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Haddad, como ministro, fala de IPOs enquanto Câmara muda Lei de Estatais para Mercadante

Fala de futuro ministro da Fazenda poderia agradar, mas atitudes contradizem discurso e bolsa anula ganhos no ano

Bolsa: quase 500 ofertas públicas de ações desde 2004 (NurPhoto/Getty Images)

Bolsa: quase 500 ofertas públicas de ações desde 2004 (NurPhoto/Getty Images)

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Graziella Valenti

14 de dezembro de 2022, 08h49

A primeira coletiva do futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad, veio no fim de um dia de mais frustração do mercado com as perspectivas para o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, devido ao anúncio de Aloizio Mercadante para presidir o BNDES. O Índice Bovespa terminou de apagar os ganhos de 2022 no pregão desta terça-feira, dia 13. É como se o ano não tivesse existido.

Mesmo assim, não deixou de surpreender o afago que Haddad fez (ou tentou fazer?) no mercado de capitais, citando nominalmente as evoluções do país com as muitas ofertas públicas iniciais (IPOs) que aconteceram desde 2003 — precisamente, elas engataram em 2004, após a listagem da Natura (NTCO3), que ainda não era ‘&Co’. O futuro ministrou citou a evolução do mercado e como essa ‘entidade coletiva’ virou fonte de financiamento de longo prazo para as companhias, no lugar do Estado.

As falas foram quase uma contradição à confirmação do nome de Mercadante no BNDES. Embora as diretrizes do plano de governo para a instituição de fomento — e tudo isso ainda a se provar — sugiram que atue menos como provedora do crédito e mais como garantidora. Resta saber como e para que tamanho de companhias.

Para completar o desgosto e todos os medos, a Câmara dos Deputados aprovou uma flexibilização da Lei das Estatais (criada para coibir os tipos de desmandos e interferências que ocorreram na Petrobras), o que abre espaço para Mercadante no BNDES, pois libera a indicação de políticos para estatais, conforme noticiou ontem à noite o site G1. Só que isso nem é a pior notícia. É só o começo, na visão dos investidores, que esperam mudanças de toda sorte na Petrobras (PETR3/PETR4). A medida ainda carece de aval dos Senadores.

Mas é fato: Haddad falou de IPOs. No início dos anos 2.000, os empresários ainda chamavam essas ofertas de ‘hipos’, como hipopótamos. Sim, meninos, eu vi. Para colocar luz no passado, a recuperação da atividade do mercado brasileiro tem menos a ver com a gestão do Partido dos Trabalhadores e mais com esforços que já vinham sendo feitos antes, no pós-privatizações. Aqui, vale parênteses importante: se, de um lado a administração de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, entregou a privatização da Vale, da Usiminas e do Sistema Telebrás, do outro, cravou uma adaga no mercado tirando o prêmio de controle dos acionistas minoritários (tag along) para concentrar nas mãos do Estado os ganhos com os ágios dos leilões.

O que veio a seguir — a criação do Novo Mercado em 2.000, a Reforma da Lei das Sociedades por Ações em 2.001 (Lei 10.303) e a formulação das regras para ofertas públicas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM)  em 2003 — foi tudo para tentar recuperar a credibilidade do estrago feito e organizar os agentes. E boa parte fruto de autorregulação e ‘das forças de mercado’. E foi desse conjunto de melhorias que veio a atividade na bolsa. Daí, juntou a fome com a vontade de comer quando tudo isso encontrou a tremenda liquidez global que se formou até a quebra do Lehman Brothers.  Em 2007, teve IPO de todo tipo de empresa. Foram mais de 60.

Mesmo que em ondas, foram feitas quase 500 ofertas públicas de ações na bolsa brasileira desde 2004, até agora. E isso é matemática, como Haddad frisou valorizar. Falar em montantes é besteira, dada a desatualização monetária, mas por curiosidade a soma delas quase alcança R$ 1 trilhão. Dessas ofertas, mais da metade foram companhias que se tornaram abertas, ou seja, que estrearam na bolsa. As demais foram de empresas já listadas que passaram a contar com o mercado como fonte de recursos.

