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Apenas 20% das empresas conseguem traduzir investimento digital em melhora de margem

Estudo do Boston Consulting Group com 2,1 mil profissionais em 14 países mostra que companhias têm disposição para investir em tecnologia, mas enfrentam cinco desafios principais para transformar aportes em ganhos reais

Sylvain Duranton: ajudar empresas a terem foco é etapa fundamental da construção de nova área na Boston Consulting Group (BCG/Divulgação)

Sylvain Duranton: ajudar empresas a terem foco é etapa fundamental da construção de nova área na Boston Consulting Group (BCG/Divulgação)

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Karina Souza

Publicado em 1 de dezembro de 2022, 10h00.

Última atualização em 2 de dezembro de 2022, 11h01.

Apenas 20% das empresas conseguem atingir um impacto de pelo menos 1,5 ponto em margem Ebitda ao investir em tecnologia. Essa é a principal (e dura) conclusão de um estudo realizado pelo Boston Consulting Group, intitulado “Mind the Tech Gap”, enviado ao EXAME IN. Para chegar a essa conclusão, a consultoria entrevistou 2,1 mil profissionais, de 11 setores, em 14 países diferentes, que trabalham em empresas cujos tamanhos vão desde 1.000 colaboradores até mais de 10 mil. A falta de ganhos não significa, entretanto, ausência de apetite para investir no mundo digital. A mesma pesquisa mostra que 60% das empresas entrevistadas vão aumentar o investimento anual nessa frente e outros 36% vão manter o investimento nos mesmos patamares deste ano. E que o investimento em tecnologia vem com o objetivo de construir novos modelos de negócios e de aprimorar a sustentabilidade na empresa. Dito tudo isso, afinal, por que essa distância entre ambos os universos, o dos aportes e dos retornos, é tão grande? 

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A principal razão, escrita nesses termos no estudo, está relacionada ao fato de que as companhias têm “metas muito modestas”. Segundo a BCG, elas estão olhando para a tecnologia principalmente como uma forma de melhorar processos internos e a operação do dia a dia, um estágio inicial para a transformação digital como um todo. Ampliando o foco para entender por que empresas têm dificuldade de ir além dessa etapa inicial, a consultoria encontrou cinco tópicos gerais, que se aplicam aos 14 países analisados, e, depois, elencou os quatro principais em uma visão regional.

Mas, uma coisa de cada vez. Os pontos gerais são:

  1. Dificuldade em tomar decisões em meio ao mar de novas tecnologias surgindo (Blockchain, Inteligência Artificial, Web3 e por aí vai); 
  2. Escalar soluções de forma rápida com soluções digitais
  3. Priorizar o investimento e desenvolvimento de tecnologias
  4. Recrutamento e seleção de talentos
  5. Custo e incerteza do retorno do investimento no ambiente digital

Agora, sim, partindo para uma visão local, da maior dificuldade para a menor é possível ver que empresas brasileiras têm seu principal gargalo no primeiro ponto da lista — um comportamento similar ao das norte-americanas, italianas e espanholas. O segundo tópico representa, em um viés local, a segunda maior dificuldade para o país, um ponto que compartilha em comum com Austrália, França e Alemanha. Olhando para os dois desafios menores, estão, nessa ordem, a substituição de sistemas legados e, por fim, recrutamento e seleção de profissionais. 

São pontos que se somam e, ao mesmo tempo, são complementares, aos desafios identificados pela Bain&Company — em um estudo também divulgado nesta semana, coincidentemente — para que empresas possam se tornar trendsetters no que diz respeito ao uso de novas tecnologias. Tudo começa com a cultura, é verdade, mas a consultoria rival também ressalta o papel de talentos e da reformulação da arquitetura de tecnologia entre os desafios mencionados.

Nada disso esmorece os executivos brasileiros, como mostra o estudo da Bain&Co: 68% dizem estar passando por uma disrupção digital significativa, todos admitem que o digital é uma prioridade e 99% acreditam que a inovação deve manter seu ritmo ao longo dos próximos cinco anos. 

Como tirar tudo isso do papel?

No caminho para solucionar essas questões, as empresas — brasileiras e as dos demais países na lista analisada — encontram percalços com fornecedores. Voltando ao estudo do BCG, a principal queixa é a de um atendimento lento por parte desses parceiros, com a sensação de que não há atenção suficiente aos problemas enfrentados (um ponto com o qual 84% das empresas pesquisadas concordam). É seguido por falta de treinamento (69%) e tentativa de empurrar soluções de prateleira, que não trazem nada de original (67%).

