Esporte

O esporte virou manutenção: a estratégia da Speedo na era das canetas emagrecedoras

O avanço das canetas emagrecedoras acelerou a entrada de novos consumidores no esporte e ajudou a impulsionar em 18% as vendas de vestuário da Speedo, que agora reposiciona a marca como plataforma de lifestyle e bem-estar

Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo Multisport: "A caneta abre a porta, mas o esporte sustenta a transformação" (Speedo/Divulgação)

Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo Multisport: "A caneta abre a porta, mas o esporte sustenta a transformação" (Speedo/Divulgação)

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 09h48.

Última atualização em 26 de fevereiro de 2026 às 09h50.

A explosão das chamadas "canetas emagrecedoras" criou um novo ponto de entrada para o mercado fitness no Brasil. O que começou como um tratamento médico para obesidade e controle metabólico evoluiu para um fenômeno de comportamento. Pessoas que passaram por uma transformação corporal acelerada agora buscam consolidar o resultado. E isso tem levado milhares delas para academias, parques, piscinas e quadras.

Para a Speedo Multisport, tradicionalmente associada ao universo aquático, essa mudança deixou de ser apenas observação de tendência e passou a influenciar decisões de produto, grade e posicionamento. Em 2025, a empresa registrou crescimento de 18% na categoria de vestuário esportivo. Internamente, os dados revelam um movimento ainda mais específico: aumento de 23% nas vendas de peças em tamanhos menores.

Parte relevante dos consumidores reduziu duas numerações, migrando, por exemplo, do GG para o M. "Estamos recebendo no esporte pessoas que transformaram o corpo em poucos meses e agora precisam consolidar essa mudança por meio da atividade física", afirma Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo. "Isso exige produtos que acompanhem a evolução corporal, oferecendo conforto, ajuste e liberdade de movimento em cada fase."

O fenômeno se encaixa em um mercado já robusto. O setor esportivo brasileiro deve movimentar cerca de R$ 30 bilhões em 2025. São mais de 30 mil academias em operação e aproximadamente 10 milhões de clientes ativos. O segmento de vestuário esportivo, sozinho, gira algo próximo de R$ 25 bilhões. A chegada de um novo contingente de consumidores, impulsionados por medicamentos como Mounjaro e Ozempic, altera a dinâmica de entrada nesse ecossistema.

Segundo Jalonetsky, o medicamento funciona como ferramenta de partida. A manutenção dos resultados depende de rotina, disciplina e prática esportiva. Esse segundo estágio é onde as marcas disputam espaço. "A caneta abre a porta. O esporte sustenta o processo", diz.

A leitura estratégica da Speedo parte da premissa de que o comportamento do consumidor mudou. A busca por estética deu lugar a uma agenda mais ampla de longevidade e funcionalidade. O CEO descreve esse momento como uma transição estrutural, que ultrapassa o ciclo de tendências passageiras. "O consumidor passou a priorizar bem-estar, rotina ativa e conveniência na escolha das marcas.

Essa mudança tem implicações diretas na indústria. A empresa já revisa sua grade de produção para refletir a redução média de tamanhos. Ajusta modelagens, investe em tecidos com maior adaptação corporal e amplia linhas voltadas a treinos funcionais e uso cotidiano. A roupa esportiva deixou de ficar restrita à prática específica e passou a ocupar o dia inteiro, do trabalho ao lazer.

Adaptação para crescer

Internamente, a companhia trabalha com um conceito que chama de movimento anfíbio. A marca nasceu e lidera com cerca de 80% de participação nos esportes aquáticos, mas vem expandindo sua presença para além das piscinas. O portfólio hoje inclui suplementação, equipamentos de academia, óculos, acessórios e linhas lifestyle. A diversificação tornou-se pilar central para sustentar a meta de atingir R$ 500 milhões em faturamento até 2030.

"O consumidor mudou, e as empresas que não acompanham esse ritmo ficam para trás", afirma Jalonetsky. "A diversificação deixou de ser opcional e passou a ser parte central da estratégia para quem quer crescer em mercados cada vez mais competitivos."

A popularização das canetas também altera a lógica de consumo. Pesquisa interna da empresa indica que usuários desses medicamentos redirecionam parte do orçamento antes destinado a alimentos calóricos para categorias associadas a bem-estar e performance. O impacto é gradual, mas consistente.

Ao observar esse novo ciclo, a empresa aposta que o mercado fitness brasileiro está menos dependente de modismos e mais conectado a uma mudança de mentalidade. Se o corpo virou prioridade estratégica para o indivíduo, as marcas que orbitam esse universo precisam oferecer mais do que produto. Precisam entregar continuidade.

E, nesse contexto, a caneta pode ter sido apenas o gatilho.

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