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Festejado por famosos e poderosos, Pelé inventou o jogador celebridade

O maior jogador de todos os tempos esteve próximo de presidentes, papas, artistas e estadistas. Se Cristiano Ronaldo hoje é a pessoa mais famosa do mundo, isso se deve à Pelé

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 (Bettmann/Getty Images)

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Ivan Padilla

Publicado em 29 de dezembro de 2022, 16h00.

Última atualização em 29 de dezembro de 2022, 17h47.

Pelé era esperado com muita ansiedade naquele dia chuvoso de março de 2019, no hotel Lutetia, no sexto arrondissement, à esquerda do Rio Sena, em Paris. O rei do futebol faria naquele dia uma aparição ao lado do jovem jogador francês M’Bappé, em uma ação publicitária para a marca de relojoaria Hublot. Um evento presencial com Pelé é sempre um grande acontecimento.

Sempre presente nas atuações em campo, Pelé, porém, pouco apareceu naquela vez. Sobre um pequeno palco, uma cortina preta se abriu e lá estava o craque, sentado, distante dos cerca de 120 convidados. Fez um discurso breve, seguido de M’Bappé, e a cortina voltou a se fechar. Os 120 convidados, entre jornalistas e executivos da Louis Vuitton, conglomerado do qual a Hublot faz parte, esperavam poder se aproximar, falar com ele, tirar selfies. Não foi o que aconteceu.

Nenhum convidado viu Pelé chegar ou sair do evento, a seu pedido. O maior jogador de futebol da história não queria que o público o visse se locomovendo na cadeira de rodas, uma necessidade depois das três cirurgias no quadril nos últimos dez anos. Naquela ocasião, só foi a Paris por exigência contratual. Nos últimos anos Pelé evitava participar de eventos públicos, como a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Um atleta de fundamentos perfeitos

Parece ironia com um dos atletas mais completos que o futebol já teve. Pelé executava todos os fundamentos com perfeição. Tinha excelente arrancada, resistência, finalizava com maestria com as duas pernas, cabeceava de olhos abertos. Até sua bicicleta foi considerada mecanicamente perfeita em um estudo do departamento de física da USP. Segundo relatos dos companheiros do Santos e da seleção brasileira, nunca se acomodou no incomparável talento. Era o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos.

Sergio Mendes, Pelé e Elton John

Sergio Mendes, Pelé e Elton John: encontro no gramado (Richard Creamer/Getty Images)

Terror de zagueiros como Giovanni Trapattoni, do Milan, que pouco fez ao tentar marcá-lo na final do Mundial de Clubes de 1963, Pelé não mostrou vigor físico nos últimos anos. Além das intervenções no quadril, ele precisou tirar cálculos renais e uretrais, teve infecção urinária, operou a próstata e a coluna lombar.

A última e determinante derrota para a saúde foi a retirada de um tumor no cólon direito no ano passado.

Pelé foi o maior de todos os jogadores. Se o futebol permite subjetividades, o placar só admite certezas. Ninguém venceu tanto. Foram 1.281 gols em 1.363 jogos, três Copas do Mundo, dois títulos mundiais Interclubes. Talvez isso, a vitória sem margem de dúvida, tenha lhe dado prestígio até perante os americanos, um público mais afeito à bola oval, para o qual um empate jamais será um resultado lógico. Muito menos satisfatório.

O jogador celebridade

Na prorrogação da carreira, depois de ter feito sua despedida oficial dos campos pelo Santos e pela seleção brasileira, Pelé ainda jogou três anos no Cosmos de Nova York. E lá ele foi mais rei do que nunca. Nas noites do Studio 54, no prédio de escritórios em que era vizinho de Robert Redford, no estúdio de Andy Warhol, no sem-número de eventos, Pelé inventou o jogador celebridade.

Pelé conheceu papas, Brigitte Bardot, Nelson Mandela, Frank Sinatra, Elton John, Rod Stewart, Jacqueline Kennedy. Pense em alguma personalidade de alcance entre os anos 1970 e 1990. Muito provavelmente você encontrará foto dela com Pelé. Ao se encontrarem, Ronald Reagan teria dito: “Muito prazer, eu sou o presidente dos Estados Unidos. Mas você não precisa se apresentar, todo mundo sabe quem você é.” A outro presidente americano, Gerald Ford, ensinou a fazer embaixadinhas em um evento de gala.

