Attenborough, uma vida na televisão

O título de sir, dado pela rainha da Inglaterra, e a possibilidade de ter o próprio nome em uma espécie animal figuram entre as grandes honrarias de nosso tempo. David Attenborough, naturalista e apresentador de televisão britânico, possui as duas formas de reconhecimento — só em nomes científicos de animais, Attenborough aparece em 10, incluindo um dinossauro, um tipo de camarão e uma recente libélula de Madagascar. Mas são os seus feitos que merecem atenção e estão todos eles numa série de programas que o canal por assinatura BBC Earth exibe este mês em diferentes horários, com destaque para o merecido especial Attenborough at 90, lançado esta semana no país.

Attenborough é, mais do que qualquer outro apresentador, o responsável pela popularização dos documentários televisivos sobre a vida selvagem. Todos os que vieram depois dele — incluindo o brasileiro Richard Rasmussen — devem a Attenborough a criação de um gênero que mistura jornalismo, educação, ciência e uma dose de bom humor.

A própria BBC, como fica claro no especial, deve muito a Attenborough. A imagem de uma emissora com tecnologia capaz de captar plantas crescendo em câmera lenta, gravar tocas de animais subterrâneos ou usar um robô para mostrar de perto a vida dos leões foi forjada nos programas de Attenborough.

Só que não é apenas para o marketing que Sir David é importante para a BBC. Ele também o é em termos financeiros: além da audiência local, seus programas são largamente vendidos para emissoras do mundo todo. Planeta Terra 2, série filmada em Ultra-HD, já foi vendida para três emissoras diferentes antes mesmo da sua estreia. Por sinal, para quem já viu qualquer especial sobre animais no Fantástico, da TV Globo, há uma grande chance de que se tratava de um programa de Attenborough, infelizmente, sem Attenborough.

Sua carreira lendária começou por acaso, nos anos 1950, quando era produtor de um programa da BBC. O apresentador original ficou doente antes da estreia e coube a ele apresentar Em Busca de um Zoológico, com expedições para lugares remotos atrás de animais exóticos. Foi um sucesso de audiência que abriu caminho para temporadas seguintes, incluindo uma viagem ao Pacífico Sul que fez de Attenborough o primeiro a exibir um dragão-de-komodo na TV mundial — rememorada com detalhe no programa Zoo Quest in Colour, também exibido pelo canal BBC Earth no Brasil. Em seu currículo, também consta quatro anos como executivo de televisão. Como diretor-geral da BBC Two, ele pode solidificar o papel da emissora na produção de documentários, dramas históricos e também o homem que topou produzir o transgressor programa de humor do grupo Monty Python.

Mas o maior legado de Attenborough acabou por ser outro. As cenas que ele levou aos lares da Inglaterra e do mundo nos últimos 62 anos — como um cafuné recebido de gorilas e um encontro com um raro filhote de rinoceronte cego — tiveram como efeito o aumento da consciência sobre a importância de preservação do meio-ambiente e de espécies ameaçadas de extinção. Para entender o peso de Attenborough na discussão ambiental, basta dizer que, em 2015, o presidente Barack Obama o entrevistou — e não o contrário — para a BBC e PBS sobre tópicos como aquecimento global e o futuro do planeta.

“A televisão pode aumentar nossa simpatia pelos animais e pelas plantas e lembrar que nós, humanos, não somos a única espécie a habitar este planeta”, diz Attenborough durante o programa especial.

É por isso que, mesmo aos 90 anos, ele continua a trabalhar. Além de Planeta Terra 2, ele deverá estrear em breve uma série especial sobre bioluminescência. Além de imagens estonteantes da natureza, o resultado pode ser mais um animal com nome de Attenborough. Afinal, não há nenhum vagalume na sua coleção.

(Rafael Kato)

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