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O segredo do suco de cereja: como a nova febre da Premier League acelera a recuperação dos atletas

Adotado por grandes clubes e visto recentemente com craques na Premier League, o suco de cereja azeda virou o suplemento de elite para recuperação muscular.

Suco de cereja virou suplemente de elite na recuperação muscular dos jogadores da Premier League. (Adrian Dennis/AFP) (Adrian Dennis/AFP)

Suco de cereja virou suplemente de elite na recuperação muscular dos jogadores da Premier League. (Adrian Dennis/AFP) (Adrian Dennis/AFP)

Fernando Olivieri
Fernando Olivieri

Redator na Exame

Publicado em 9 de setembro de 2026 às 16h26.

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Durante a movimentada rodada de abertura da Premier League, uma cena curiosa chamou a atenção de analistas e torcedores atentos no banco de reservas. Substituído na partida em que o Liverpool empatou por 2 a 2 contra o Newcastle United, o meio-campista alemão Florian Wirtz sentou-se no gramado e sacou um cantinho contendo um líquido de coloração vermelha escura. Longe de ser uma excentricidade de bastidores, o misterioso líquido revelou-se ser suco de cereja — o mais novo e cobiçado suplemento de alta performance no futebol de elite.

Embora o uso de compostos à base de cereja já seja figurinha carimbada há vários anos em outras modalidades de grande desgaste físico e exigência de resistência, com destaque para o ciclismo profissional — onde manchas vermelhas nos uniformes dos atletas ao término das etapas do Tour de France são comuns —, a tendência encontrou finalmente seu caminho rumo ao exigente ecossistema do futebol inglês. O adversário de Wirtz naquele mesmo dia, o jovem talento holandês do Newcastle Sean Steur, também figura na lista crescente de adeptos da substância, que hoje é consumida pela esmagadora maioria dos principais clubes do topo da pirâmide europeia.

Do ponto de vista científico e bioquímico, o apelo do suco de cereja reside na sua eficácia direcionada contra a inflamação muscular induzida pelo exercício físico intenso, um processo fisiológico conhecido como estresse oxidativo. Essa resposta do organismo apresenta dois lados distintos: por um lado, as microlesões nas fibras musculares funcionam como gatilho para o corpo reconstruir e desenvolver mitocôndrias celulares, elevando a capacidade de resistência do atleta; por outro, geram dores e fadiga que prejudicam o rendimento imediato, especialmente em calendários repletos de partidas consecutivas e viagens internacionais.

A ciência por trás da cereja Montmorency

A revolução no uso esportivo começou a tomar forma em 2010, quando pesquisadores da Universidade de Northumbria descobriram que uma espécie específica de cerejas azedas, a variedade Montmorency, possui propriedades altamente antioxidantes devido aos elevados índices de polifenóis, com destaque para uma classe específica denominada antocianinas. Na prática, o consumo direcionado desse tipo de fruto atenua os impactos negativos do estresse oxidativo sem comprometer totalmente as adaptações biológicas de longo prazo.

Especialistas em nutrição esportiva explicam que a estratégia de consumo exige rigor técnico. O suplemento não deve ser ingerido de forma indiscriminada no dia a dia de treinamentos básicos — fase em que o corpo precisa do estresse natural para evoluir —, mas sim estrategicamente administrado durante os picos do calendário competitivo, combinando os dias de partidas e os intervalos de recuperação.

"Uma pergunta que você sempre precisa se fazer é: qual é o objetivo do atleta?", questiona Julie Hardeel, nutricionista da fabricante de suplementos Amacx, empresa que assessora diversas equipes profissionais de futebol. "Trata-se de adaptação de longo prazo nos treinos ou de recuperar o mais rápido possível? Quando você usa produtos à base de cereja, não é um suplemento diário, mas algo utilizado de forma estratégica. Na fase de pico da temporada, com múltiplos jogos semanais e deveres internacionais, é fundamental tê-lo tanto no dia do jogo quanto nos dias intermediários", pontua.

O mercado bilionário e novas inovações

A consolidação da tendência abriu espaço para o surgimento de marcas especializadas ao longo dos últimos 15 anos, incluindo empresas como Science in Sport (SiS), 226ERS, Healthspan Elite, Etixx e Enervit. O fornecimento da matéria-prima de alta qualidade transformou-se em um negócio comercialmente sensível, com executivos monitorando safras agrícolas e variações climáticas pela Europa para garantir o suprimento máximo de polifenóis extraídos das cobiçadas cerejas Montmorency.

Equipes de ponta da Premier League, além de gigantes da Espanha, da Eredivisie e do Oriente Médio, mantêm rotinas de consultoria direta com os fabricantes. O salto de popularidade ganhou impulso decisivo quando profissionais de comissões técnicas vindos do ciclismo de elite passaram a liderar departamentos de performance em clubes de futebol, trazendo a cultura da suplementação avançada para os gramados.

De olho na praticidade e no conforto dos jogadores em viagens transcontinentais ou partidas noturnas tardias, a indústria já desenvolveu variações inovadoras, como gomas mastigáveis com os mesmos princípios ativos e teores naturais de melatonina presentes no suco. A substância, além de acelerar a recuperação pós-jogo, auxilia na indução e na qualidade do sono de atletas submetidos a exaustivos fusos horários. A introdução dessas facilidades demonstra que, no futebol moderno, a busca por vantagem competitiva ocorre nos mínimos detalhes da ciência esportiva.

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