Esporte

Fifa ganha bilhões, torcedores pagam a conta: os vencedores e perdedores da Copa fora dos gramados

Ingressos caros, publicidade nas pausas e hotéis com reservas abaixo das projeções mostram quem ganhou e quem perdeu dinheiro com a Copa

Fifa, emissoras e patrocinadores ampliaram receitas, enquanto torcedores, cidades-sede e hotéis enfrentaram custos altos e resultados abaixo do esperado.

Fifa, emissoras e patrocinadores ampliaram receitas, enquanto torcedores, cidades-sede e hotéis enfrentaram custos altos e resultados abaixo do esperado.

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 19 de julho de 2026 às 08h00.

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Quem levantou a taça ainda vai entrar para a história, mas, quando o assunto é dinheiro, a Copa do Mundo distribui troféus para muito mais gente — e alguns deles nem chegaram perto do gramado.

Entre cifras bilionárias, ingressos que custam o preço de um carro e pausas para hidratação que viraram espaço publicitário, o Mundial também revelou quem saiu no lucro e quem terminou o torneio fazendo contas.

A expansão para 48 seleções aumentou o número de jogos, ampliou a audiência global e criou novas fontes de receita para empresas, patrocinadores e para a Fifa. Ao mesmo tempo, consumidores, cidades-sede e parte da rede hoteleira enfrentaram resultados diferentes das expectativas.

Quem são os verdadeiros vencedores da Copa?

Fifa

Gianni Infantino é o presidente da Fifa

Gianni Infantino, presidente da FIFA, durante jogo da Copa do Mundo nos Estados Unidos.  (Foto: (Foto de Adem ALTAN / AFP via Getty Images)

A Fifa gerou um valor recorde de US$ 7,6 bilhões, cerca de R$ 38 bilhões, com a Copa do Mundo do Catar, em 2022, e a expectativa é que supere essa marca no torneio de 2026.

Marion Laboure, estrategista do Deutsche Bank Research, afirma que a entidade é "sem dúvida" a principal vencedora, com receitas próximas a US$ 13 bilhões, cerca de R$ 66 bilhões, ao longo do ciclo de quatro anos.

A receita da Fifa vem da venda de direitos de transmissão, licenciamento, serviços de hospitalidade, contratos de patrocínio e ingressos.

"A Fifa também entrou no mercado secundário com seu mercado oficial de revenda [de ingressos], cobrando uma taxa de 15% tanto do comprador quanto do vendedor", disse Laboure a especialista à BBC.

A entidade também avalia ampliar novamente a competição para 64 seleções. A mudança poderia abrir espaço para países como China e Índia e adicionar bilhões de espectadores ao público potencial do torneio.

Emissoras e patrocinadores

As emissoras investiram cifras elevadas para garantir os direitos de transmissão, mas a audiência e o interesse do mercado publicitário indicam retorno com a venda de espaços comerciais.

Nesta edição, a Fifa introduziu pausas para hidratação. Infantino afirmou que a decisão foi "puramente uma questão esportiva", sem gerar receita adicional para a entidade.

Na prática, os 90 segundos destinados à hidratação abriram um novo espaço comercial para emissoras e patrocinadores, principalmente nos Estados Unidos, onde os intervalos publicitários fazem parte das transmissões esportivas.

A Fox Sports, que teria pago US$ 485 milhões, cerca de R$ 2,4 bilhões, pelos direitos de transmissão nos Estados Unidos, vendeu as pausas como espaços "patrocinados por" uma marca.

Segundo especialistas, um comercial de 30 segundos durante a Copa na Fox custa entre US$ 200 mil e US$ 300 mil, de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão. Nos jogos da seleção americana nas fases decisivas, o valor chegou a US$ 750 mil, cerca de R$ 3,8 milhões.

A estimativa é que os anúncios exibidos durante as pausas para hidratação possam gerar US$ 250 milhões somente no mercado americano.

"As pausas para hidratação são puro espaço publicitário. Eu ficaria extremamente surpresa se elas desaparecessem. O formato expandido permanecerá porque a escala agora é o modelo de negócios da Fifa", diz Laboure, do Deutsche Bank Research.

Os patrocinadores oficiais também ampliaram sua presença na competição. Marcas como Adidas e Coca-Cola apareceram em diferentes espaços ligados ao torneio.

A Adidas investiu cerca de US$ 67 milhões, aproximadamente R$ 342 milhões, em uma campanha estrelada por Lamine Yamal, Jude Bellingham e Lionel Messi, em meio à disputa comercial com a Nike.

