milhões de reais, o charme é a novidade de um ramo que o mercado acredita que será promissor. A operação de cashback tem o desafio tecnológico e a profusão de novos negócios e potenciais concorrentes como desafio. Mas sua atividade além de não envolver ativos fixos, também não depende de logística. Tudo acontece no mundo das telas, nada no universo físico. É o que explica a rápida expansão de margens. Nos seis primeiros meses deste ano, a receita líquida alcançou 62,2 milhões de reais, um crescimento de 60% sobre igual período de 2019. Já o Ebitda saiu de 3,5 milhões de reais para 19,5 milhões de reais, com a margem dando um salto de 11% para 35%. Ao fim do semestre, a companhia tinha caixa líquido de 28,3 milhões de reais. Da operação total, 255 milhões de reais serão de uma emissão primária para engordar o saldo aplicado e fazer frente à expansão e aquisições. O preço final fecha dia 3.

Fim do preconceito

Até 2019, IPO de sucesso era aquele que saía no teto da faixa indicativa de preços. Não importava muito o que aconteceria no dia seguinte. Mais uma novidade para a temporada de 2020: essa crença está démodé. Há muito mais consciência de que o processo de listagem e a formação do livro de ofertas é uma negociação. E que a relação da companhia com sua base de investidores e seu histórico no mercado começam justamente nesse momento tão crucial.

Ceder, deixar mais espaço para o acionista de bolsa ficar feliz e, sempre que possível, buscar um bom desempenho logo após a estreia tornou-se um comportamento mais comum e menos traumático. Não apenas os bancos de investimento defendem mais, como controladores — sejam empresários ou fundos de investimentos — estão mais compreensivos.

Além disso, o trabalho de análise dos investidores também melhorou. O mercado não aceita mais o preço proposto e isso deixou de ser uma questão binária: o IPO sai ou não sai. No preço certo, a demanda aparece.

Nem mesmo um dos mais comentados IPOs de 2020, a listagem da rede de varejo de produtos para animais de estimação Petz saiu no teto — e demanda não faltou. Mais recentemente, para ter sucesso na colocação, a Sequoia topou reduzir o preço pretendido em cerca de 10% frente ao piso definido. Deu certo.

A volatilidade da bolsa brasileira, devido à preocupação dos investidores com o futuro das contas do país, somado à eleição americana que afeta o humor dos estrangeiros, são a principal causa para os ajustes nos preços das ofertas. Mas é a experiência de todos os envolvidos que tem permitido que o mercado não se feche: boas histórias ainda encontram seu espaço.

Da atual lista de ofertas no aguardo de registro no regulador, a mais esperada é a Rede D'Or, de hospitais. A operação, se conseguir ser colocada neste ano (e deve), promete ser a maior estreia, superando o Grupo Mateus, de varejo do Nordeste. É daqueles negócios que vai engorar a lista de grandes empresas na bolsa. Mas, por enquanto, a companhia ainda não começou o processo oficial de venda, quando já indica a faixa de preço pretendida.

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