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Em Investor Day após compra da Unidas, Localiza vira "&Co" de olho em ecossistema de mobilidade

Empresa aposta em pegada 'high tech' para oferecer diferentes serviços aos consumidores - nessa conta, entra até mesmo quem já tem carro próprio

Localiza&Co: missão é aumentar rentabilidade com operação mais eficiente, sem, necessariamente, aumentar preços na ponta (Localiza/Divulgação)

Localiza&Co: missão é aumentar rentabilidade com operação mais eficiente, sem, necessariamente, aumentar preços na ponta (Localiza/Divulgação)

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Karina Souza

Publicado em 8 de dezembro de 2022, 08h24.

Última atualização em 8 de dezembro de 2022, 14h33.

Localiza (RENT3) e Grupo SBF raramente seriam pensadas intuitivamente como empresas próximas em termos de estratégia de negócio. Mas — talvez por ter escrito há pouco tempo sobre a companhia dona da Centauro e seus planos para o futuro — a verdade é que o discurso do Investor Day da empresa de aluguel de carros lembrou, em certa medida, o que a empresa de varejo esportivo quer construir daqui para frente: um ecossistema. Não se trata de uma simetria perfeita, é bom que se diga. Enquanto a empresa que tem Pedro Zemel como CEO busca estar presente em conteúdo sobre esporte para que, num momento oportuno, o consumidor se lembre de comprar uma peça na loja, a Localiza quer desenvolver diferentes verticais ligadas à mobilidade que sejam capazes de se sustentar sozinhas. Se o consumidor, ao fim de tudo, quiser alugar um carro, bem, que ótimo, mas todo o arcabouço tecnológico a que ele terá acesso terá de ser interessante por si próprio. É complexo, mas é simples. Vamos por partes.

A Localiza quer deixar de ser “só” uma empresa de aluguel de carros para ser uma companhia muito mais high tech, capaz de acompanhar o consumidor que tem uma demanda de mobilidade em diferentes pontos de contato. Leia-se: estão contemplados nisso até mesmo quem tem veículo próprio e precisa de serviços de manutenção. Ou empresas que precisam alugar caminhões, por exemplo. Isso tudo, ao mesmo tempo em que a empresa usa a própria capacidade de tecnologia para aperfeiçoar os serviços já existentes. Não à toa, até o nome da companhia muda: passa a ser Localiza&Co

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A ideia é essa mesma, passar a visão de um grupo, integrado, que conta com diferentes ofertas. O objetivo final de colocar tudo isso em prática é gerar uma eficiência operacional representativa, que faça a companhia ter ganhos reais a partir de uma operação mais ‘azeitada’, o que ajuda a segurar aumentos de preço na ponta. É um caminho diferente do seguido pela concorrência. A Movida, por exemplo, acumula recordes e mais recordes de tarifa média desde o ano passado, na esteira da troca de frota realizada durante a pandemia — um caminho que a companhia, mesmo antes da fusão, optou por não seguir. 

A compra de ativos da Unidas (que teve remédios aplicados pelo Cade), aliás, é um ponto de partida e tanto para iniciar a nova visão sobre a locadora de veículos. Como se sabe, a junção criou uma das maiores empresas do setor no país. Hoje, a Localiza tem mais de 580 mil carros (ante 488 mil no ano passado, em uma comparação proforma), receita líquida de R$ 11,2 bilhões (ante R$ 8,7 bilhões em 2021) e lucro líquido de R$ 2,8 milhões (ante R$ 3 milhões em 2021). Com tamanha escala e diante de hábitos de consumidores que mudam cada vez mais, veio a oportunidade de aumentar a gama de serviços ofertados pela companhia. O que não significa, é claro, abandonar o tradicional, mas sim torná-lo mais eficiente.

Diante dessa nova visão de se tornar uma plataforma de mobilidade para continuar crescendo, a companhia estabeleceu quatro públicos-alvo a serem atendidos com seus produtos: pessoas físicas, empresas, motoristas de aplicativo e oficinas mecânicas.  Esse mix, do ‘antigo’ (Rent a Car, gestão de frotas e seminovos) com novos produtos é o que a companhia acredita que será capaz de ajudá-la a manter um ROIC (o retorno sobre todo o capital investido) de 7,6 pontos percentuais ao longo do tempo. 

