Covid: o fantasma da tragédia inglesa e a esperança por um surto só de Carnaval

Se Brasil repetir curvas da Europa e dos Estados Unidos, mortalidade pode dobrar ou até triplicar

Os tristes números de mortos pelo novo coronavírus se tornaram um paradoxo no Brasil. Quase 263 mil pessoas já faleceram e o recorde diário tem se renovado. Mas mesmo com os números assustando tanto, boa parte da população tem vivido como se nada existisse. Por que?

Para Pércio de Souza, do Instituto Estáter, estudos mostram que a fadiga pelo isolamento e restrições prolongadas impactaram a percepção de risco da população que resiste a continuar seguindo práticas que alterem seu comportamento natural. “Este tem sido um desafio em todo o mundo. A redução de mobilidade tanto na Europa como nos Estados Unidos apresenta uma queda de 30% a 40% em relação ao primeiro semestre, independentemente das políticas de lockdown.”

Sem a clareza das pessoas sobre o risco, não há como mudar comportamento. A falta de organização do poder público — incluindo a coordenação entre os poderes federais e estaduais — para lidar com a covid-19 colocou o Brasil como um pária internacional. Os exemplos ruins das lideranças políticas contribuem para piorar a percepção.

E, para complicar ainda mais, a politização do tema não permite que o país avance muito além do debate “com lockdown” ou “sem lockdown”. Por isso, se o assunto é política, Souza se fecha. Não dá um pio. Acredita que a politização é uma das causas do problema. Quer evitar e não, aumentar.

Mas está duplamente incomodado: com o risco de que o Brasil esteja às portas de uma tragédia sem precedentes, se seguir o padrão europeu ou americano, e com a péssima imagem do país. Nesta semana, matéria do New York Times mostrava como a situação no Brasil alarmava o mundo.

“Se repetirmos o descontrole do Reino Unido, teríamos assombrosos 26.000 óbitos numa única semana”, comenta. Na última semana foram 8.500 mortos.

Famoso por fazer operações de fusões e aquisições e por seu jeito durão, embora hoje em dia mais dedicado à gestão de negócios, o empresário tem enfrentando o desafio de conscientizar sobre o assunto desde logo que a doença chegou ao país.

Pouco tempo após as primeiras confirmações de covid-19 no Brasil, Souza, engenheiro de formação, colocou o Instituto Estáter para se debruçar sobre as estatísticas em busca de caminhos. Foi um dos primeiros a falar da hipóxia silenciosa, o que o levou a promover a campanha Alert(ar) junto com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) para levar a oximetria proativa para as comunidades vulneráveis.

Tem, incansavelmente, trabalhado no assunto, incluindo no desenvolvimento de políticas para regiões e prefeituras, como em Campinas, e está despertando curiosidade entre aqueles que conhecem apenas sua versão como negociador sobre o porquê desse engajamento.

Poucos sabem, mas o trabalho social e humanitário está no berço de Souza. Filho de pai juiz e mãe sanitarista, ainda criança ajudava a família em mutirões no interior do Paraná. “Tenho lembranças de ajudar nas casas populares de populações ribeirinhas assentadas ou fazendo entrevistas nas regiões rurais para o cadastramento de adultos para o programa de alfabetização do Mobral”, lembra.

Além de crítico da polarização, aponta falta de objetividade e coordenação no combate à doença. Na área da educação, então, a decepção é ainda maior.

“Neste tema, me sinto quixotesco. Fomos derrotados em convencer as pessoas quanto ao mal que fazíamos às nossas crianças deixadas tanto tempo fora das escolas.  Feridas foram abertas e somente com o tempo conseguiremos avaliar as consequências. Principalmente para as vulneráveis, onde muitas acabaram por se perder na vida vítimas de violência, gravidez infantil e marginalização.”

A seguir, uma breve conversa do EXAME IN sobre números e políticas:

O Brasil virou um pária internacional na questão da covid-19. Nós estamos, de fato, piores do que os demais países?

