Black Mirror – a ótima ficção que surpreende a realidade

Anúncio da terceira temporada, que entrou no ar recentemente, empolgou fãs no mundo inteiro

Los Angeles – Black Mirror não chega a ter a audiência de Game of Thrones ou The Walking Dead. Mas, na conturbada realidade política brasileira recente, foi comum ouvir: “Isso parece Black Mirror”. Seu criador, Charlie Brooker, faz uma ficção científica tão surpreendente quanto realista e, por isso, aterrorizante.

O anúncio de sua terceira temporada, que entrou no ar no último dia 21, empolgou fãs no mundo inteiro. Agora produzida pela Netflix, que também exibe a primeira e a segunda temporadas, fora o episódio especial White Christmas, originalmente feitos pelo Channel 4, a série volta mais vitaminada.

“Acredito que temos mais ambição desta vez”, disse Brooker em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em Los Angeles. “Como se trata de uma plataforma de streaming, não há intervalos, nem foi preciso se preocupar com a duração. Uma de nossas histórias tem duração de um longa-metragem, porque foi assim que saiu.”

Fora isso, em vez dos três episódios por ano, a terceira temporada vem com seis. “Isso representou um desejo maior de variedade do que antes. Sua mente acaba viajando mais. Você pensa numa escala maior. Não busco o espetáculo pelo espetáculo, ainda é a mesma série, mas em uma escala maior.”

Em termos de gênero, há de tudo um pouco: uma história de detetives (“Hated in the Nation”), uma sátira social sobre a busca incessante de “likes” nas redes sociais (Nosedive), um terror em torno dos videogames (Play Test), um thriller (Shut up and Dance), uma ficção científica mais militarista (Men Against Fire) e até um romance na década de 1980 (San Junipero).

Há dois episódios que se passam nos Estados Unidos, e outros dois com americanos nos papéis principais. Nosedive foi escrito por Michael Schur (do The Office americano) e pela atriz e roteirista Rashida Jones e estrelado por Bryce Dallas Howard. “Como cada história é independente, filosoficamente quando estamos escrevendo, e em termos práticos, quando estamos produzindo, tratamos cada episódio como um filme”, explicou Brooker. “E enxergamos a temporada inteira como um festival de cinema em que somos curadores.”

Tanto ele quanto a produtora Annabel Jones acreditam que as fronteiras entre cinema e televisão foram borradas. “Nunca conseguiríamos fazer seis longas num ano. Quem consegue? E haveria muito mais restrições. Aqui estamos lançando seis filmes de uma vez no mundo inteiro, o que é fantástico. E aterrorizante”, afirmou Brooker.

Black Mirror atraiu diretores de cinema como Joe Wright (de Desejo e Reparação) e Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield, 10).

Com a realidade cada vez mais estranha do que a ficção, Brooker admite que não está fácil arrumar material original – até a história aparentemente absurda de um dos episódios de 2011, sobre a chantagem de um primeiro-ministro do Reino Unido envolvendo um porco, parece ter um fundo de verdade, segundo uma biografia do ex-ocupante do cargo David Cameron.

“Muita gente diz que 2016 deveria ser cancelado – para mim, qualquer ano que começa com a morte de David Bowie e Prince deveria ser cancelado”, disse Brooker. “Se você assiste ao noticiário, tem alguma coisa grande acontecendo a cada dez minutos. Tem a ver com o volume de informação que chega até nós. Mas graças à tecnologia acontece um fenômeno global que é a divisão. Estamos recuando para os cantos da sala, ideologicamente. Espero que melhoremos e consigamos nos unir novamente. Vamos ver. Claramente o mundo está atravessando uma época de grandes mudanças.”

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