Ainda não é possível afirmar, com precisão, quanto as novidades vão representar da receita da companhia no futuro. O que o CEO, Bruno Lasansky, afirmou em coletiva de imprensa, é que historicamente, as inovações lançadas pela empresa nos últimos cinco anos chegam a um patamar de 35% a 40% da receita. “Praticamente um terço da receita vem de segmentos relativamente novos. E quanto maior a gente é, qualquer iniciativa individual vai ter uma perspectiva de ser muito maior e ser cada vez mais relevante”, disse o executivo. 

A companhia também não abre o tamanho do investimento em tecnologia para fazer tudo isso funcionar. O CEO destaca que a empresa tem 1.500 colaboradores na vertical de tech, a Localiza Labs, e que agora, diante de um grupo consideravelmente maior, o investimento terá uma representatividade menor diante de um ‘bolo’ de receita maior. 

Entrando nos detalhes da operação, uma das principais novidades da companhia — e, talvez por isso mesmo, uma das mais questionadas por analistas — é o Localiza+. Trata-se de um produto que se afasta da missão ‘tradicional’ da empresa, ao funcionar como um plano de assinatura para cobertura de manutenção, em linhas gerais. O cliente paga um plano que varia de R$ 50 a R$ 80 e tem acesso a uma rede credenciada de 10 mil oficinas no país em que pode fazer revisões anuais ou semestrais. Caso seja necessário algum serviço além do plano, a Localiza atua como ‘concierge’, para garantir que tudo seja feito nos custos adequados. 

O produto nem foi lançado propriamente — o lançamento oficial é nesta semana —  e já atingiu breakeven, segundo a companhia. Hoje, são 15 mil carros cadastrados, oriundos principalmente da vertical de seminovos, em um mercado estimado pela Localiza em R$ 100 bilhões, considerando os 40 milhões de carros rodando no país. 

“Nosso negócio demanda ser muito especialista em custo de manutenção, já que isso representa de 15% a 20% da receita de um carro, e temos de ser rápidos. Quanto mais barato e mais rápido for, melhor. E, sendo especialistas nisso, podemos vender essa expertise para outras pessoas”, disse João Ávila, diretor executivo de operações e do Zarp. Além disso, a ideia é que o serviço se torne um ponto de contato para que, possivelmente, quando esse cliente precisar alugar um carro, tenha mais chances de fazê-lo com a Localiza. 

Ainda para pessoa física, a companhia vai aperfeiçoar o plano de assinatura de longo prazo, o Localiza Meoo, disponibilizado em todas as cidades do país e que hoje conta com cerca de 35 mil veículos alugados. Em relação à concorrência com outros players que oferecem serviços similares — montadoras, por exemplo — o CEO ressaltou durante o evento que a proposta de valor está ancorada em um custo menor e que há pelo menos cinco diferenciais atribuíveis à Localiza: capacidade de ter o menor custo de aquisição de cliente, por causa da marca conhecida e pelo desempenho de times de venda; posição única para precificar, o nível alto de atendimento ao cliente e escala. “Ao assinar um Meoo, você tem assistência 24 horas, agência de aluguel, serviços que alguns concorrentes não têm”, disse o CEO, durante a apresentação. 

Outro serviço a ser aperfeiçoado é o Localiza Fast, serviço de aluguel de carros 100% digital — da reserva à retirada — que hoje está disponível para apenas 40 mil veículos. Hoje, 1 em cada 9 aluguéis de carros feitos por pessoa física já usa a modalidade, o que encoraja a companhia a desenvolvê-la cada vez mais. 

