Repórter
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 18h59.
Após anos figurando entre as ligas que mais investiam em reforços no futebol mundial, a Rússia deixou de ocupar posição de destaque nas janelas de transferências internacionais. O cenário é consequência do isolamento político e econômico enfrentado pelo país desde o início da guerra na Ucrânia, que resultou em sanções internacionais e na exclusão dos clubes russos das principais competições organizadas pela UEFA.
Sem a possibilidade de disputar torneios como a Champions League e longe das premiações em euro que impulsionavam os cofres das equipes, o futebol russo viu seu poder de investimento diminuir consideravelmente. A desvalorização do rublo e as restrições ao sistema financeiro internacional também reduziram a capacidade de aporte dos tradicionais financiadores dos clubes, forçando uma revisão nos orçamentos e nas estratégias de mercado.
Diante desse novo contexto, as equipes russas passaram a direcionar suas atenções para mercados considerados mais acessíveis, e a América do Sul se transformou no principal alvo. Dos 161 jogadores estrangeiros atualmente presentes nos 16 clubes da Premier League Russa, 66 são sul-americanos. O continente supera a Europa, que conta com 52 representantes, enquanto a África soma 27 atletas, a Ásia tem nove e a América do Norte e Central, sete. Entre todas as nacionalidades, os brasileiros lideram com 35 jogadores.
Para Rui Costa, executivo de futebol com passagens por clubes como São Paulo, Grêmio, Atlético-MG, Chapecoense e Athletico-PR, a preferência pelo mercado sul-americano segue uma lógica financeira bastante clara.
Segundo o dirigente, os clubes russos encontram na América do Sul atletas competitivos por valores inferiores aos praticados nos grandes centros europeus. Ao mesmo tempo, continuam capazes de oferecer salários e condições financeiras superiores às disponíveis em boa parte dos clubes do continente, tornando o mercado atraente para ambas as partes.
Na avaliação de Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, a dificuldade de contratar jogadores que atuam na Europa também contribuiu para o aumento da presença sul-americana no país.
O especialista destaca que, entre os mercados alternativos disponíveis, os atletas da América do Sul continuam sendo os mais valorizados pelos clubes russos, o que ajuda a manter aberto um importante canal de investimentos para a região.
A redução do interesse por jogadores estabelecidos no futebol europeu está ligada a fatores como pressões políticas, restrições bancárias e à resistência de muitos atletas ocidentais em atuar em um país envolvido em conflito. Diante desse cenário, os clubes russos encontraram na América do Sul uma alternativa para preservar o nível técnico de suas competições.
Para Wagner Leitzke, especialista em desenvolvimento de negócios da agência End to End, o caso russo revela uma transformação maior na geopolítica do futebol mundial. Segundo ele, mercados que perdem acesso aos grandes centros passam a construir novas cadeias de valor, e a América do Sul deixa de atuar apenas como exportadora de talentos para assumir um papel estratégico no cenário internacional.
A preferência russa também é explicada pela facilidade nas negociações. Diferentemente do que acontece em parte da Europa Ocidental, clubes e federações sul-americanas não adotam os mesmos níveis de restrições comerciais envolvendo o mercado russo, o que facilita a concretização de transferências.
Pedro Weber, especialista esportivo e CEO da NextPlay, avalia que a atual dinâmica é resultado de uma combinação entre oferta e demanda. Enquanto os clubes russos buscam talentos em mercados mais acessíveis, jogadores sul-americanos encontram oportunidades de crescimento financeiro e profissional em uma liga que continua movimentando recursos mesmo diante das limitações impostas pelas sanções internacionais.
Além dos salários normalmente mais altos do que os praticados em seus países de origem, muitos jovens atletas enxergam a Rússia como uma oportunidade de projeção internacional e uma possível ponte para outras ligas do continente europeu no futuro.
Outro fator que ajuda a sustentar esse movimento é o histórico bem-sucedido de sul-americanos no país. Ídolos como Hulk e Vagner Love construíram carreiras marcantes no futebol russo e fortaleceram a confiança dos dirigentes locais na capacidade de adaptação dos atletas da região.
Na visão de Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy, o jogador sul-americano possui tradição de adaptação a diferentes culturas e mercados. Para ele, a ampliação da busca por atletas do continente é um caminho natural para os clubes russos diante das dificuldades de acesso a determinados perfis do mercado europeu.
Além disso, a presença de grupos já consolidados de brasileiros e outros sul-americanos nos elencos facilita a integração dos recém-chegados, reduzindo os impactos das barreiras linguísticas, culturais e climáticas.
Para Veridiano Pinheiro, CEO da FutPro Expo, a Rússia passa atualmente um período de baixa relevância no cenário internacional. Segundo ele, as punições esportivas retiraram dos clubes uma das principais plataformas de exposição global e também reduziram receitas importantes ligadas às competições continentais.
Mesmo assim, os números mostram que o país segue ativo no mercado de transferências. Impedidos de competir em igualdade com os grandes centros europeus, os clubes russos transformaram as limitações atuais em uma estratégia de recrutamento voltada para a América do Sul, consolidando a região como sua principal fonte de reforços e talentos para o futuro.