Valentia, um romance dos novos tempos

A cabanagem como pano de fundo para uma verdadeira literatura contemporânea

São Paulo - Deborah Goldemberg é uma notável representante de uma nova safra de escritores: é paulistana, mulher e romancista. Uma combinação de elementos capaz de dar tons e cores a uma nova voz literária que vem surgindo — de maneira lenta e gradual, é verdade, mas consistente.</p>

Estamos talvez falando de uma literatura que busca, ao mesmo tempo, o padrão literário clássico com pitadas contemporâneas de estilo e narrativa. O pano de fundo de Valentia, terceiro romance de Deborah, é a Cabanagem, a maior revolta popular do Brasil, ocorrida no então Estado do Grão-Pará entre 1835-1840. A escritora, que também é antropóloga, fez uma pesquisa local sobre a revolta e, com ela, fundou as bases para dar vida aos seus personagens típicos e inquietantes. Um deles, é Valentina, uma mulher do povo, uma ribeirinha franzina, que revela-se a mais corajosa entre os combatentes cabanos. Jovem e já mãe de dois filhos (um morto), tem a garra de uma onça e não pestaneja em matar cem almas numa noite.

Além da qualidade literária, da narrativa inquietante, dos personagens verossímeis, o romance transpira sensualidade na voz ousada de Valentina e de sua criadora.

Veja alguns trechos, cedidos com exclusividade para Alfa

Valentina quer ou não quer?

Não tardou e Valentina me cutucou na rede. Você quer agora? Eu queria, claro, mas as ideias me atordoavam. Será que ela achava que era seu dever aliviar o desejo dos homens durante a viagem? Para entendê-la, retruquei a pergunta. Você quer? Ela olhou pra mim desconfiada. Se você quiser, tudo bem. Senão? Ela rolou os olhos e disse que tudo bem também. Um silêncio se instalou por alguns instantes. Eu perguntei novamente. Você quer, Valentina, tem vontade de sexo? Acho que ela nem entendeu a pergunta e, irritada, voltou pra rede dela. Não deu cinco minutos e a orquestra dos roncadores estava completa.


Gostou ou não, tanto faz

Valentina observou tudo. Estava nua, abraçada a si mesma, assustada. Era uma mulher inconsequente. Ela poderia ter intervido a favor de Branches, até me matado, mas não o fez. Não senti gratidão nem a perdoei por nada. Olhei bem firme e disse que a próxima a morrer seria ela, se não aprendesse a se controlar. Que a culpa da morte daqueles dois homens recaíam sobre ela. Que isso nos prejudicaria na guerra. Acho que ela soluçou um pouco, mas isso não me comoveu. Ao contrário, me deu gana. Arranquei seu rabo de sereia da água e levei-a no colo até a margem. Ela resistiu um pouco, mas logo cedeu, sentindo a força da minha ira. Deitei-a de bruços no chão e esfreguei suas lágrimas na lama. Com vontade de mais sangue e suor, abri suas pernas e me enfiei pra dentro da maldita Eva. Quando o homem dispara nesse sentido, não tem volta. Ela não deu um pio. Gostou ou não, tanto faz. Ao final, ordenei que ela fosse apenas minha dali em diante. Entendido? Ela tremia, mas assentiu.

Ela acolhia minha fome noturna

De noite, eu me saciava de Valentina. Eu precisava me cravar nela para me tornar cada vez mais como ela. Sabia que me entendia. Talvez soubesse desde o início que era uma questão de tempo para eu me transmutar nisso. Ela acolhia minha fome noturna sem reclamar. A cada noite, eu me tornava mais selvagem. Eu a machucava, ela me tolerava e fui ficando cada vez pior. Sua fragilidade física me atiçava, me dava vontade de quebrar seus ossos, rasgá-la com ponta de faca, estapeá-la, ver sangue jorrar da sua boca para depois lambê-la. Queria toda sua força frágil, queria tornar seu corpo ralado mais forte, como o meu. Nosso sexo era um ritual de escarificação.

VALENTIA
Romance de Deborah Kietzmann Goldemberg
Editora Grua
216 páginas
R$ 35,00

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