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'Técnicos e viáveis': como jogadores africanos chamam a atenção dos clubes brasileiros

Ao longo da história, o primeiro atleta africano a atuar por aqui foi o atacante nigeriano Ricky, pelo América-RJ, em 1984

Yannick Bolasie, da Chapecoense e já há algum tempo no Brasil, é nascido na França, mas naturalizado congolês

Yannick Bolasie, da Chapecoense e já há algum tempo no Brasil, é nascido na França, mas naturalizado congolês

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 19 de agosto de 2026 às 20h38.

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Nos últimas semanas, chamou a atenção o fato de o Palmeiras anunciar a contratação de três promessas africanas: os zagueiros Koné, da Costa do Marfim, e Tiecoura Konaté, de Mali, além do atacante Miguel Bilong, de Camarões. Embora tenham chegado inicialmente para servir às categorias de base, Koné e Bilong já integram os treinos do elenco principal desde o fim da Copa do Mundo, tornando-se opções imediatas para o técnico Abel Ferreira.

Esse movimento do clube paulista de enviar observadores a países como Gana, Senegal, Mali e Costa do Marfim ocorre desde 2023. O processo repete uma estratégia consolidada há décadas na Europa, onde a captação de jovens talentos africanos funciona como uma via crucial de intercâmbio esportivo, técnico e econômico, estruturada por meio de parcerias com academias locais.

"O futebol africano é um celeiro inestimável de atletas com enorme potencial técnico e físico. O mercado europeu já entendeu o valor dessa integração há anos, e ver o Palmeiras liderar esse movimento no Brasil mostra uma maturidade de captação exemplar. O clube oxigena suas categorias de base com novos perfis de jogo e oferece a esses jovens uma vitrine global", analisa Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management, empresa que administra a carreira de mais de 150 jogadores ao redor do mundo.

11 atletas no Brasileirão

Atualmente, 11 atletas oriundos da África estão na Série A do Brasileirão. Alguns, mais midiáticos, casos do atacante Zakaria Labyad, do Corinthians, que apesar de ter nascido nos Países Baixos, é naturalizado marroquino; do atacante Yannick Bolasie, da Chapecoense e já há algum tempo no Brasil, nascido na França, mas naturalizado congolês; do atacante Francis Amuzu, do Grêmio, que é naturalizado belga, mas nascido em Gana, e da mais recente contratação do Atlético-MG, o atacante Mamady Cissé, de Guiné.

O São Paulo oficializou o lateral Aurélio Buta, nascido em Angola e capaz de atuar em ambos os lados do campo. Já o Grêmio trouxe o atacante Jovane Cabral, que disputou a última Copa do Mundo pela seleção de Cabo Verde.

Além deles, completam a lista na elite nacional o meio-campista Benjamin Arhin (Internacional/Gana), o meia Domingos Andrade (Botafogo/Angola) e o zagueiro Tchamba (Remo/Guiné-Bissau).

Para Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy, com o fluxo cada vez maior de atletas brasileiros indo para o exterior, o país também passou a atuar com mais força como comprador, buscando alternativas para repor essas saídas.

"Nesse contexto, o mercado africano aparece como uma opção economicamente viável e com grande potencial técnico, como as últimas Copas do Mundo já mostraram. Mas não basta identificar o talento: é preciso criar um processo de adaptação cuidadoso, levando em conta língua, alimentação, hábitos culturais e o impacto de estar distante do ambiente de origem. A África reúne 54 países, com realidades muito diferentes, e essa diversidade precisa ser compreendida. Além disso, os clubes brasileiros terão de competir com a Europa, que há muitos anos observa e investe nos talentos do continente", explica.