Hoje a intensidade incomoda, com tantas mortes. Mas o Brasil ainda está ainda muito abaixo do ocorrido no Hemisfério Norte.  Se chegarmos na mesma mortalidade per capita do pico da curva nos Estados Unidos, teríamos 14.000 óbitos numa semana.  Se seguirmos padrão médio dos principais países da Europa, teríamos mais do que o dobro: 18.000. E o fantasma é se repetirmos o descontrole do Reino Unido: teríamos assombrosos 26.000 óbitos numa única semana. As curvas do Brasil são tardias em relação à Europa e aos Estados Unidos, regiões que usamos como comparação no Instituto Estáter. Ficaram estáveis enquanto as demais subiam e agora sobem enquanto as outros caem.  Portanto ainda é cedo para termos um parâmetro definitivo.  Por enquanto o Brasil não está entre os primeiros na mortalidade per capita. E quem acompanha os dados já esperava este salto.  Com a testagem no Brasil mais regular, embora ainda deficiente, conseguimos prever a tendência, uma vez que os óbitos de hoje são reflexo dos positivos das últimas duas a três semanas, no pós-carnaval.

Ou seja, o espaço para piorarmos é grande?

Sim. Precisamos nos preparar para enfrentar um acirramento porque a dinâmica da curva pandêmica ainda é desconhecida e não sabemos o que está por vir.  É só um novo surto pós-carnaval ou uma tendência seguindo o que aconteceu no Hemisfério Norte?  Os dados que temos acompanhado e o comportamento das curvas até agora do Brasil nos indicam que a maior probabilidade é de um surto que deve estabilizar entre a próxima semana ou a seguinte.  Mas, se for a segunda hipótese, teremos uma tragédia sem precedentes no Brasil.

A sensação, porém, é que as coisas por aqui estão piores do que em outros países. Por que sentimos isso?

Há um conjunto de razões. Primeiro porque tem morrido muita gente e é natural que haja uma preocupação com o aumento. Segundo porque diferentemente do primeiro semestre quando existia uma desigualdade pandêmica relevante — algumas regiões eram muito atingidas e outras poupadas (como Sul, Centro-Oeste, Minas Gerais e Bahia) — desde dezembro há uma homogeneidade, a infecção tem assolado de forma mais regular os estados brasileiros.

E há o colapso no sistema de saúde, não?

Este é o terceiro fator, que pouco se fala:  a disponibilidade de leitos de UTIs.  A divulgação atualmente tem sido feita em percentual da ocupação, o que esconde uma redução da disponibilidade de leitos dedicados à covid-19 na maioria dos estados brasileiros. Estimamos esta redução entre 20 e 30% quando comparamos ao primeiro semestre de 2020. As desigualdades do Brasil também são impactantes. Enquanto o Amazonas tem cerca de 4 leitos de UTI dedicados à covid-19 para cada 100 mil habitantes, o Estado de São Paulo tem 21. E a capital paulista possui atualmente por volta de 26.  O que aconteceu no Amazonas foi uma crônica de desastre anunciado.

O que explica estarmos, ao menos por enquanto, não tão mal quanto a outros países mesmo sendo menos desenvolvidos?

Difícil falar em menos mal enquanto vivemos um cotidiano com o drama crescente das famílias que perdem entes queridos para o Sars-Cov-2.  Mas pela análise dos dados, uma das hipóteses é a faixa etária, embora ainda não seja conclusiva. No Reino Unido, por exemplo, 24% da população está acima de 60 anos que concentra por volta de 90% dos óbitos. Enquanto no Brasil esta faixa representa 13% da população e 70% da mortalidade.  A defasagem da curva pandêmica também pode explicar parte da diferença da mortalidade por milhão de habitantes entre Reino Unido (1,5 mil) para o Brasil (1,0 mil) até último dia 1º.  Esta diferença pode mudar, dependendo do comportamento do Brasil daqui para a frente.  Por outro lado, nossa experiência tem mostrado que a estrutura de Atenção Básica no Brasil tem desempenhado um papel fundamental no controle pandêmico.  Ali estão os heróis ocultos que, mesmo sem uma coordenação centralizada e com recursos escassos, estão sustentando uma mortalidade nas regiões vulneráveis não muito longe das regiões com melhor infraestrutura e condição econômica.

