Como adaptar a casa para uma criança no espectro autista

Montar um espaço em casa confortável para crianças no espectro autista não exige muito dinheiro nem elaboração

Muitos de nós temos um lugar especial em casa que nos ajuda a recarregar nossas baterias. Pode ser uma cadeira favorita, um canto silencioso ou simplesmente debaixo das cobertas, na cama. Mas, para crianças no espectro do autismo ou que têm problemas de processamento sensorial, encontrar esse tipo de santuário pode ser desafiador, pois itens comuns em casa, como uma luz brilhante ou um tapete texturizado, podem desencadear uma reação negativa.

Alguns espaços públicos ou comerciais, como escolas, aeroportos e estádios esportivos, agora oferecem salas sensoriais que contam com uma grande variedade de equipamentos de terapia. Montar uma dessas em casa, porém, não exige muito dinheiro nem elaboração.

“A ideia é fornecer um espaço seguro e agradável para que a criança possa navegar de forma independente”, disse Paige Siper, psicóloga-chefe do Centro Seaver de Pesquisa e Tratamento do Autismo da Escola de Medicina Icahn, no Mont Sinai. Ela recomenda que um terapeuta ocupacional faça uma avaliação para determinar as preferências e necessidades sensoriais da criança antes de projetar um espaço.

Com uma em cada 59 crianças agora identificada com transtorno do espectro autista, há mais pais que testam truques simples de arranjos domésticos para ajudar seus filhos a lidar com problemas de processamento sensorial – onde os estímulos diários, sejam auditivos, visuais ou outros, são vivenciados de uma forma intensificada. Embora nem todos com problemas de processamento sensorial tenham autismo, muitos o têm. Por outro lado, estudos realizados pelo Instituto STAR, um centro de pesquisa com sede em Greenwood Village, no Colorado, sugerem que cerca de 75 por cento das crianças no espectro autista têm sintomas significativos de transtorno de processamento sensorial.

Mudanças simples na arrumação podem incluir salas à prova de som, instalação de portas mais pesadas e máquinas de lavar roupa e louça mais silenciosas. Para as crianças que se sentem muito estimuladas por itens cotidianos na casa, encontrar ideias de armazenamento para acabar com o excesso de objetos é outra solução fácil.

Lindsey Biel, terapeuta ocupacional com uma clínica em Manhattan, afirmou que equipamentos e brinquedos terapêuticos também podem ser úteis, mas observou que eles às vezes são caros e até contraproducentes, caso o item errado seja comprado. Por exemplo, o Dizzy Disk, um brinquedo giratório, pode ajudar algumas crianças a liberar energia e a fortalecer as habilidades de equilíbrio e coordenação. Para outras, porém, o movimento pode proporcionar superestimulação.

“Você tem de ajustar o espaço e o equipamento às necessidades do indivíduo”, ensinou Biel, autora de “Raising a Sensory Smart Child”.

Biel recomenda ajustes simples em casa, como instalar reguladores de luz e substituir lâmpadas fluorescentes fortes pelas de LED, mais quentes. As paredes devem ter uma cor suave e neutra, e o papel de parede padronizado deve ser evitado. E, para as crianças que precisam de movimento, uma cadeira de balanço, uma rede ou um balanço podem ajudar.

Vanessa Flyer, cujo filho de três anos, Julian, está no espectro do autismo e é sensível ao som e à luz, entre outras coisas, criou um canto tranquilo para ele em sua casa em Greenwood Heights, no Brooklyn. Ela instalou uma tenda no canto do quarto dele e forrou o fundo com velhos cobertores de bebê. Dentro há várias almofadas e, ao lado, alguns brinquedos sensoriais portáteis em uma caixa de feltro.

Flyer, que costuma ler livros para Julian na tenda, contou que seu filho já procurou o espaço por conta própria, especialmente quando há visitas em casa.

“A tenda é seu refúgio, mas também pode ser divertida”, disse Flyer, que a comprou por menos de US$ 100.

Flyer também instalou persianas automatizadas por cerca de US$ 900. Às vezes, a luz solar natural é muito forte e Julian só consegue se concentrar nela, levando-o a repetir movimentos ou palavras e frases, reação conhecida como ecolalia. Julian opera as cortinas automatizadas para regular seu próprio ambiente.

Michael Volchok viu a necessidade de criar um espaço seguro de exercício para seu filho, Max, que está no espectro do autismo e tem transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Max, de seis anos, se tornou um especialista em escalar estantes quando tinha cerca de quatro anos. Assim, quando Volchok soube que um espaço infantil em seu bairro do SoHo estava fechando dois anos atrás, ele se ofereceu para comprar todos os equipamentos de exercícios sensoriais. Isso incluiu uma parede de escalada, numerosos colchonetes, barris de espuma e escadas. O dono lhe vendeu tudo, disse ele, incluindo um jogo de madeira, por cerca de US$ 1.500.