Para se ter uma ideia do que isso significa, basta lembrar que a B3 tem hoje cerca de 400 empresas listadas e que, quando o esse movimento começou, a Renner era um ativo que a americana JC Penney tinha no Brasil e para o qual não havia encontrado comprador e, só por isso, pulverizou os papéis na bolsa em um ato de pura ousadia. A Cosan estava chegando ao pregão e Rubens Ometto parecia um sonhador ao falar que as petroleiras um dia bateriam a sua porta em busca do etanol — parece até que antevia a sociedade com a Shell. A Gol estava no começo de sua vida. Os setores de carne e das incorporadoras imobiliárias, além das próprias usinas sucroalcooleiras, eram conhecidos pelos altos índices de informalidades — dos mais diversos tipos, das trabalhistas às tributárias. Isso para ficar em poucos exemplos. Não custa lembrar que a Embraer era uma empresa controlada por fundos de pensões de companhias estatais.

Longa interrupção feita até voltarmos a esse fim de 2022 e dizer que não foram apenas os IPOs lembrados por Haddad. O futuro ministro falou muito sobre estimular o microcrédito. Tudo isso fez arrepiar os cabelos de muita gente que ouvia a coletiva, lembrando como os bancos públicos, em especial Banco do Brasil e Caixa (que ainda era Econômica Federal) foram usados nas gestões anteriores do PT para pressionar as taxas do mercado para baixo. Mas, ao ser questionado sobre se isso se repetiria, o ex-prefeito de São Paulo foi claro: “Estamos em outro ciclo, o cenário é muito diferente. Temos grandes bancos que nem mesmo têm agências”. Foi uma clara referência à nova economia das fintechs e bancos digitais, que ficou completa quando disse que tudo isso ocorrerá pelo estímulo à competição. Para o BB e a Caixa, destacou seus já tradicionais papéis, que (quase) ninguém questiona, para o setor de agricultura e o crédito imobiliário, respectivamente.

Como fechar os olhos aos 70 milhões de clientes do Nubank ou aos 14 milhões do Banco Inter? Isso para ficar apenas em dois exemplos. Ou ao efeito das plataformas digitais de investimentos, que tiraram bilhões da poupança ou de produtos indecentes e colocaram para financiar a economia? De acordo com dados da Anbima, a indústria de fundos captou, em valores não corrigidos, um saldo líquido positivo de R$ 1,8 trilhão, entre 2006 e outubro de 2022 — base de dados disponível. Todo o dinheiro que foi para fundos de investimentos financiou companhias, via dívida ou ações, e o próprio Estado, por meio de títulos públicos.

Ao citar tudo isso Haddad não poderá mais à frente alegar a ignorância dessas forças, construídas ao longo das últimas décadas. Tudo isso já está aí. Forma esse coletivo do mercado que tudo julga. E, claro, sempre há espaço para aperfeiçoamentos. O tal mercado, porém, teme mesmo é que qualquer canetada ou desejo estrague o já feito. Para cada otimista, tem sempre aquele no canto da sala lembrando: “tudo sempre pode piorar”. E, no atual contexto, estão faltando otimistas.

É claro que Haddad falou mais, bem mais do que sobre o mercado de capitais ou as fintechs. Falou da PEC da Transição ou PEC do Estouro, a depender de quem a chama, falou de desorganização das contas públicas, de não excluir os pobres do orçamento. Teve de tudo um pouco. Falou que a estimativa da receita do Estado para 2023, a base do orçamento, será revisada já no começo do ano e que, em sua opinião, está hoje subestimada.

Mas, não importa o quanto se fale, o quanto ele fale. O mercado, esse abstrato, vive mesmo é do concreto, das ações. E hoje foi o dia do Mercadante no BNDES — e não do Bernard Appy à frente de uma comissão para reforma tributária. Cada dia um dia até esse distante 2023.