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FutebolCard já movimenta R$ 300 milhões e mira R$ 1 bilhão com expansão na América Latina

Fundada há 20 anos, FutebolCard quer deixar de ser vista apenas como uma empresa de ingressos e usar dados de mais de 10 milhões de cadastros para gerar novas receitas para os clubes

Robson Oliveira, sócio-fundador e presidente da FutebolCard (Divulgação)

Robson Oliveira, sócio-fundador e presidente da FutebolCard (Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 16h44.

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Uma camisa de Garrincha usada em um amistoso da Seleção Brasileira em 1972, um exemplar de Falcão na Copa do Mundo de 1982 e uma peça vestida por Mário Sérgio na campanha invicta do Internacional no Campeonato Brasileiro de 1979 estão entre os itens guardados pelo empresário Robson Mello de Oliveira.

O acervo, com mais de 100 camisas, ajuda a explicar a relação do empreendedor de 59 anos com o futebol. Mas é outro tipo de coleção que hoje está no centro de seu negócio: uma base com mais de 10 milhões de cadastros de torcedores, construída ao longo de duas décadas de vendas de ingressos e operações em estádios.

Fundada por Oliveira há 20 anos, a FutebolCard movimenta mais de R$ 300 milhões por ano e gerencia serviços para mais de 25 clubes e arenas no Brasil. Ao longo de sua trajetória, a companhia afirma ter vendido mais de 150 milhões de ingressos e operado mais de 10 mil eventos.

Agora, a empresa tenta avançar para além da bilheteria. A estratégia é usar informações sobre a frequência, os hábitos de compra e o relacionamento dos torcedores com os clubes para ampliar a venda de ingressos, aumentar as adesões aos programas de sócio-torcedor e criar campanhas segmentadas.

“A gente não se considera mais uma empresa de ingressos. A FutebolCard hoje funciona como um ecossistema de futebol, no qual estamos conectando todas as pontas e pensando na jornada do torcedor”, afirma Oliveira, sócio-fundador da companhia, em entrevista à EXAME.

A mudança acompanha uma transformação na própria indústria do futebol. Se antes o ingresso representava apenas a receita obtida com a entrada no estádio, hoje cada venda pode gerar informações sobre quem é o torcedor, quando ele compra, com que frequência comparece aos jogos e em que momento deixa de se relacionar com o clube.

Do cartão na catraca à biometria facial

A ideia da FutebolCard surgiu no início dos anos 2000, quando a compra de ingressos pela internet ainda exigia que o torcedor retirasse uma entrada física antes da partida. Em alguns jogos, segundo Oliveira, as filas para retirar os bilhetes eram maiores do que aquelas formadas na entrada do estádio.

O empresário havia trabalhado na Fenasoft, feira de tecnologia realizada em São Paulo, e já atuava no desenvolvimento de sites quando imaginou um sistema no qual o próprio cartão de crédito poderia ser utilizado para acessar o estádio.

A proposta foi apresentada à Visa e deu origem a um projeto que permitia ao torcedor comprar o ingresso pela internet e usar o cartão da bandeira como meio de pagamento e de acesso.

“A meta no início da empresa era fazer a venda de ingressos utilizando o cartão. Foi uma inovação na época. A gente conseguiu implantar lugar marcado e criar uma experiência. Depois, com os clubes demandando novas necessidades, fomos desenvolvendo, customizando e aprendendo”, explica o empresário.

O primeiro clube atendido pela FutebolCard foi o Figueirense, em 2006. No ano seguinte, a empresa fechou um contrato com o Palmeiras. A companhia também passou a desenvolver projetos de bilheteria, programas de sócio-torcedor e sistemas de controle de acesso.

O celular posteriormente substituiu o cartão como uma das ferramentas de entrada nos estádios. Mais recentemente, a biometria facial ganhou espaço na operação, impulsionada pelas novas exigências de identificação do público.

Segundo Oliveira, a tecnologia tornou o acesso mais rápido e permitiu integrar o cadastro dos torcedores com sistemas públicos de segurança.

