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Americanas não é a única em busca de futuro: Pão de Açúcar precisa de um plano para crescer e durar

Com cisão do Éxito, Pão de Açúcar vira o 'filho único' dentro do ativo GPA e terá de garantir rentabilidade para conquistar olhares atentos de investidores

Pão de Açúcar: investidores veem rede de supermercados brasileira deteriorada e observam atentos promessas de volta à rentabilidade (GPA/Divulgação)

Pão de Açúcar: investidores veem rede de supermercados brasileira deteriorada e observam atentos promessas de volta à rentabilidade (GPA/Divulgação)

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Karina Souza

14 de janeiro de 2023, 10h00

A repercussão sobre qual será o futuro da Americanas, após anunciar inconsistências contábeis estimadas em R$ 20 bilhões, tomaram o mercado nesta quinta-feira, dia 12. Em pauta, está o futuro da rede de varejo mais antiga do país, fundada em 1929. Mas quando o assunto é tradição, a companhia tocada há cerca de 40 anos pelo trio Beto Sicupira, Marcel Telles e Jorge Paulo Lemann não é a única em busca de um caminho que garanta sua longevidade. O Brasil não dá muita trégua, é verdade. Em uma semana que começou com os ataques em Brasília e terminou com a decepção bilionária com a Americanas, pode ter passado despercebido que outra tradicional rede — só que no segmento de supermercados — o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), também está à procura de um plano. No limite, de um dono. Uma reconfiguração do setor, portanto, parece estar mesmo à vista.

Depois de separar a operação de atacarejo do Assaí e agora anunciar o mesmo movimento para a operação na Colômbia, com a bandeira Éxito, sobrou a incerteza de quanto vale o Pão de Açúcar, que se transformará numa operação pura no segmento de mercados premium. Ao ficar sozinha, a empresa sente o impacto da gestão francesa do Casino. E reverte, completamente, a lógica de atuação que construiu a empresa — a maior consolidadora do varejo nacional. A fase de aquisições do Pão de Açúcar durou um longo período, começou no fim dos anos 80 e invadiu a primeira década dos anos 2000.

No caminho de lá para cá, o Pão viu a concorrência regional avançar. Ainda que esteja situada num setor altamente pulverizado, a companhia pôde acompanhar operações importantes no país, como Grupo Mateus (maior IPO de 2020), o Carrefour comprando o Makro e o Big, o lançamento da rede Oxxo pela Femsa e Raízen e até mesmo os passos do Pátria Investimentos no setor de comércio alimentar, com pelo menos quatro redes de supermercados sob seu controle. Isso para não falar nos negócios digitais que prometem entregar alimentos frescos em casa — justamente o consumo que traz a recorrência das visitas ao mercado. 

Enquanto os outros avançavam, a rede brasileira foi ficando para trás. É algo que fica claro no balanço da empresa. Desde que o grupo francês assumiu o controle da empresa, em 2012, o Ebitda apresentou crescimento por dois anos consecutivos (2013 e 2014) e voltando a crescer em 2018. Desde então, numa análise dos últimos cinco anos, vem caindo: passou de R$ 4 bilhões para R$ 1,8 bilhão em 2021, com estimativa de R$ 1,2 bilhão em 2022. “A operação, isolada, hoje, é muito ruim. Não cresce faz tempo. É rentável por causa do Éxito. Vale pouco. Há o desafio de transformar a força da marca em rentabilidade, algo que já se provou não ser fácil”, afirmou um analista. O desafio é como transformar a fama que ainda tem em dinheiro.  

Fermento para o Pão 

De fato, é difícil encontrar quem não conheça a rede no sudeste, especialmente em São Paulo. A marca, uma vez símbolo de consumo das classes mais altas em supermercados, ainda é frequentemente associada a um estabelecimento onde os preços são mais caros. Reconstruir essa história demanda tempo e, claro, investimentos. Como a empresa mostrou no evento aos investidores, cada loja no formato “Minuto Pão de Açúcar” custa de R$ 2 milhões a R$ 2,5 milhões. Serão 250 inaugurações desse tipo até 2024 e outras 50 do formato de supermercados até lá, totalizando 300 novas lojas. Lembrando que essa será apenas uma das frentes de investimentos da companhia ao longo dos próximos anos.