Vanessa Flyer e seu filho Julian, de 3 anos Vanessa Flyer e seu filho Julian, de 3 anos

Vanessa Flyer e seu filho Julian, de 3 anos (Brittainy Newman/The New York Times)

“Poupei milhares de dólares”, observou Volchok, acrescentando que já havia usado vendas de encerramento de atividades para comprar itens para seu próprio negócio de computadores.

Melissa Morgenlander contou que passou muitas horas pensando nas necessidades sensoriais de seu filho e determinou que menos era mais, especialmente no quarto, onde ele precisa de ajuda para pegar no sono e assim permanecer. Diagnosticado com autismo, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e transtorno obsessivo-compulsivo, Quentin, de 12 anos, dividiu o quarto com sua irmã gêmea, Fiona, até os oito anos, quando a família decidiu criar dois quartos pequenos para que os irmãos pudessem decorar seu espaço de acordo com suas próprias necessidades. Para Quentin, isso significou um quarto com um verde-claro suave e nada pendurado nas paredes. As janelas têm cortinas blackout e há uma pequena estante, uma cômoda e uma cama. Em contraste, Fiona tem muitas fotos, cartazes e luzes penduradas.

O quarto de Quentin certamente parece um pouco sem graça, de acordo com Morgenlander, que mora em Park Slope, no Brooklyn. Mas os ajustes eram necessários porque seu filho achava estimulantes muitos dos itens domésticos comuns em seu quarto. “É quase como uma sala de privação sensorial”, brincou ela.

Os custos ligados à criação de uma criança com necessidades especiais incluem taxas para escolas especiais, médicos, medicamentos e terapias. Um estudo publicado em 2014 na revista “Pediatrics” relatou que os pais de uma criança com autismo gastavam cerca de US$ 17 mil a mais por ano com cuidados de saúde e outras necessidades do que os pais de uma criança neurologicamente típica.

Alguns varejistas agora oferecem opções mais acessíveis. A Target introduziu uma linha de móveis sensoriais para crianças em abril passado, com cada peça custando menos de US$ 110.

A empresa da família de Moiz Rauf, a SensoryMoon, com sede em Paramus, Nova Jersey, começou a oferecer luminárias especiais on-line por menos de US$ 150 em 2015. A princípio, ele achou que o abajur, um tubo acrílico com água e luzes LED que mudam de cor, com peixes tropicais falsos, venderia como um item decorativo e inovador. Mas, quando a maioria dos pedidos e revisões de clientes veio de famílias com necessidades especiais, ele percebeu que tinha encontrado um nicho de mercado.

“Nós nos surpreendemos ao saber como a luminária poderia ajudar crianças com problemas sensoriais”, disse Moiz, que desde então começou a vender outros produtos relacionados, como cobertores mais pesados, no site.

Algumas famílias projetaram seus próprios itens sensoriais. Tamara Petrovic, que por acaso é designer na 0 to 1, uma empresa de design que ela dirige com seu marido, o arquiteto Garner Oh, contou que queria uma cobertura ecológica macia para pisos e paredes, porque seu filho, Kas, de dez anos, tem paralisia cerebral. O casal primeiro equipou seu apartamento de dois quartos em Manhattan com tapetes de borracha de espuma, mas achou difícil mantê-lo limpo. Petrovic também estava preocupada em usar tapetes normais porque achava que fibras soltas poderiam desencadear a sensibilidade tátil de Kas e causar espasmos musculares.

Incapaz de encontrar exatamente o que queria, o casal projetou seu próprio revestimento de parede e piso com cortiça, feltro e lona. No lugar de uma mesa de cozinha comum, desenvolveu uma mesa de cortiça baixa com almofadas de espuma que poderiam ser reorganizadas em várias configurações de assentos. Um conjunto robusto de escorregadores internos que caberia em sua sala de estar era difícil de encontrar, por isso Oh projetou um e o construiu com a ajuda de um amigo e de um membro da família.

Agora que Kas está ficando meio grandinho para o escorregador, o casal planeja doá-lo para sua antiga escola. Petrovic disse que poderia colocar uma rede e construir algo novo para que Kas pudesse continuar a desenvolver sua força física.

“Há muitas coisas que você pode comprar on-line, mas acho que há uma enorme falta de itens com projetos simples, ecológicos e econômicos para crianças com necessidades especiais”, concluiu ela.

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