Torcedores no futebol alemão acompanham partida em estádio do país, onde o debate político e o ativismo nas arquibancadas ganharam proporções centrais. (Johannes Simon/ Getty Images)
Redator na Exame
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 15h39.
O futebol na Alemanha nunca esteve restrito apenas às quatro linhas. Diferente da dinâmica observada em ligas como a inglesa, onde a rivalidade costuma se limitar ao aspecto esportivo, o esporte alemão carrega um histórico profundo de conexões com a política. Nas últimas temporadas, no entanto, essa politização das arquibancadas atingiu um patamar crítico, impulsionado pelo avanço do extremismo de direita no país e pelo fortalecimento eleitoral do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que recentemente dominou votações cruciais em estados orientais. Os bastidores e desdobramentos desse cenário tenso foram detalhadamente esmiuçados em uma ampla reportagem publicada pelo portal The Athletic.
O reflexo desse avanço nas centrais de torcedores transita entre a resistência aberta de clubes alinhados a pautas progressistas e o clima de medo imposto por núcleos radicais. Um exemplo emblemático destacado na publicação ocorreu com Stefan R. (nome alterado por motivos de segurança), que, após fundar a "Seção da Diversidade" no Chemnitzer FC — clube situado a cerca de 240 quilômetros ao sul de Berlim — para promover mensagens cosmopolitas, passou a ser perseguido por extremistas ligados à cena local de artes marciais e hooligans. Ao deixar o estádio após uma partida da Copa da Alemanha, Stefan foi cercado por homens encapuzados que dispararam um aviso violento: "Se virmamos essa bandeira de novo, vamos atirar em você".
Casos como o de Stefan escancaram a influência desproporcional de pequenos grupos de radicais em certas equipes do antigo bloco oriental alemão. A atmosfera de intimidação gera uma cultura de silêncio entre torcedores moderados e membros de diretorias que evitam o confronto direto por receio de agressões físicas ou de prejuízos financeiros à reputação das marcas.
O panorama político das torcidas reflete as cicatrizes históricas e econômicas que ainda dividem o país. Enquanto clubes como o SV Babelsberg, baseado em Potsdam, assumem abertamente valores antifascistas, democráticos e de inclusão — abrigando iniciativas voltadas para refugiados, atletas autistas e campanhas contra a homofobia —, outras instituições sofrem com a penetração de correntes nacionalistas.
Historiadores e analistas apontam que as raízes desse descontentamento no lado oriental da Alemanha remontam ao período pós-reunificação, na década de 1990. Com a reestruturação econômica imposta por políticos ocidentais, o fechamento massivo de indústrias estatais deixou centenas de milhares de trabalhadores sem emprego pela primeira vez em décadas. A frustração social acumulada gerou um sentimento duradouro de desconfiança em relação ao governo federal, terreno fértil que mais tarde seria capitalizado por discursos nacionalistas e xenófobos.
Esse descontentamento econômico também se traduziu em disparidades estruturais no esporte. Apenas duas equipes do antigo leste foram integradas à elite da Bundesliga quando os campeonatos se fundiram em 1991, e a escassez de grandes investimentos perpetuou um abismo competitivo que afeta a sustentabilidade dos clubes da região.
Em contraste com os redutos de tensão no Leste, distritos urbanos de Berlim como Kreuzberg demonstram como o futebol pode atuar como ferramenta de integração social. O Turkiyemspor, fundado no final dos anos 1970 para atender à comunidade turca local, transformou-se em um símbolo multicultural após enfrentar episódios severos de violência e racismo nos gramados durante o processo de reunificação alemã. Atualmente gerido com forte ênfase na inclusão de categorias de base e equipes femininas, o clube luta diariamente contra a escassez de infraestrutura urbana e a gentrificação da capital.
No topo da pirâmide do esporte, o crescimento do AfD provocou reações públicas de grandes instituições. Dirigentes e ex-treinadores de peso, como o alemão Thomas Tuchel, manifestaram repúdio público ao extremismo de direita durante protestos de massa que reuniram centenas de milhares de pessoas em cidades como Berlim.
A principal ferramenta de defesa institucional do futebol alemão continua sendo a famosa regra do "50 mais 1", que garante aos torcedores associados a maioria dos direitos de voto nas decisões dos clubes, blindando-os de tomadas de controle exclusivamente corporativas. No entanto, o dilema permanece: enquanto o ativismo político de base tenta preservar os valores democráticos nas arquibancadas, o crescimento do radicalismo nas ruas coloca à prova a capacidade do esporte de se manter como um espaço seguro e plural.