Há outras formas de lidar com a doença além do lockdown? Por que não conseguimos novas e adicionar formas de agir e reagir?

A politização e ideologização contaminaram as discussões e atrapalharam o debate imparcial de alternativas de intervenções não farmacêuticas (NPI).  As certezas precisam ser tratadas como transitórias para que se aprenda com a evolução pandêmica e passemos a lidar de forma mais eficaz na prevenção.  O acompanhamento dos dados nos indica que há pelo menos dois fatores que merecem mais atenção e que impactam o efeito das restrições: a percepção de risco da população e a dinâmica do contágio.

Mas vivemos um cenário antagônico: muito medo e, ao mesmo tempo, ainda muitas aglomerações de pessoas. Como lidar com isso?

Estudos mostram que a percepção de risco é preponderante sobre restrições impostas, principalmente numa democracia.  Esta variável impacta no resultado da política de lockdown e precisa entrar na equação. Com a fadiga pelo isolamento, tem sido ineficaz chamarmos jovens de irresponsáveis — até porque é uma das definições de jovem, ainda bem — e criticar as aglomerações.  Parece uma irresponsabilidade, mas é a natureza humana. A antropologia e combates a outras epidemias (AIDS, por exemplo) já mostraram a pouca eficácia de sustentar por muito tempo uma mudança radical do comportamento instintivo humano. Precisamos ajustar o foco e a abordagem, considerando esta limitação.  Quanto ao contágio, já há consenso que não é homogêneo.  Algumas situações trazem 20 a 30 vezes mais risco que outras. Lugares fechados sem controle, encontros informais e esses contaminados transmitido para a família em casa, têm se mostrado os grandes responsáveis pela curva.

Mas como mais liberdade na mobilidade pode ajudar?

Exemplifico uma hipótese:  sem percepção de risco pela fadiga, com restrição de lazer nos lugares públicos controlados onde o contágio é baixo, a população se aglomera em casas, as crianças em playgrounds e os jovens em festas clandestinas não controladas onde o contágio é muito maior.  Isto pode gerar um efeito contrário ao pretendido na curva. As consequências das festas de final de ano reforçam esta hipótese. Precisamos aprender com os erros e aproveitar aquilo que já conhecemos para não teimarmos com a natureza humana, mas sabermos nos adaptar às circunstâncias, usar tecnologia e conhecimento modernos e atuar de forma diferente para ver se o resultado muda.  Este é o nosso grande desafio enquanto a vacina não chega em escala.

O que fazer, então, enquanto esperamos a vacina?

Esta espera, no ritmo atual, pode ser longa. Portanto não podemos relaxar e precisamos atuar na minimização da mortalidade.  Tenho a impressão de que a única chance de estabelecer um combate eficaz para a redução do ritmo de contágio para os próximos meses é inovar nas iniciativas porque as adotadas até agora não demonstram estar fazendo efeito.  Trabalhar na priorização do combate com base na dinâmica de contágio identificada pelos inquéritos epidemiológicos, desenvolver campanhas mais instrutivas à população de como pequenos ajustes comportamentais podem reduzir risco, usar a tecnologia para identificar contaminados e trabalhar na contenção dos vetores de transmissão estão entre elas. Naturalmente é mais fácil falar do que fazer.  Para desenvolver algo mais palpável, estamos debatendo a ideia desta abordagem com alguns epidemiologistas e trabalhando para colocar em prática um plano piloto. A ideia é implementá-lo em Campinas, que tem um corpo técnico fora de série, e onde estamos trabalhando em parceria com a Vigilância Sanitária e apoio das secretarias de saúde e comunicação.  A partir desta experiência, o plano poderia ser escalado para outros municípios que quiserem.

 

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