Biossimilares: O que são e por que a Blau Farmacêutica está investindo cada vez mais neles?

Medicamentos são versões desenvolvidas a partir da quebra de patente de biológicos de referência e devem representar a maior parte da receita do setor em breve, estima a empresa
Marcelo Hahn: Foco em medicamentos 'do futuro' vai ajudar empresa a se posicionar cada vez melhor no mercado (Leandro Fonseca/Exame)
Marcelo Hahn: Foco em medicamentos 'do futuro' vai ajudar empresa a se posicionar cada vez melhor no mercado (Leandro Fonseca/Exame)
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Karina Souza

Publicado em 25/10/2022 às 08:55.

Última atualização em 25/10/2022 às 08:56.

Falar em medicamentos biossimilares está longe de ser um assunto comum, um conceito usualmente conhecido. Mas ganha certa curiosidade para além do nicho em que está inserido quando uma farmacêutica brasileira anuncia um contrato com uma empresa gringa, cujo valor pode chegar a US$ 100 milhões em dez anos. As empresas em questão são a Blau Farmacêutica e a Similis Bio, divisão da JSR Life Sciences — que vem do grupo japonês JSR —  especialista em grandes moléculas e em fornecer soluções de fabricação de medicamentos para a indústria biofarmacêutica. Para desmistificar esse mar de conceitos complexos e entender por que a parceria fez sentido para a Blau, para além do comunicado ao mercado desta terça-feira (25), Marcelo Hahn, CEO da farmacêutica brasileira, conversou com o EXAME IN

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Antes de entender mais sobre a transação em si, é necessário fazer uma tradução “do ciencês” para o português a respeito do que são, afinal os tais biossimilares. Eles são, grosso modo, remédios produzidos depois que a patente de um produto biológico expira, sendo, portanto, uma versão parecida com a original. Ouvir esse conceito à primeira vista pode trazer à mente uma falsa semelhança com os medicamentos genéricos, frequentemente encontrados nas farmácias por todo o Brasil. Mas, como a frase anterior mostra, não é possível definir os biossimilares como uma espécie de genérico. Há um porquê claro para isso.

Os genéricos como vemos frequentemente na farmácia são versões de medicamentos sintéticos. Ou seja, com eles, a partir de reações de química orgânica de cada elemento, tornando mais rápido criar “cópias” (os genéricos) em comparação com o processo seguido pelos medicamentos biológicos. Isso porque este último grupo envolve a manipulação de organismos vivos, como células de bactérias, usando biotecnologia. Nesse processo, é feita uma engenharia genética para conseguir fazer com que estes organismos vivos consigam, depois de passarem por um longo processo, atacar alvos específicos dentro do corpo — como um câncer, por exemplo. Os biossimilares replicam esse efeito dos medicamentos de referência, mas o trabalho com organismos vivos impede que réplicas exatas sejam feitas. No fim das contas, apesar de não ser idêntico ao medicamento original, o biossimilar tem de passar por estudos que comprovem que, no fim das contas, ele consegue cumprir o mesmo propósito do medicamento original. 

Alguns exemplos são as insulinas, utilizadas no tratamento do diabetes, a alfaepoetina, para controle de anemia decorrente de insuficiência renal crônica, e anticorpos monoclonais, utilizados no tratamento de câncer e de sintomas pós-covid, por exemplo. Focando principalmente neste último grupo, dá para entender por que o mercado de biossimilares ainda pode crescer bastante. O Tocilizumabe, medicamento de referência usado para tratar artrite reumatóide e recentemente aprovado para tratamento da doença causada pelo coronavírus, pode ser encontrado a cerca de R$ 5 mil. 

“Os medicamentos biológicos são o que há de mais moderno na indústria, hoje. Por meio deles, é possível curar hemofilia ou até mesmo câncer de pulmão, mesmo nos estágios mais avançados da doença. Com base nisso, o mercado de biossimilares deve crescer muito ao longo dos próximos anos. Hoje, esses medicamentos já representam metade de toda a receita financeira do mercado, um percentual que deve chegar a 80%. Não por quantidade, mas por valor, já que ainda são medicamentos muito mais caros”, diz Hahn.

