Pentacampeã mundial e associada ao chamado "futebol arte", a Seleção se tornou uma referência para torcedores de países sem tradição ou protagonismo internacional na modalidade (CHANDAN KHANNA/AFP)
Repórter
Publicado em 24 de setembro de 2026 às 14h58.
A paixão pela Seleção Brasileira continua atravessando fronteiras, especialmente em países com pouca tradição no futebol internacional. O fenômeno ganhou destaque durante a Copa do Mundo de 2026, quando imagens de milhares de torcedores na Índia comemorando gols do Brasil viralizaram nas redes sociais. A mobilização foi tão expressiva que a CBF confirmou para outubro o primeiro amistoso da história da equipe em território indiano.
Em cidades como Kerala e Calcutá, ruas foram decoradas com as cores verde e amarela, enquanto enormes painéis e homenagens a jogadores como Vinícius Júnior, Neymar e ao técnico Carlo Ancelotti chamaram a atenção durante o Mundial. Mesmo sem uma seleção classificada para a competição, a Índia consolidou-se como um dos maiores mercados internacionais de fãs do futebol brasileiro.
O interesse pelo Brasil também apareceu nos dados digitais. Durante a Copa do Mundo, a Seleção liderou as buscas entre os países que não disputavam o torneio, superando Argentina e Portugal. Além da Índia, países como Jamaica, Guatemala, Bangladesh, Nepal, Vietnã e Líbano registraram elevado interesse pelo time brasileiro.
Especialistas apontam que o fenômeno está ligado ao papel histórico do Brasil no imaginário esportivo mundial. Pentacampeã mundial e associada ao chamado "futebol arte", a Seleção se tornou uma referência para torcedores de países sem tradição ou protagonismo internacional na modalidade. Em muitas dessas nações, o Brasil é adotado como uma espécie de segunda seleção nacional.
"Fomos por muitas décadas os 'super-herois' de várias nações dos continentes mais pobres. Os periféricos, miscigenados, que venciam seus colonizadores. Infelizmente ignoramos a maior parte deles, nos tornamos mais pobres do que varios deles, e já nao conseguimos vencer os europeus, mesmo que do segundo escalão. Que no processo de reformulação da nossa confederacao, esse Soft Power nao seja ignorado", explica Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa que gerencia a carreira de centenas de atletas.
Um dos exemplos mais emblemáticos é Bangladesh. Mesmo sem relevância no cenário futebolístico global, o país reúne milhões de admiradores da equipe brasileira. Durante grandes torneios, ruas, bairros e veículos costumam ser decorados com as cores da Seleção, transformando competições internacionais em grandes manifestações de apoio ao Brasil.
Para profissionais de marketing esportivo, essa conexão vai além dos resultados em campo. O vínculo foi construído ao longo de décadas por meio de ídolos históricos, títulos mundiais, estilo de jogo e identificação cultural com países em desenvolvimento da Ásia, África e Caribe. Isso cria oportunidades para a internacionalização da marca da Seleção e para a aproximação com novos mercados consumidores.
O fortalecimento dessa estratégia também contribuiu para o crescimento digital da equipe. Em 2026, o Brasil ultrapassou Portugal e assumiu a liderança entre as seleções com mais seguidores no Instagram. O perfil brasileiro alcançou cerca de 27 milhões de seguidores, impulsionado tanto pela mobilização internacional durante a Copa quanto pela decisão da CBF de substituir a identificação "@cbf_futebol" por "@brasil", tornando a conta mais acessível para públicos estrangeiros.
A aproximação com mercados como a Índia também é vista como uma oportunidade para expandir o futebol feminino. Estudos do setor indicam crescimento acelerado da modalidade nos próximos anos, especialmente em países com grandes populações e potencial de consumo esportivo, como Índia, China e Brasil.
Na avaliação de especialistas, a força global da Seleção Brasileira é resultado de um patrimônio construído ao longo de gerações. Mesmo sem conquistar uma Copa do Mundo desde 2002, o Brasil continua sendo uma das equipes mais admiradas do planeta, capaz de mobilizar milhões de torcedores em países sem expressão futebolística e transformar essa popularidade em audiência, engajamento e oportunidades de negócios para a CBF.
"A Seleção Brasileira é sinônimo do futebol bem-jogado e de vitórias ao redor do mundo. Esses elementos geram conexão com o público no exterior e estimulam a torcida pelo país. Saber estimular essa ligação e gerar ações que promovam engajamento é fundamental para converter esses fãs em consumidores. A disputa de um jogo na Índia, pela primeira vez na história, é um movimento que segue essa linha", analisa Robson Oliveira, sócio-fundador e presidente da FutebolCard, plataforma que faz gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor.
"O Brasil ocupa um espaço muito particular no imaginário do futebol mundial. Em mercados onde a seleção local não participa das grandes competições ou não possui histórico de protagonismo, o torcedor busca uma equipe que represente espetáculo, identidade e tradição. A Seleção Brasileira continua sendo uma das principais portas de entrada para o futebol internacional nesses países, com uma base de torcedores extremamente fiel que mantém esse vínculo independentemente dos resultados em campo", comenta Alexandre Vasconcellos, diretor regional da Flashscore no Brasil. com experiência em marketing esportivo, comunicação, inovação e ESG no mundo dos esportes.