ESPECIALISTAS: Os impactos dos auxílios de governo para o consumo e as empresas no Brasil

Estudo mostra como é a dispersão das empresas de varejo na bolsa conforme renda das cidades
Varejo: bens essenciais devem ser os maiores beneficiados de aumento do pagamento mensal (Thinkstock/Thinkstock)
Varejo: bens essenciais devem ser os maiores beneficiados de aumento do pagamento mensal (Thinkstock/Thinkstock)
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Luiz Guanais*Publicado em 09/08/2022 às 14:45.

O anúncio do aumento no Auxílio Brasil sofreu grande escrutínio sobre seu impacto nas contas públicas do país. Mas nós vamos analisar o outro lado da medida, que vai injetar cerca de R$ 41 bilhões na economia, com o aumento do pagamento de R$ 400 para R$ 600 mensais às famílias atendidas. Esse fluxo adicional aponta para um potencial aumento do consumo, especialmente, na baixa renda.

Apesar dos desembolsos menores do que o coronavoucher, menos famílias impactadas e de uma perspectiva macro mais difícil atingindo a renda real disponível, esperamos que o aumento no Auxílio Brasil impulsione as tendências de consumo nos próximos meses. Principalmente, para setores mais essenciais, como varejo de alimentos.

Dada a recuperação desigual do consumo e os variados impactos da ajuda governamental nas classes de renda e regiões, tomando uma amostra de 14 varejistas listados e mapeando a distribuição de suas bases de lojas por renda média, concluímos que 44% das lojas em nossa amostra estão em cidades com mais de 300 mil habitantes — sendo apenas 12% em municípios com menos de 50 mil habitantes. Do total analisado, 31% das lojas da nossa pesquisa estão em cidades com mais alta renda, e apenas 12% naquelas com renda média mais baixa.

Empresas como Grupo Pão de Açucar, Petz e Track&Field são as que em nossa análise têm maior participação de suas lojas em regiões de maior renda, enquanto players como Grupo Mateus e Lojas Quero Quero operam em grande parte em cidades na faixa mais baixa de renda média. Já outras, como Carrefour, Arezzo, Assaí, Renner, Magazine Luiza e Americanas têm uma presença de lojas mais homogênea entre as cidades (em relação à média da amostra), de acordo com sua renda média.

No primeiro ano da pandemia, em meio ao fechamento de lojas e massiva redução de consumo, o governo anunciou um auxílio emergencial para trabalhadores informais e desempregados, dando um impulso à atividade econômica. De acordo com nossa análise, a massa salarial total caiu R$ 277 bilhões de março a dezembro de 2020. Mas essa queda foi mais do que compensado pelos R$ 293 bilhões liberados pelo programa coronavoucher.

Considerando os desembolsos totais até outubro de 2021 (quando o programa terminou), o Coronavoucher injetou aproximadamente R$360 bilhões na economia. E tomando 2020 como comparativo, houve um aumento de 11% no consumo entre o quartil de menor renda da população.

Para o aumento do Auxílio Brasil, o cenário é um pouco diverso. Nos últimos trimestres, destacamos o impacto da perspectiva macro sobre os players listados – uma tendência volátil que deve persistir nos próximos meses. Até agora, a recuperação do consumo tem sido desigual, com os varejistas mais expostos aos consumidores de maior renda apresentando desempenho superior nos últimos trimestres. E apesar da desaceleração já esperada no segundo semestre, essas empresas devem continuar como destaques positivos em nosso universo de cobertura, com o consumo ainda aquecido.

*Luiz Guanais é especialista em varejo e consumo do BTG Pactual