A demanda por ajuda de fornecedores é tanta que, hoje, metade dos novos negócios do BCG estão ligados ao trabalho digital com clientes. Para atendê-la, a consultoria lançou em julho de 2022 a BCG X, uma nova unidade que agrega todas as áreas de tecnologia da empresa — que tiveram um crescimento de três dígitos anualmente nos últimos sete anos, num único local. O nome vem da ideia de, literalmente, multiplicar esforços e mão de obra para fazer com que empresas consigam obter ganhos a partir do investimento em tecnologia. 

A ideia, no fim das contas, é replicar o formato de sucesso que a companhia conseguiu construir em consultoria dentro das novas capacidades digitais que o mundo exige. Sylvain Duranton, diretor global da BCG X, afirma, em entrevista ao EXAME IN, que a nova área identifica oportunidades em todos os países em que a consultoria está presente, bem como nos diferentes setores em que atua. Questionado a respeito de particularidades para o mercado brasileiro, o executivo se limita a dizer que a aplicação de metodologias ágeis é um ponto no qual empresas locais podem melhorar para colherem resultados significativos ao longo do tempo.

“Mas um desafio geral, aplicado a todas as regiões, é o de fazer empresas entenderem que foco é essencial para prosperar. É melhor investir em duas soluções que podem entregar um valor de US$ 50 milhões do que em 50 soluções que entregam US$ 1 milhão cada. No fim, se forem por esse segundo caminho, empresas não vão conseguir capturar valor”, diz o executivo. 

No caminho para tornar essa nova área uma realidade, o BCG já reuniu dentro desse novo ‘guarda-chuva’ de soluções a mão de obra da própria consultoria dedicada à tecnologia e segue com a missão de atrair os melhores profissionais de cada área — análise de dados, engenharia, experts em tecnologias avançadas, etc — para dentro da empresa. Para se diferenciar em um ambiente de profissionais tão disputados, o executivo afirma que a forma como se trabalha pode ser um chamariz, “uma vez que profissionais conseguem ver o impacto de soluções customizadas para os clientes”, afirma.

Sustentabilidade tech

Oferecer soluções customizadas para os clientes passa, é claro, por entender quais são as necessidades deles e em quais áreas estão de olho. O impacto para os modelos de negócio é fundamental, claro, mas não dá para esquecer da segunda área que empresas querem sentir algum impacto usando ferramentas digitais: sustentabilidade. A BCG X pode endereçar algumas dessas preocupações de companhias, mas não está sozinha ao fazê-lo. 

A McKinsey lançou, em maio deste ano, uma plataforma de “climate change tech”, que se dedica, como o próprio nome diz, a ajudar clientes a desenvolverem tecnologia para reduzir emissões de carbono. É uma oferta que vem quase um ano depois de ter adquirido a consultoria Vivid Economics – e incorporar a companhia Planetrics, dedicada a construir esse tipo de solução.

Para não perder o hábito de analisar as três maiores, a Bain&Co também divulgou, em março deste ano, um estudo com o objetivo de identificar quais são as principais tecnologias que mais agregam para a sustentabilidade de empresas, de acordo com o setor em que estão inseridas. Foram analisados nove segmentos para a pesquisa, com dicas específicas para cada um deles.

São pontos que visam atender a uma demanda cada vez maior — de investidores e de consumidores — por empresas que estejam atentas a cumprir critérios ESG. Iniciativas como a da CVM, que obrigará empresas a partir do ano que vem a trazerem detalhes sobre o que estão fazendo nessa frente, colaboram para que companhias busquem cada vez mais formas de medirem e rastrearem o que estão fazendo, de olho em apresentar qual impacto, de fato, conseguem exercer. 

Nesse caminho, empresas têm, é claro, dificuldades. De acordo com o portal Statista, aproximadamente 30% dos executivos C-Level apontam a dificuldade em medir o impacto do que estão fazendo. Um ponto no qual a tecnologia pode ajudar, com blockchain, por exemplo. Mas, novamente, é necessário conhecer sobre o que se está fazendo antes de investir.

“Há muito burburinho, em que todas as empresas querem ser digitais e dizem estar investindo nisso, mas ainda existe muito digital-washing. O que vemos é um cenário no qual mais de 70% das empresas pesquisadas ainda falham em construir capacidades digitais e apenas 18% têm uma clara estratégia digital. Queremos ajudar a mudar isso”, afirma Duranton.