O negócio

Mais do que a eficácia dos produtos em si, há um outro ponto que torna esses remédios atrativos daqui para frente: a frequência de queda de patentes de moléculas utilizadas em medicamentos biológicos. Juntando os dois fatores, a Blau foi atrás de uma parceria para conseguir aproveitar o melhor que esse momento pode oferecer.

Chegando finalmente na história do comunicado ao mercado desta manhã, a empresa brasileira procurou uma fornecedora no mercado internacional que fosse capaz de auxiliá-la no desenvolvimento das células de organismos vivos, no processo de produção em si — o que pode ser traduzido como o processo de produção do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), sigla muito falada durante a pandemia para a produção de vacinas contra a covid-19. O leitor pode se lembrar de todas as discussões sobre o Brasil importar o tal IFA de laboratórios de fora, por meio de parcerias, para a produção das vacinas nos laboratórios de Bio-Manguinhos, por exemplo. 

No caso da Blau, a situação é bem diferente dessa primeira referência que a memória pode trazer. Em vez de firmar uma parceria para apenas trazer ao Brasil uma tecnologia 100% feita fora do país, o contrato entre as empresas é de coprodução do IFA para produzir os medicamentos, ou seja, de construção da célula, de ‘cópia’ do medicamento de referência, em conjunto. 

Um dos fatores críticos levados em consideração para escolher a Similis Bio foi, primeiro, o fato de ser uma unidade da JSR Life Sciences — referência em produção de biomedicamentos – criada exclusivamente para o desenvolvimento de biossimilares. Tendo isso em mente, a velocidade de produção e de testes conduzida por essa empresa pode auxiliar e muito a companhia brasileira. “O que nós levaríamos dois anos para testar, eles fazem em dois meses”, diz Hahn. Depois dessa etapa de produção do IFA, toda a responsabilidade para efetivamente produzir o medicamento passa a ser da Blau. 

A parceria entre as empresas visa a produção de medicamentos (anticorpos monoclonais, especificamente) em três indicações: oncologia, inflamações em geral e hematologia. A empresa brasileira não vai divulgar mais especificações sobre os medicamentos de referência, ao menos por enquanto. A partir do momento em que os estudos clínicos forem iniciados, a empresa deve abrir mais informações sobre eles. Bom lembrar que a parceria não está limitada a esses medicamentos, mas pode ser estendida da forma que as companhias julgarem mais interessante. Além disso, a Blau tem o direito de preferência de desenvolvimento de novos produtos da unidade da empresa norte-americana. 

Os quatro anticorpos foram escolhidos por estarem, também, entre as moléculas com o maior mercado endereçável do mundo, que, ao todo, é de US$ 42 bilhões, sendo R$ 4 bilhões no Brasil. Questionado a respeito do mercado que a Blau pode capturar no país, Hahn responde que, hoje, a Blau tem aproximadamente 27% do mercado endereçável em que atua. “A nossa participação tem caído porque o ramp-up de chegar com um produto maduro demora, e estamos produzindo novos produtos em uma velocidade maior. Em média, a gente tinha 30%”, diz o executivo. 

Lei de patentes e dificuldades no Brasil

Crescer com biossimilares no Brasil guarda outro desafio, dessa vez regulatório. Que, é claro, também carece de explicação. Hoje, as patentes de medicamentos no país não são ‘estacionárias’. O que quer dizer que, quando um laboratório ou grupo de cientistas desenvolve uma droga e faz a patente daquela molécula, dificilmente para de trabalhar nela. Pode deixá-la mais límpida, mais pura, incluir um processo a mais, ter menos impurezas, etc. A cada sequência de modificações, o grupo pode registrar uma nova patente sobre aquela mesma molécula, se enquadrando dentro do que as normas definem como “Patente de Segundo Uso”. No frigir dos ovos: com esse recurso, uma patente que duraria 20 anos passa a ter seu tempo estendido consideravelmente a partir das novas patentes de segundo uso que lhe são agregadas. Num exemplo: se um medicamento é patenteado para câncer de pulmão e, algum tempo depois, novos testes com uma versão dele para câncer de pele mostram que é eficaz, uma nova patente é feita para este tipo de câncer. E assim por diante.