Hoje, a empresa tem uma alavancagem de 1,7 vez (com o Grupo Éxito na conta). São R$ 3,9 bilhões, segundo os dados mais recentes, do terceiro trimestre de 2022. Em resposta ao cenário futuro da empresa, pós-spin-off, Guillaume Gras, CFO do GPA, afirmou nesta terça-feira (10) em call com investidores que a companhia tem um plano estabelecido para zerar a dívida líquida até 2024. 

A estratégia passa por venda de ativos “non-core”, como imóveis e postos de gasolina — que podem render um bom dinheiro para a companhia, como transações no passado recente mostraram, com a venda de 39 imóveis por R$ 1,2 bilhão — por dividendos do Éxito e, numa perspectiva menos imediatista, da venda dos 13,3% remanescentes que ficarão com a divisão brasileira após a separação. Mesmo sem a venda da parcela do grupo colombiano que lhe cabe, o GPA deve terminar 2023 com uma dívida líquida 50% menor, de cerca de R$ 2 bilhões. 

Por todos esses motivos, arriscar quanto a operação brasileira do GPA vale, sozinha, não é tarefa fácil. “Essa é a pergunta de um milhão de dólares neste momento”, afirmaram diferentes fontes ouvidas pelo EXAME IN. Ainda assim, houve quem trouxesse uma cifra pronta: algo em torno de R$ 4 bilhões. Hoje, para referência, a empresa combinada é avaliada na bolsa a R$ 5 bilhões, com os papéis cotados a R$ 18,90. 

Futuro no forno

Independentemente de os números serem levados à risca ou não, das conversas recentes, o que fica é um tom de esperar para ver o que vai acontecer com a empresa, de sentir o terreno antes de tomar decisões mais aprofundadas. Entram nessa conta, por exemplo, expectativas — ainda bastante céticas — sobre quanto das promessas de crescimento e revitalização do último Investor Day a companhia vai conseguir cumprir daqui para frente, em um ambiente de juros altos por tempo prolongado e dos efeitos da inflação ainda persistentes no poder de compra do consumidor. 

As palavras foram tentadoras. Pouco mais de três meses após a chegada do novo CEO, Marcelo Pimentel, o GPA afirmou no evento anual aos investidores pelo menos seis iniciativas estratégicas para colocar a empresa de volta à rota de crescimento: inaugurações, aportes para que o digital saia de 10% para 20% das vendas totais, negociações com fornecedores para melhorar margens e o foco em rentabilidade, que permitiria à empresa chegar a uma margem Ebitda entre 8% e 9% até 2024.

Garantir um futuro para a empresa passa pela certeza de que o Pão (em breve o último e único ativo a fazer parte do que um dia já foi designado como "grupo") tem de encontrar o caminho do crescimento para a rentabilidade. A partir daí, fica mais fácil encontrar quem queira investir — seja na bolsa, de forma pulverizada, seja eventualmente um sócio estratégico. Enquanto nada é totalmente definido, restam os rumores. O mais recente, de setembro de 2022, era a de um acordo com o Carrefour global, que envolveria a volta de Abilio Diniz — hoje investidor do Carrefour — ao comando. A especulação foi negada pelo GPA e pelo empresário. 

Com todas as reviravoltas pelas quais o Pão (e o varejo de modo geral) vêm passando, o que fica claro é que o setor permanece sendo um dos mais difíceis de operar. Os desafios são cada vez maiores com a digitalização e o aumento da concorrência, junto com uma necessidade cada vez maior de investimentos e um consumidor cada dia mais exigente. Atender a todos esses desafios exigirá um fôlego e tanto do Pão — para se reerguer e provar aos investidores que pode voltar aos tempos de glória e brilho, agora sozinho.