Arrascaeta e Memphis, dois dos principais estrangeiros que atuam por aqui ((Foto: Sergio Lima / AFP via Getty Images))
Repórter
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 20h24.
Resumo: Os clubes das Séries A e B aprovaram uma mudança nas regras do Campeonato Brasileiro que reduzirá gradualmente o número de jogadores estrangeiros relacionados por partida. O limite atual de nove atletas cairá para oito em 2027 e seguirá diminuindo até chegar a cinco em 2030. A medida tem como objetivo ampliar o espaço para jogadores brasileiros, especialmente os jovens das categorias de base.
Os clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro aprovaram mudanças nas regras de inscrição de atletas que vão reduzir gradualmente a presença de jogadores estrangeiros nas partidas a partir de 2027.
A medida, aprovada em reunião da CBF, tem como objetivo ampliar o espaço para atletas formados no país, estimular a utilização de jovens das categorias de base e rejuvenescer os elencos do futebol nacional.
Atualmente, cada equipe pode relacionar até nove estrangeiros por jogo. Com a nova regra, esse limite será reduzido para oito atletas em 2027 e seguirá diminuindo de forma progressiva até chegar a cinco jogadores em 2030. A transição escalonada foi desenhada para evitar impactos imediatos nos contratos em vigor. Entre os clubes da elite, Bahia e Flamengo se manifestaram contrários à proposta.
Além da limitação de estrangeiros, o novo regulamento também criará exigências voltadas ao aproveitamento de atletas mais jovens. Já em 2027, os elencos inscritos para a competição deverão ter 50 jogadores, dos quais pelo menos 20 precisarão ter até 23 anos. A exigência será ampliada gradualmente até que metade das vagas seja obrigatoriamente destinada a atletas dessa faixa etária.
Para o técnico Roger Machado, a criação de mais espaço para jogadores brasileiros pode ser positiva, mas não representa uma solução isolada para o desenvolvimento de talentos.
Segundo o treinador, a revelação de atletas depende de fatores mais amplos, como investimento nas categorias de base, qualificação de profissionais, estrutura adequada e um processo eficiente de transição para o futebol profissional. Roger também defende que o desenvolvimento dos jogadores deve ser pensado além dos clubes, envolvendo escolinhas, competições amadoras e iniciativas de organização do futebol de base.
Na avaliação de Luciana Miranda, diretora financeira do Inter de Minas, clube detentor do Certificado de Clube Formador da CBF, a medida pode contribuir para ampliar as oportunidades de jovens atletas no cenário profissional.
Ela ressalta que o mais importante é a criação de caminhos que permitam aos jogadores em formação ganhar experiência em alto nível, destacando que ambientes estruturados, com investimento e planejamento, tendem a acelerar o amadurecimento esportivo dos atletas.
O especialista em finanças do futebol Moises Assayag também vê a decisão de forma favorável. Para ele, eventuais perdas momentâneas de competitividade tendem a ser compensadas no médio prazo por um processo mais eficiente de formação de atletas, capaz de gerar jogadores mais preparados e com maior tempo de jogo.
As mudanças surgem a partir de um diagnóstico elaborado pela CBF Academy sobre o perfil etário do Campeonato Brasileiro. Atualmente, a competição apresenta média de idade de 28,5 anos, índice considerado superior ao observado em importantes ligas europeias. O estudo aponta ainda que o aumento na contratação de estrangeiros mais experientes estaria reduzindo oportunidades para atletas em processo de formação e dificultando a renovação técnica do futebol brasileiro.
Nem todos os especialistas, porém, concordam com essa avaliação. Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil, considera que a redução do número de estrangeiros pode ter efeitos limitados caso não seja acompanhada por outras reformas estruturais.
Segundo ele, as principais ligas europeias possuem percentuais de atletas estrangeiros superiores aos registrados no Brasil e, mesmo assim, seguem revelando talentos para suas seleções nacionais. O executivo defende medidas complementares, como calendários mais sólidos para categorias de base e divisões inferiores, além de modelos semelhantes às equipes sub-23 e times B utilizados em países como Espanha e Inglaterra.
Apesar do recorde de estrangeiros registrado no Brasileirão, o campeonato brasileiro ainda figura entre as ligas que menos utilizam atletas nascidos fora do país. Enquanto a Premier League conta com cerca de 72% de estrangeiros, o percentual na Série A é de aproximadamente 25%.
Segundo dados do Transfermarkt, a Inglaterra lidera o ranking entre as principais ligas, seguida por Itália, Estados Unidos, França, Alemanha, Turquia, Espanha e Arábia Saudita. O Brasil aparece na sequência, à frente apenas da Argentina entre os principais mercados analisados.
Atualmente, os 20 clubes da Série A somam 168 jogadores estrangeiros em seus elencos, superando a marca anterior de 157 registrada em 2025. Além disso, o Brasileirão já contabilizou 182 estrangeiros utilizados ao longo da atual edição da competição, também estabelecendo novo recorde.
Entre os críticos da medida está Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil. Para o executivo, qualquer restrição à livre circulação de profissionais tende a produzir efeitos negativos no longo prazo.
Freitas argumenta que a limitação pode reduzir o intercâmbio de experiências, prejudicar clubes mais eficientes na prospecção de talentos e diminuir a competitividade do futebol brasileiro. Ele também rejeita a tese de que o aumento de estrangeiros tenha enfraquecido o desenvolvimento de jogadores nacionais, citando exemplos de países como Inglaterra, Portugal, Espanha e França, cujas seleções mantiveram evolução mesmo com elevadas taxas de atletas estrangeiros em suas ligas.
Entre os dirigentes favoráveis à mudança, Alexandre Mattos, executivo de futebol do Santos, afirma que a medida busca recuperar o papel histórico do Brasil como formador de jogadores. Segundo ele, o crescimento das contratações de jovens sul-americanos teria reduzido o espaço para atletas revelados nas categorias de base dos clubes brasileiros.
O presidente do Juventude, Fábio Pizzamiglio, destaca que a combinação entre a limitação de estrangeiros e o aumento da presença de atletas sub-23 pode fortalecer a formação de talentos e contribuir para uma seleção brasileira mais competitiva no futuro.
João Paulo Silva, presidente do Ceará, compartilha visão semelhante. Para o dirigente, a ampliação das oportunidades para jovens brasileiros pode gerar benefícios esportivos e financeiros aos clubes, reforçando a tradição nacional na revelação de atletas.
Já o presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, considera que o atual número de estrangeiros no futebol brasileiro é elevado. Na avaliação do dirigente, o novo limite permitirá uma utilização mais criteriosa dessas vagas, ao mesmo tempo em que estimulará investimentos no desenvolvimento de jogadores formados no país. Segundo ele, o sucesso da medida dependerá também da adoção de políticas que fortaleçam o trabalho das categorias de base.