Esporte

Sem TV? Como clubes menores estão reinventando o patrocínio máster na camisa

Reportagem do The Athletic detalha como equipes com menor exposição de TV precisam vender nicho, e não apenas visibilidade.

A inusitada camisa do Deportivo Municipal dividida em 1.000 cotas: uma ação de resgate financeiro que levanta debates sobre o real valor de marketing no esporte (Crédito: Deportivo Municipal / @CCDMunicipal)

A inusitada camisa do Deportivo Municipal dividida em 1.000 cotas: uma ação de resgate financeiro que levanta debates sobre o real valor de marketing no esporte (Crédito: Deportivo Municipal / @CCDMunicipal)

Fernando Olivieri
Fernando Olivieri

Redator na Exame

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 17h39.

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O patrocínio máster (o espaço principal na parte frontal da camisa) é, historicamente, a espinha dorsal das receitas comerciais do futebol. Com exceção dos naming rights de estádios, esse é o ativo publicitário mais valioso que um clube pode vender.

O apelo para as marcas é evidente: em troca de um cheque substancial, o logotipo da empresa acompanha o time em transmissões televisivas, fotografias, redes sociais e, idealmente, no peito de milhares de torcedores que compram o uniforme. Foram necessárias décadas para que a indústria do esporte transformasse um simples pedaço de tecido no metro quadrado publicitário mais cobiçado do mercado.

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Mas o que acontece quando esse "imóvel" publicitário está em um bairro pouco movimentado e ninguém quer comprá-lo?

Esse é o gargalo financeiro detalhado em uma recente reportagem do portal The Athletic, que escancara a dura realidade de equipes femininas de divisões inferiores e de clubes tradicionais que caíram no ostracismo. Sem contratos polpudos de direitos de transmissão, a matemática da visibilidade tradicional não fecha para os patrocinadores.

O case Deportivo Municipal: Marketing ou Caridade?

O exemplo mais emblemático dessa crise de inventário comercial vem da América do Sul. O Deportivo Municipal, tetracampeão peruano que despencou na pirâmide do futebol nacional, viu seu patrocinador máster abandonar o barco em meio a uma grave crise financeira. Sem conseguir atrair uma grande corporação para preencher o vácuo, o clube de Lima tomou uma decisão radical: em vez de um único parceiro, buscou 1.000.

A diretoria redesenhou a camisa como uma grade pixelada, contendo 1.000 pequenos quadrados pretos e brancos, e vendeu o espaço no varejo para torcedores e pequenos comércios locais. Todas as 1.000 cotas foram vendidas por US$ 60 (cerca de R$ 330) cada, levantando um total de US$ 75.000 (aproximadamente R$ 412.500) para os cofres da instituição.

A inusitada camisa do Deportivo Municipal dividida em 1.000 cotas: uma ação de resgate financeiro que levanta debates sobre o real valor de marketing no esporte (Crédito: Deportivo Municipal / @CCDMunicipal)

A inusitada camisa do Deportivo Municipal dividida em 1.000 cotas: uma ação de resgate financeiro que levanta debates sobre o real valor de marketing no esporte (Crédito: Deportivo Municipal / @CCDMunicipal)

O clube resolveu seu problema imediato de fluxo de caixa, mas o mercado corporativo olha para o modelo com ceticismo. Ricardo Fort, ex-chefe global de patrocínios da Coca-Cola e da Visa, e atual consultor de sports business, foi categórico ao The Athletic: "Isso me pareceu mais um apoio da comunidade, mais caridade do que marketing".

O argumento de Fort expõe a premissa básica do patrocínio corporativo: o retorno sobre o investimento (ROI). Uma marca precisa de contrapartidas claras. Com 1.000 logotipos espremidos em uma camisa, a visibilidade — que é o principal motor de precificação desse ativo — é nula. Se as empresas pagaram sem receber exposição legível, dificilmente renovarão o contrato no próximo ano.

O abismo no futebol feminino e a venda de nicho

Essa reflexão é particularmente urgente para o futebol feminino. No topo da pirâmide, o negócio está maduro. Ligas como a NWSL (EUA) e a Women’s Super League (Inglaterra) oferecem transmissões nacionais, atletas globais e audiências altamente engajadas. Contudo, nas divisões de acesso, a realidade é outra. Sem um acordo de mídia robusto, o modelo tradicional de venda de espaço entra em colapso.

A solução, segundo a reportagem, é parar de tentar vender volume de audiência e começar a vender identidade e propósito. Um restaurante de bairro não precisa de milhões de impressões na TV para justificar um investimento de alguns milhares de reais no time feminino local; ele busca levar clientes para o seu salão.

O Brooklyn FC Women, dos Estados Unidos, experimentou isso na temporada passada ao fatiar seu patrocínio máster. Em vez de vender o espaço para o ano todo, o clube adotou um modelo rotativo, estampando negócios e instituições exclusivamente locais (como o Museu das Crianças do Brooklyn e destilarias do bairro) a cada jogo em casa. O foco não era exposição global, mas criar laços de consumo diretos com a comunidade do distrito nova-iorquino.

Outros clubes estão indo além da comunidade geográfica e vendendo causas e estilos de vida. Na Inglaterra, o pequeno Forest Green Rovers, da quinta divisão, construiu uma identidade global 100% ancorada na sustentabilidade ESG — desde o estádio até a comida servida —, atraindo empresas do setor verde que jamais olhariam para um time desse porte. Na Itália, o FC Como Women, situado na famosa região do Lago de Como, embalou sua marca com a aura da moda e do turismo de alto padrão, vendendo luxo e exclusividade para os patrocinadores, segundo o The Athletic.

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