(Speedo/Divulgação)
Repórter
Publicado em 27 de julho de 2026 às 06h01.
Foi um sonho de infância que levou Ana Marcela Cunha a nadar por mais de oito horas entre Inglaterra e França.
Na quarta-feira, 22, a campeã olímpica brasileira percorreu 42,9 quilômetros na travessia do Canal da Mancha em 8h25min29s, quebrou o recorde sul-americano entre homens e mulheres e registrou o melhor tempo no percurso desde 2022.
Para completar a jornada a nado, Ana Marcela passou meses se preparando para enfrentar o frio, a escuridão e a imprevisibilidade do mar.
Em um dos treinamentos, ela nadou por 12 horas, das 20h às 8h, quase inteiramente no escuro. A água estava em torno de 19°C, e a temperatura externa, próxima de 12°C.
O tamanho do esforço chama ainda mais atenção diante do que Ana Marcela já havia conquistado. A nadadora chegou ao ponto mais alto do esporte com o ouro na maratona aquática de dez quilômetros nos Jogos Olímpicos de Tóquio. O que ainda a leva a submeter o corpo e a mente a um desafio tão extremo?
"O amor que eu tenho pela natação, pelas maratonas aquáticas e pelo que eu faço é muito maior do que os grandes resultados. O que mais me motiva é fazer diariamente o que eu amo. É onde eu me encontro", afirma.
Em entrevista à EXAME, a nadadora detalhou a preparação para a travessia, explicou o que a mantém motivada e falou sobre seus próximos projetos dentro e fora do esporte.
Ana Marcela decidiu atravessar o Canal da Mancha ainda na adolescência, depois de conhecer a história do percurso e dos brasileiros que haviam completado o desafio.
A experiência em provas de 25 quilômetros ajudou, mas a distância não era o principal obstáculo. A preparação precisava reproduzir o frio, a escuridão, o caráter solitário da travessia e as condições imprevisíveis do mar.
Em um dos principais testes, realizado na Represa Billings, em São Paulo, a nadadora entrou na água às 20h e saiu apenas às 8h do dia seguinte. Foram 42 quilômetros percorridos quase inteiramente no escuro, com água em torno de 19°C e temperatura externa próxima de 12°C. A adaptação ao frio também incluiu treinos em água próxima de 17°C no Sesc Petrópolis.
A rotina foi mantida em mais de 80 quilômetros por semana, divididos em dez sessões na água, além de cinco treinos físicos. O trabalho mental contou com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.
“Não foi pela metragem. Foi muito mais por ser uma travessia, um desafio solo. A maior preparação para o canal veio justamente das condições extremas e externas”, diz a nadadora.
No Canal da Mancha, confiar na equipe foi tão importante quanto controlar as braçadas. Ana Marcela saiu de Dover, na Inglaterra, nas primeiras horas do dia e enfrentou ondas, correntes e caravelas antes de alcançar Calais, na França.
Com pouca visibilidade dentro da água, a nadadora seguiu as orientações dos profissionais no barco de apoio, que acompanhavam as condições do mar.
“Todos os profissionais que estavam no barco me passaram tranquilidade e firmeza. Eles estavam fora, vendo melhor do que eu. Dentro da água, a gente não vê muito. Então, só fui indo”, conta.
A operação também exigiu planejamento financeiro e logístico para reunir técnicos, guia especializado, familiares e outros profissionais. Segundo Ana Marcela, o apoio de patrocinadores e parceiros ajudou a viabilizar a estrutura necessária para a travessia.
“Quando você quer realizar um sonho e consegue se preparar para isso, existe todo um custo, uma programação e uma logística. A gente conseguiu se estruturar muito bem", diz a atleta.
Para Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo Brasil, patrocinadora da atleta, a travessia mostra que ainda há novos caminhos a percorrer mesmo depois da conquista de um ouro olímpico.
"Apoiar a Ana é fazer parte de uma história que continua elevando o nível da natação brasileira e inspirando uma nova geração de atletas", diz o executivo.
O próximo grande projeto de Ana Marcela pode ser construído longe das competições. A nadadora pretende criar um instituto voltado principalmente a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, com iniciativas relacionadas ao esporte, à educação, à saúde e ao apoio familiar.
Ela também trabalha na criação do Circuito Ana Marcela. A proposta é promover competições, ampliar a visibilidade das maratonas aquáticas e compartilhar o conhecimento adquirido ao longo da carreira por meio de provas e palestras.
“O que eu mais quero para o meu futuro é ter um instituto. Quero que a gente consiga investir em saúde, em qualidade de vida e transformar alguma vida, seja pelo esporte, pelo ensino ou pelo que for.”
Antes de avançar nesses projetos, a agenda esportiva continuará ocupando parte importante da rotina. Após um período de recuperação com treinos mais leves, Ana Marcela voltará a se preparar para as provas de dez quilômetros.
O próximo compromisso serão os Jogos Sul-Americanos, competição que integra o processo de classificação para os Jogos Pan-Americanos de 2027.
“Agora não tenho outro desafio como o canal. Foi um sonho de criança e de adolescente que a gente conseguiu realizar com maestria.”