O empresário Pedro Lourenço, gestor da SAF do Cruzeiro, vê o ambicioso planejamento financeiro de 2026 ser duramente impactado pela falta de resultados esportivos (Crédito: Gustavo Martins/Cruzeiro)
Redator na Exame
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 18h35.
O planejamento esportivo e financeiro do Cruzeiro para a temporada de 2026 prometia a consolidação do clube como uma das grandes potências do futebol sul-americano. Contudo, o roteiro traçado pela diretoria da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) caminha para um encerramento melancólico.
Após um segundo ano de injeção massiva de capital, o clube amarga quedas traumáticas nas principais competições de mata-mata do calendário, acumulando um prejuízo no retorno sobre o investimento (ROI).
Escola de futebol de Ronaldo Fenômeno fatura R$ 18 milhões ao ano e começa expansão nos EUA
O golpe mais duro para a confiança da torcida e para o balanço orçamentário veio na Copa do Brasil. Comandado por um elenco milionário, o Cruzeiro acabou eliminado nas quartas de final justamente para o seu maior rival, o Atlético-MG. A queda no clássico mineiro não apenas frustrou o projeto esportivo, mas escancarou a ineficiência de um plantel desenhado que falhou no momento decisivo da temporada.
Depois de brigar de frente com Flamengo e Palmeiras pelo título do Campeonato Brasileiro e alcançar a semifinal da Copa do Brasil no ano anterior, o Cruzeiro iniciou 2026 com o apetite de quem entraria para ser competitivo em todas as frentes da temporada 2026.
A abertura da janela de transferências foi pautada por uma demonstração de força financeira. A gestão da SAF abriu os cofres e investiu R$ 176 milhões apenas na contratação do meio-campista Gerson — estabelecendo a marca de segunda transferência mais cara de toda a história do futebol brasileiro.
A necessidade de corrigir a rota tática no meio do ano forçou o Cruzeiro a voltar ao mercado. Três jogadores chegaram sob a modalidade de empréstimo, com João Costa gerando um custo direto de cessão temporária de R$ 7 milhões. Para suprir deficiências no plantel, a diretoria também fechou as contratações em definitivo de Gabriel Pec, Gabriel Rojas e Zé Lucas. Ao somar as movimentações das duas janelas de 2026, a operação comprometeu um total de R$ 303 milhões em reforços, divididos entre valores já quitados à vista e obrigações futuras assumidas em balanço, segundo o GE.
O investimento em CapEx (aquisição de direitos de atletas) gerou um efeito cascata imediato nas despesas operacionais do time. A folha salarial foi inflacionada pelas novas peças e pelas pesadas renovações contratuais de pilares do time, como Kaio Jorge e Matheus Pereira. Atualmente, o gasto mensal do departamento de futebol gira em torno de R$ 30 milhões, consolidando a folha do time mineiro como uma das mais onerosas de toda a América do Sul.
A conta do futebol foi agravada, ainda, pela instabilidade executiva. O fluxo de caixa precisou suportar os custos da quebra de contrato com o técnico Tite e, em seguida, o desembolso de aproximadamente R$ 15 milhões para viabilizar a contratação do português Artur Jorge, que tinha vínculo ativo com o Al Rayyan, do Catar.
Embora o discurso voltado aos torcedores fosse de briga por todas as taças, o orçamento da SAF operava ancorado em metas de viabilidade mais realistas. Contudo, nem mesmo esse cenário base foi alcançado.
Na Copa do Brasil, o plano de negócios exigia a presença da equipe no mínimo nas semifinais. O revés diante do Atlético-MG nas quartas de final custou caro: o clube deixou de embolsar R$ 9 milhões em premiações diretas — o prejuízo mínimo do clássico. Caso superasse o Galo e avançasse até a grande decisão, o Cruzeiro garantiria pelo menos mais R$ 34 milhões (prêmio pago ao vice-campeão) ou até R$ 78 milhões, caso fosse campeão.
O cenário de frustração corporativa se repetiu no palco internacional. Na Libertadores da América, a expectativa orçamentária também mirava a fase semifinal. O clube mineiro viu evaporarem cerca de R$ 20 milhões previstos em cotas de TV e bônus de performance, encerrando o torneio com um prêmio acumulado de "apenas" R$ 16,5 milhões.
No fechamento das contas de 2026, a única meta esportiva efetivamente cumprida foi a conquista do Campeonato Mineiro, um torneio regional que, ironicamente, não oferece nenhuma compensação financeira milionária ao seu campeão.