Rod Stewart e Pelé

Rod Stewart e Pelé: showbizz e futebol (Steve Morley/Referns/Getty Images)

Pelé aprendeu inglês, parecia tão à vontade em um smoking quanto com a camisa amarela, mostrou ao mundo que boleiros podiam ser festejados como músicos e estrelas de Hollywood. Da mesma forma que Muhammad Ali com o boxe. Se hoje jogadores de futebol são idolatrados, se Cristiano Ronaldo é a pessoa com maior número de seguidores do Instagram no mundo, mais do que qualquer Kardashian, não é exagero dar o crédito a Pelé.

Holofotes na chuteira Puma

Neste mês, uma campanha da Louis Vuitton foi a sensação da blogosfera. Em foto de Annie Leibovitz, a peça publicitária mostra Lionel Messi e Cristiano Ronaldo em uma partida de xadrez, com o tabuleiro apoiado em malas da grife francesa. É quase uma continuação de outra campanha de 2011, da mesma marca, com a mesma fotógrafa, a mesma luz, com Pelé, Maradona e Zidane jogando pebolim.

O rei do futebol pode ser considerado um precursor do marketing esportivo. É célebre a história com ares de anedota de que, na final da Copa de 1970, pouco antes do início da partida, ele se agachou para amarrar a chuteira. Foi um truque para chamar a atenção das câmeras para o calçado da Puma, com o qual tinha fechado acordo.

O ocorrido fica ainda mais divertido com a revelação do craque Tostão, seu companheiro de ataque naquela seleção. Todo o resto do time jogava com a chuteira da Adidas. Pelé também preferia o calçado da concorrente. Ele teria pedido então ao roupeiro do time que pintasse as clássicas três listras de sua chuteira usual para ficar parecida com a da Puma.

Pelé foi garoto-propaganda de café, imobiliária, pilhas. Emprestou seu prestígio para Casas Bahia, Atari, Honda, biotônico Fontoura, Viagra. Mais recentemente, apareceu batendo um papo com Mark Zuckerberg nas redes sociais. O motivo: promover o meio de pagamentos por WhatsApp.

Richard Nixon e Pelé

Richard Nixon e Pelé: o poder da bola (Bettmann/Getty Images)

Carreira gerenciada por empresa americana

Desde 2009 sua carreira era gerenciada pela empresa americana Sports 10. Toda exposição, de posts no Instagram a eventos publicitarios, era decidida pelo executivo Joe Fraga, um veterano da indústria do marketing que já trabalhou com Bill Clinton. Outro ponto de apoio era o amigo Pepito Fornos, que o ajudou no gerenciamento da carreira nas últimas três décadas. Entrevistei Pelé cinco vezes nas últimas duas décadas, para quatro veículos diferentes. Todas foram conversas longas, com sessões de foto. Só consegui graças à generosidade de Pepito.

Qualquer comparação com o eterno rival Diego Maradona só encontra explicação na paixão. Uma eventual derrota só aparece em um campo: o da idolatria em seu próprio país. Pelé divide opiniões. Segundo seus críticos, por três razões principais: falta de posicionamento no combate ao racismo, as polêmicas declarações de que brasileiro não sabe votar e a tumultuada relação com a filha Sandra Regina.

De todos os motivos, o suposto reconhecimento tardio da filha Sandra é o principal ponto dos ataques. Cobra-se de Pelé a mesma perfeição na vida pessoal do que no campo. Fora dos estádios, Pelé era um homem comum. Nunca aparentou falsa modéstia, nunca deixou de reconhecer sua superioridade. Mas, religioso, atribuía a maestria a um dom de Deus. O mito Pelé era também uma pessoa normal, que poderia ter um nome ordinário, por exemplo, Edson Arantes do Nascimento, sujeito a erros, imperfeições, indecisões.

Novo Pelé? Jamais haverá

Pelé passou anos respondendo a perguntas de quem seria o novo Pelé. Os eleitos foram de jogadores superestimados como Robinho e Ronaldinho Gaúcho a estrangeiros como Messi e o próprio Cristiano Ronaldo. Neymar estampou a capa da revista Time com essa chamada, o novo Pelé. O próprio nunca deu muita bola a essas comparações. Novo Pelé? Jamais haverá.

O único a quem Pelé publicamente considerou a possibilidade de ser um novo Pelé foi M’Bappé, seu companheiro de campanha da Hublot, em entrevista à revista France Football. O jovem francês tem origem humilde, é ético, ativista, apoiador de causas sociais. Pode ser um golpe publicitário, já que a declaração foi feita no período da campanha da Hublot. Ou uma tentativa de redenção, uma forma de passar o legado e assim viver na eternidade, desnecessária. Jamais haverá um novo Pelé.

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