O ex-general bósnio-sérvio Ratko Mladic, condenado à prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia. (Wikimedia Commons) (Wikimedia Commons)
Redator na Exame
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 16h35.
O clássico entre Estrela Vermelha e Partizan, conhecido como o Derby Eterno e considerado o principal jogo do futebol sérvio, terminou marcado por homenagens a Ratko Mladic. O ex-general bósnio-sérvio faleceu no final de agosto, aos 84 anos, enquanto cumpria pena perpétua na unidade de detenção das Nações Unidas em Haia, nos Países Baixos. Ele acumulava condenações por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante os conflitos balcânicos na década de 1990.
Durante o minuto de silêncio realizado antes do início da partida no Estádio Rajko Mitic, os ultras do Estrela Vermelha, agrupados sob a facção Delije, exibiram um bandeirão gigante retratando Mladic com a inscrição "Direção Potocari". A frase faz referência direta às ordens emitidas pelo militar em 1995, antes da entrada de suas tropas em Srebrenica, na Bósnia. Naquele episódio, mais de 8 mil homens e adolescentes bósnios muçulmanos foram executados e enterrados em valas comuns, ato classificado pelo tribunal internacional como um dos crimes mais hediondos da história recente.
O envolvimento do clube com a figura do ex-general não se limitou às arquibancadas. O Estrela Vermelha publicou registros em suas redes sociais contendo emojis de saudação durante o protocolo de silêncio e, dias depois, compartilhou a imagem de um mural com a boina militar de Mladic coincidente com a data do sepultamento em Belgrado. O funeral contou com a presença de milhares de pessoas, cortejo nas ruas da capital sérvia e participação de membros do exército nacional, gerando críticas de autoridades internacionais que condenaram as honrarias prestadas ao criminoso de guerra.
Esta não foi a primeira vez que a torcida do clube sérvio utilizou partidas de futebol para exaltar Mladic. No final de agosto, durante um confronto válido pelos playoffs da Liga Europa contra o Viktoria Plzen, torcedores exibiram faixas com os dizeres "Geral, glória eterna e obrigado", acompanhadas de cânticos em honra ao ex-general.
Como desdobramento daquele episódio, a UEFA abriu investigação disciplinar e aplicou multas ao Estrela Vermelha no valor total de 98.250 euros, além de proibir a venda de ingressos para a próxima partida da equipe como visitante em competições continentais. Contudo, os órgãos disciplinares do futebol europeu possuem jurisdição limitada a torneios oficiais da entidade, deixando sob a responsabilidade da federação local de futebol a apuração de condutas ocorridas exclusivamente em âmbito doméstico.
Tanto o Estrela Vermelha quanto o rival Partizan mantêm laços históricos estreitos com estruturas militares. Nas dependências externas do estádio do Estrela Vermelha, um tanque de guerra real permanece estacionado permanentemente nas proximidades das catracas utilizadas pelas principais facções de torcedores organizados.
A postura adotada pela diretoria do clube ao replicar conteúdos alusivos a Mladic em canais oficiais de comunicação provocou reações severas de organizações de direitos humanos e memoriais de vítimas de conflitos. O Centro Memorial de Srebrenica emitiu comunicados públicos criticando a tolerância institucional com manifestações de apologia ao genocídio. Segundo entidades locais e observadores internacionais, a validação de crimes de guerra por meio de símbolos esportivos transcende o comportamento isolado de torcedores radicais, refletindo a leniência de dirigentes diante de pautas ultranacionalistas.
Enquanto autoridades políticas dos Estados Unidos e da Europa emitiram notas conjuntas exigindo o fim de homenagens estatais ao ex-general, o silêncio predominante das entidades esportivas locais diante dos episódios recentes escancara a influência duradoura do extremismo político nas estruturas do esporte profissional na região dos Bálcãs.