Com guerra na Ucrânia e investimentos em tecnologia, Vittia reverte prejuízo e lucra R$ 5,3 mi

Aumento de demanda com temores de falta de fertilizantes, somado ao aumento de preços e ao investimento da companhia em biotecnologia colaboraram para ganhos
Alexandre Frizzo: expectativa é de bons resultados ao longo de todo o ano (Vittia/Divulgação)
Alexandre Frizzo: expectativa é de bons resultados ao longo de todo o ano (Vittia/Divulgação)
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Karina Souza

Publicado em 10/08/2022 às 18:41.

Última atualização em 10/08/2022 às 18:46.

A Vittia, empresa brasileira de biotecnologia e nutrição especial para o agronegócio, divulga nesta quarta-feira, pela primeira vez, os resultados para um segundo trimestre desde que se tornou pública – o IPO na B3 foi realizado em setembro do ano passado. A empresa estreou na bolsa em setembro do ano passado, avaliada em R$ 1,22 bilhão. A ação estreou a R$ 8,30, no piso da faixa indicativa e atualmente, está cotada a R$ 10,30 – ainda longe do pico, de R$ 15,62, mas com uma valorização em relação à estreia. Dá para dizer que é um início de vida pública ‘em grande estilo’: em um trimestre sazonalmente fraco graças ao período de entressafra, a empresa conseguiu sair do vermelho para o azul, na comparação anual. A última linha do balanço fechou os últimos três meses em R$ 5,3 milhões, ante prejuízo de R$ 3,8 milhões no segundo trimestre de 2021. 

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A principal razão para o sucesso, neste ano, está no aumento de receita no período, impulsionado de forma direta e indireta pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Para entender esses efeitos a fundo, cabe explicar como a empresa está estruturada. A Vittia tem duas verticais: a de produtos biológicos, baseada no trabalho de biotecnologia com fungos e microorganismos que podem ser usados tanto como fertilizantes como defensivos; e a de nutrição especial, que usa o produto mais básico do setor, o NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio) para desenvolver outros produtos mais completos para o agronegócio.

Ambas cresceram na comparação anual. A de produtos biológicos, de forma atípica, por conseguir entrar de forma mais contundente em culturas de entressafra – e por ter um preço mais barato do que os fertilizantes químicos tradicionais – já que depende principalmente de tecnologia, uma vez que a matéria-prima não precisa ser importada. Com perfil de alto crescimento, teve receita de R$ 13,6 milhões, aumento de 141,6% em relação ao segundo trimestre de 2021. Hoje, a penetração de defensivos biológicos no total do mercado é de cerca de 2%, o que favorece os ganhos ao longo do tempo.

“Nos últimos três a quatro anos, é uma linha que cresceu 50% ao ano, dada a adoção da biotecnologia, que desenvolve tanto produtos com função de defesa quanto a nutricional. Tem se mostrado muito eficiente em meio ao aumento da procura por uma agricultura mais sustentável e de baixo carbono. Hoje somos o expoente disso na bolsa, a única empresa listada com esse portfólio de biotecnologia. Estamos aproveitando essa mudança estrutural no consumo dos insumos”, diz Alexandre Frizzo, diretor financeiro da Vittia, ao EXAME IN.

Ao mesmo tempo, a vertical de nutrição especial cresceu, influenciada por dois fatores: a inflação de commodities minerais – impulsionada pela guerra entre Rússia e Ucrânia – e o  aumento de demanda no período, com os temores de desabastecimento por parte dos produtores.  Olhando para cada um dos negócios dentro desse 'guarda-chuva', o de organominerais foi o que teve o maior impacto da inflação gerada pela guerra, mas representa uma parte pequena da receita, com uma contribuição de aproximadamente 15% no trimestre.

As linhas de produtos de nutrição foliar (um 'Centrum' para plantas) e os produtos para o solo foram os destaques no período. O carro-chefe para os ganhos foi justamente a de fertilizantes foliares, que faturou R$ 70 milhões no período, aumento de 55% na comparação anual. A última, com um produto chamado 'micros de solo', que cresceu 62,9% na comparação anual, faturando sozinha R$ 51,6 milhões no trimestre. 

Como resultado desse efeito combinado nas verticais de produtos biológicos com as de nutrição especial, a receita foi de R$ 156,8 milhões, aumento de 50,2% na comparação anual. As despesas operacionais cresceram, trimestre ante trimestre, mas não na mesma proporção da receita. Houve aumento de 2,1% na comparação anual, para R$ 34,1 milhões.

Esse efeito combinado trouxe impactos positivos para as demais linhas do balanço. O lucro bruto foi de R$ 40,4 milhões, crescimento de 57,8%, e a margem bruta foi de 25,8%, incremento de 1,3 ponto percentual na comparação com o segundo trimestre do ano passado. As linhas de produtos para o solo e biológicos, com o aumento de receita e vendas maiores, mantendo a mesma capacidade produtiva, foram as principais responsáveis pelos ganhos. No trimestre, o Ebitda foi de R$ 15,7 milhões, aumento de 439% na comparação anual – principalmente porque houve prejuízo no segundo trimestre de 2021. 

Importante notar que o crescimento aconteceu em um ambiente de aumento de juros e de consequente dívida para a companhia. O resultado financeiro líquido passou de um saldo positivo de R$ 117 mil para uma dívida de R$ 4,5 milhões. A dívida bruta cresceu 16,5%, para R$ 181 milhões. A alavancagem no trimestre ficou em 1,06 vez.

Olhando para o futuro, o que a Vittia projeta é um crescimento conjunto de ambas as verticais (biológicos e nutrição especial), sendo a primeira a principal em termos de ritmo para chegar lá e em ganho de margem. Não à toa, a empresa investiu R$ 100 milhões no último ano em uma nova fábrica, capaz de fazer sequenciamento genético e trabalhar todas as etapas de biotecnologia lá dentro, de uma única vez, em uma área de 1.500 metros quadrados. A maior parte do financiamento veio do BNDES, por meio de uma linha de crédito a ser paga em 20 anos.

A companhia também tem, em paralelo, uma diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento, que conta com 42 profissionais. A vertical recebeu mais investimentos neste trimestre, como consequência dos bons resultados. Foram R$ 5,6 milhões aplicados em P&D, aumento de 37,2% na comparação anual.

O total dos investimentos em bens de capital, no período, foi de R$ 20,2 milhões, divido, além de P&D, em alocações no novo centro de armazenagem, na nova planta de produção e na ampliação da capacidade de produção de inoculantes. A companhia não divulga quanto investiu em cada uma delas nos últimos três meses, mas apenas no semestre. 

“Esperamos seguir neste cenário favorável e com perspectiva de boa rentabilidade ao produtor rural, mesmo que não no mesmo nível da safra anterior em função da preocupação com o aumento dos custos . A receita consolidada mostra crescimento, neste ano, da ordem de 40%, demonstrando um bem aquecido com demanda interessante para os produtos Vittia”, diz o executivo.

 

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