“Quando uma pessoa se cadastra, coloca seu documento e comprova que realmente é ela, conseguimos fazer as validações necessárias. A biometria trouxe agilidade ao processo e tende a melhorar ainda mais a operação”, afirma.

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Ingresso vira fonte de dados sobre o torcedor

A FutebolCard registra mais de 8 milhões de visualizações mensais em suas plataformas digitais. Os serviços oferecidos incluem aplicativos, sites, atendimento, venda de ingressos, gestão de sócio-torcedor, servidores, catracas, biometria e sistemas de acesso.

Os contratos variam de acordo com a necessidade de cada cliente. Em alguns casos, a companhia administra toda a operação de ingressos, sócios e entrada no estádio. Em outros, fornece apenas uma parte da infraestrutura ou o software utilizado no controle de acesso.

O modelo coloca a empresa em contato com diferentes etapas da jornada do torcedor. A FutebolCard consegue identificar, por exemplo, a frequência de comparecimento aos jogos, o horário da compra e da chegada ao estádio e, quando há lugar marcado, até as áreas preferidas pelo público.

“Quanto mais informação você tem, melhor consegue atender. Sabemos quando uma pessoa foi a quase todos os jogos e, dependendo do estádio, se ela gosta de sentar naquela cadeira, em qual horário compra o ingresso e quando chega. Com isso, os clubes conseguem dimensionar e criar experiências melhores”, afirma Oliveira.

A base da companhia ultrapassa 10 milhões de cadastros, segundo o empresário. Ele afirma que o tratamento dessas informações segue as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ocorre em conjunto com os clubes.

O desafio é transformar essa base em receita. Entre os públicos analisados estão torcedores que começaram um cadastro, mas não concluíram a adesão, antigos integrantes de programas de sócio-torcedor que podem ser recuperados e clientes com potencial para aumentar a frequência nos estádios.

A empresa também pretende aproximar marcas interessadas no esporte dos clubes presentes em seu ecossistema. A estratégia inclui desde ações nos acessos e telões dos estádios até ativações voltadas aos programas de sócio-torcedor.

“Muitas empresas acham que entrar no futebol exige pagar um valor absurdo, estampar a camisa ou se tornar patrocinadora. Mas existe uma série de oportunidades de ativação. A FutebolCard mudou seu posicionamento em 2026 para não ser apenas uma empresa de ingressos, mas uma geradora de negócios e conexões dentro do mercado de futebol”.

Meta é superar R$ 1 bilhão movimentado

A FutebolCard não divulgou seu faturamento, a participação de cada produto na receita nem o valor investido em inteligência artificial, dados e biometria. A empresa informa, porém, que movimenta atualmente mais de R$ 300 milhões por ano em suas plataformas.

A meta é superar R$ 1 bilhão em volume financeiro movimentado, indicador conhecido como GMV, nos próximos cinco anos. O avanço deverá vir da conquista de novos clientes, da oferta de mais serviços aos parceiros atuais e da expansão para outros esportes e mercados.

“Nosso objetivo é aumentar o faturamento da empresa e também ajudar os clubes a ampliar suas receitas. Estamos nos organizando para crescer nos próximos cinco anos e superar R$ 1 bilhão em GMV”, afirma Oliveira.

A companhia já operou eventos de modalidades como futsal, basquete, vôlei, skate, motocross, rodeio e padel, geralmente por meio de plataformas personalizadas nas quais a marca FutebolCard não aparece para o consumidor.

O próximo passo previsto no planejamento é uma entrada mais estruturada em outros esportes e na América Latina. A expansão internacional, no entanto, ainda está em fase de desenho e deverá ocorrer dentro do horizonte de cinco anos.

Enquanto prepara essa mudança, a FutebolCard tenta resolver um problema histórico do futebol brasileiro: clubes com milhões de torcedores, mas pouco conhecimento organizado sobre quem compra seus produtos, frequenta seus estádios ou abandona seus programas.

“Como podemos ajudar o clube a ter mais pessoas no estádio, conquistar mais sócios e organizar melhor sua base de dados? Esse é um dos principais direcionadores do que pensamos hoje”, declara Oliveira.

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