Esse é um ponto de discussão. Em 2009, o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) e a Anvisa divergiram a respeito do assunto. Na época, o coordenador de Propriedade Intelectual da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Luis Carlos Wanderley Lima, afirmou que patente de segundo uso era como patentear duas vezes o mesmo medicamento. Na visão do presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), Jorge de Paula Costa Ávila, na época, afirmou que a decisão caberia ao Congresso Nacional. Hoje, um órgão público relevante para a construção desse debate é o Grupo Interministerial de Propriedade Intelectual (GIPI), que fica dentro do Ministério da Economia. 

As discussões sobre o tema continuam à flor da pele. Em maio do ano passado, o STF proferiu uma decisão histórica, que baniu a figura da extensão de patentes, prevista no parágrafo primeiro do artigo 40 da Lei de Propriedade Industrial. Mas, os esforços por prorrogá-las não pararam por aí. Em artigo na Folha de S. Paulo, Telma Salles, presidente da PróGenéricos, e Arystóbulo Freitas, advogado especializado em propriedade intelectual, afirmam em artigo que decisões de primeira instância que confrontam a decisão do Supremo já começaram a surgir neste ano, atendendo à demanda de empresas que querem continuar usando esse dispositivo legal.

Toda essa explicação para dizer que a Blau Farmacêutica ressalta como uma estratégia importante ao longo dos próximos anos a exportação de medicamentos biossimilares, ainda que sejam produzidos no Brasil. A empresa hoje está presente em sete países da América do Sul (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e recentemente Equador). Também já tem operação nos Estados Unidos, na América do Norte. Além disso, a empresa estrutura parcerias para a venda dos produtos na Malásia, Tailândia, Taiwan e Paquistão, regiões onde já vendeu ou ainda vende medicamentos biológicos. 

“A gente tem uma boa oportunidade para colocar esses produtos fora do Brasil. Também participamos anualmente de feiras, como a que vai acontecer agora na Alemanha [CPHI Frankfurt] que nos dá a possibilidade de acesso a parceiros em diferentes regiões”, diz Hahn.

A ideia é que os parceiros comprem os medicamentos já acabados, uma vez que a farmacêutica brasileira não tem a intenção de vender o IFA a eles. O processo de exportação, de modo geral, acaba sendo mais acelerado porque a lei de patentes desses países é diferente da brasileira, o que colabora positivamente para o go-to-market.

Ainda assim, Hahn destaca a importância do desenvolvimento de medicamentos biológicos para o mercado brasileiro, principalmente olhando para o SUS. A ideia, segundo o executivo, é trazer a partir da iniciativa da Blau, medicamentos biológicos e torná-los mais baratos, com qualidade, podendo, inclusive, ampliar o acesso à saúde. 

Concorrência e futuro

Mesmo com o potencial de mercado que se apresenta à frente, com o volume significativo de queda de patente à vista, Marcelo Hahn acredita que o país ainda terá de evoluir muito para conseguir aproveitá-lo completamente. Um dos desafios citados pelo executivo é a necessidade de uma reformulação da relação entre indústrias e instituições de ensino, por exemplo. 

“É muito complexo a Blau ceder uma tecnologia para ser trabalhada lá. Como eu posso ceder uma célula-mãe, um ativo super valioso no nosso trabalho para uma pessoa que, amanhã, pode vir a trabalhar em algum concorrente. Falta evoluir isso. Acho que laboratórios como os que estão montados hoje são bons para qualificar pessoas, mas para desenvolvê-la de verdade, seria necessário uma aproximação com acadêmicos capazes de desenvolver clones de alguma célula-mãe, mas ainda assim isso é difícil, por ser uma coisa guardada a sete chaves aqui dentro, por exemplo”, diz o executivo. 

Um outro ponto que conta a favor da Blau é o fato de a farmacêutica ter uma fábrica de produção de biossimilares já aprovada pela Anvisa. Ao todo, a nova instalação demandou um investimento de cerca de R$ 200 milhões. Por fim, a própria expertise da companhia no setor é ressaltada. A Blau investe em biotecnologia há mais de 20 anos e é considerada pioneira no país a investir nisso. 

O acordo anunciado nesta terça-feira é mais um passo para a Blau em direção à verticalização de produção usando biotecnologia no Brasil. Para a empresa, é a única maneira de aproveitar o melhor que o desenvolvimento de medicamentos ‘do futuro’ pode oferecer.

 

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