Na divisão de empresas, a novidade é o foco no aluguel de veículos pesados. A companhia tem observado bons resultados com a vertical, a partir do momento que decidiu acelerá-la, ainda em 2020, e vê um mercado enorme para avançar: dos 2 milhões de caminhões de frotas corporativas, apenas 2,7% é alugada. Uma pesquisa realizada pela Localiza apontou que 33% do público-alvo gostaria de alocar dinheiro no core business, em vez de compra de caminhões, o que, mais uma vez, abre espaço para a empresa avançar. 

Pensando nos veículos leves, também estão previstas melhorias na gestão de frotas, com produtos mais digitais e que ajudem na gestão dos carros por parte dos clientes — uma estratégia que já trouxe resultados como redução de mais de 50% em sinistralidade. Por fim, em Seminovos, a companhia segue consolidando a presença no país, aumentando a produtividade e o investimento em tecnologia.

Por fim, em relação aos motoristas de aplicativo, a companhia vai fortalecer a divisão Zarp, de olho no potencial de mercado a ser conquistado. Hoje, apenas 100 mil veículos (dos 600 mil dedicados a motoristas de aplicativo) são alugados. A Localiza já é lider nesse ‘pequeno’ grupo, mas quer avançar cada vez mais. 

E, em relação às oficinas mecânicas, a empresa lançou o produto Localiza Equipe, que funciona como uma marca para o dono da oficina, com produtos como antecipação de recebíveis para eles de forma digital, além de treinamento e capacitação, bem como melhores condições de compra de peças. 

O efeito das mudanças

Com todas essas novidades na rua e operando, além, é claro, do tradicional que a empresa já faz em Rent a Car, gestão de frotas e Seminovos, as estimativas são de que a alavancagem, hoje em 2,8 vezes dívida líquida/Ebitda, chegue ao pico de 3 vezes no início do próximo ano, com a redução do indicador a partir do segundo semestre, em razão do crescimento de lucro operacional em ritmo mais acelerado. “Uma das nossas forças é ter balanço equilibrado, que vai nos permitir crescer e gerar valor, sem imprimir o risco que a gente quer evitar”, afirmou Rodrigo Tavares, CFO da Localiza, no evento.

Nesse processo, o executivo ressaltou, posteriormente, que a empresa deve continuar preferindo a trajetória de crescimento alto em vez de mais estabilidade, uma vez que vê um tamanho enorme de mercado a ser conquistado. Em resposta ao questionamento de analistas, Tavares disse que, na dinâmica histórica da companhia, é possível crescer entre 10% a 15% sem endividar e que, no passado, a Localiza estava crescendo 30% a 40% ao ano em volume, com um endividamento saudável. “O fato de ser negativo em fluxo de caixa livre, apresentando retorno até 13% acima do custo de dívida, gera valor para o acionista ao longo do tempo”, afirmou.

Com a pandemia, houve uma mudança nesse cenário. Hoje, não há mais como crescer de 10% a 15% com a receita gerada no aluguel de carros, ao menos em curto prazo, na visão do executivo. Por isso, para suportar o crescimento daqui para frente, ao menos nos próximos dois a três anos, a companhia deve ainda ser negativa em FCL. Mas, nesse período, deve continuar com a disciplina de apresentar retornos acima do custo da dívida, de olho em manter a própria atratividade.

Em um cenário macroeconômico de juros ainda altos e maior depreciação de frota, que fez o banco Citi reduzir as projeções para o setor de aluguel de carros em 2023, analistas também questionaram, no evento, a capacidade real de a companhia conseguir manter o dígito duplo de crescimento em 2023. 

Lasansky, em resposta aos questionamentos, afirmou que a companhia conta com um mix “muito mais completo do que qualquer outro player no mercado”. “A gente não precisa usar apenas preço para crescer, mas pode usar receitas adicionais. Essa gama é o que vai fazer a companhia chegar ao ROIC e melhorar a eficiência operacional”, afirmou.

É o que o mercado espera — e, ao mesmo tempo, paga para ver. A Localiza&Co terá de provar que consegue entregar os resultados que pretende e que o mercado é, de fato, tão grande quanto ela projeta. O ecossistema, no fim das contas, tem de se pagar. Deu certo no Grupo SBF. Agora, tem de funcionar por aqui também.