Europa domina esse mercado

Embora o Brasil viva a sua temporada com o maior número de atletas africanos na história, as cifras locais ainda são tímidas quando comparadas às ligas europeias. Na Ligue 1 (primeira divisão da França), por exemplo, há 128 jogadores inscritos de origem africana. Todos os 18 clubes da elite francesa têm ao menos um atleta do continente em seus elencos. A maioria provém de Senegal — seleção que faturou a Copa Africana de Nações em 2025, mas teve o título revogado recentemente em favor do Marrocos, que por sua vez conta com 17 representantes no futebol francês.

Para Alexandre Frota, CEO da FutPro Expo, a chegada de atletas africanos pode representar ganhos que vão além das questões técnicas, mas também comerciais. "O futebol é uma das maiores indústrias de entretenimento do mundo. Ao trazer talentos africanos, o Palmeiras e outros clubes vão além dos ganhos técnicos; eles expandem as marcas, conectam continentes e atraem novos públicos, tornando o espetáculo muito mais valioso e atraente para o mercado global", afirma.

O ecossistema de captação no Brasil também começa a se ramificar para divisões inferiores. Somadas as Séries B, C e D, o país registra outros 15 profissionais africanos. A maior colônia está na Nigéria, com cinco atletas, seguida por Camarões, Gana e Senegal, com dois representantes cada. Um exemplo claro dessa engrenagem é o volante senegalês Iba Ly, de 23 anos, que pertence ao São Paulo e disputa a temporada emprestado ao Juventude.

"Iba Ly é um atleta que acompanho desde a base do São Paulo, e que teve uma boa passagem pelo Retrô recentemente. Tem muita força física, alto nível de disciplina tática e qualidade com a bola. Esse conjunto de atributos é muito marcante em atletas de origem africana. São jogadores competitivos, consistentes e com grande capacidade de adaptação, por isso gosto de acompanhar de perto esse perfil de atleta, que segue em constante valorização no cenário internacional", aponta Lucas Andrino, executivo de futebol do Juventude.

História de africanos por aqui

Ao longo da história, o primeiro atleta africano a atuar por aqui foi o atacante nigeriano Ricky, pelo América-RJ, em 1984. No ano seguinte, indicado por Pelé, o Santos trouxe o meia-atacante Kennedy Nagoli, do Zimbábue, e também o atacante sul-africano Arthur Zwane, que ficou na Vila por duas temporadas.

Em 1996, o Corinthians apostou no sul-africano Mark Williams. Mas o atacante jogou apenas três partidas até seguir caminho na Europa e Ásia, passando por Wolverhampton Wanderers (Inglaterra), Chongqing Lifan (China), Qingdao Zhongneng (China) e RWDM (Bélgica). Em 1998, o Fluminense apostou no liberiano Josephus Yenay, mas ele ficou pouco tempo e logo se transferiu para o futebol português.

Também neste período, entre 1994 e 1998, o goleiro camaronês William Andem defendeu Cruzeiro e Bahia. No time mineiro, foi reserva de Dida, mas chamou mesmo a atenção ao se envolver em uma briga com o atacante Euller e o zagueiro Gutemberg em um clássico contra o rival Atlético.

Nos anos 2000, Johnson Macaba veio da Angola e fez um tour por clubes daqui: Juventus (2005), Portuguesa (2006), Goiás (2006 e 2007) e Santa Cruz (2007 e 2008). O último foi o Atlético Sorocaba, em 2012.

Também nos anos 2000, o atacante camaronês Joel se destacou por aqui e teve passagens por Iraty, Botafogo, Santos, Cruzeiro e Coritiba, Botafogo e Avaí, seu último clube no país em 2017, até se transferir para o Marítimo, de Portugal. Levantou os Estaduais de 2014, com o Coxa, e 2016, com o Peixe.

Entre 2006 e 2010, o atacante Abubakar Bello-Osagie passou por Internacional, Vasco da Gama e Caxias, fez poucas partidas pelos times profissionais dessas agremiações. Já em 2014, foi a vez do Grêmio dar uma chance ao meia-atacante sul-africano Tyrone Sandows, conhecido como “Ty”. Em 2016, por exemplo, ele disputou os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro pela África do Sul.

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