David Beckham

David Beckham

David Beckham: jogador foi um dos maiores beneficiários do mercado publicitário durante a Copa do Mundo.  (Getty Images)

Mesmo aposentado dos gramados há mais de uma década, David Beckham continua associado ao mercado publicitário do futebol.

A principal campanha da Adidas para a Copa usa uma versão criada por inteligência artificial do ex-jogador, que também participou de anúncios de empresas como Home Depot e Bank of America.

Nos Estados Unidos, Beckham segue ligado ao crescimento do esporte. O Inter Miami, clube do qual é coproprietário, é avaliado em cerca de US$ 1,45 bilhão, aproximadamente R$ 7,3 bilhões, e ocupa a posição de franquia mais valiosa da Major League Soccer, a principal liga de futebol dos Estados Unidos.

Embora não tenha conquistado uma Copa do Mundo como jogador, sua imagem permanece entre os ativos comerciais associados ao esporte.

Quem são os perdedores da Copa?

Cidades anfitriãs

Guadalajara: estádio Akron, no México, foi sede da Copa do Mundo 2026.

As 16 cidades-sede nos Estados Unidos, Canadá e México receberam torcedores e turistas durante o torneio, com impacto sobre hotéis, restaurantes e parte do comércio local.

A Fifa estimou que a competição acrescentaria cerca de US$ 41 bilhões, aproximadamente R$ 209 bilhões, à economia global. Desse total, US$ 17 bilhões, cerca de R$ 86 bilhões, seriam destinados à economia dos Estados Unidos, com a criação de 185 mil empregos, principalmente no setor de hotelaria.

Alexander Budzier, pesquisador em gestão na Universidade de Oxford e diretor-executivo da Oxford Global Projects, afirma que os benefícios econômicos de longo prazo de grandes eventos esportivos não costumam se concretizar.

Segundo ele, cidades-sede podem registrar queda no número de visitantes porque parte dos turistas evita o aumento dos preços e a movimentação provocada pelo torneio.

Budzier também afirma que os empregos criados costumam se concentrar em funções de menor remuneração no setor de hotelaria. "Isso gera empregos, mas não gera riqueza", afirma.

Dados oficiais mostram que as contratações em bares, pubs e restaurantes dos Estados Unidos cresceram antes do torneio, em maio, mas o avanço durou pouco.

Na avaliação do pesquisador, os benefícios econômicos mais duradouros aparecem quando o evento impulsiona projetos de infraestrutura e reurbanização, como ocorreu na região de Stratford, em Londres, após os Jogos Olímpicos de 2012.

Como a maior parte da infraestrutura da Copa já existia, ele afirma que "não haverá benefícios econômicos provenientes do desenvolvimento".

Hotéis

A procura esperada por quartos de hotel não se concretizou em parte das cidades-sede, segundo entidades do setor.

A Associação Hoteleira da British Columbia, no Canadá, informou que os meses de junho e julho ficaram "bem abaixo do ritmo dos anos anteriores", apesar de Vancouver receber sete partidas da competição.

Segundo a entidade, grandes torneios "não criam 40 dias consecutivos de hotéis lotados". A demanda costuma se concentrar nas datas próximas às partidas.

Nos Estados Unidos, a Associação Americana de Hotéis e Alojamentos, conhecida pela sigla AHLA, acusou a Fifa de reservar um número excessivo de quartos para uso próprio e de criar uma demanda artificial. A entidade esportiva afirmou que não reconhece a acusação.

Laboure, do Deutsche Bank Research, afirma que uma situação semelhante ocorreu durante a Copa do Mundo da França, em 1998.

"Em abril, 80% dos operadores hoteleiros dos EUA disseram que as reservas estavam abaixo das previsões iniciais - dois terços dos hoteleiros de Nova York relataram reservas mais fracas do que o esperado, e em Seattle quase 80% fizeram o mesmo, com muitos chamando o torneio de 'não-evento'", disse ela.

Torcedores

Torcedores americanos durante jogo na Copa do Mundo, nos Estados Unidos. (Frederic J. BROWN / AFP)

Para quem realizou o sonho de acompanhar a Copa do Mundo de perto, a experiência veio acompanhada de uma conta elevada.

Os preços dos ingressos e as críticas ao sistema de dynamic pricing, modelo que aumenta os valores conforme cresce a demanda, marcaram a competição.

Até mesmo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu que "não pagaria" quando questionado sobre o possível preço de US$ 1 mil, cerca de R$ 5,1 mil, para o ingresso da estreia de seu país contra o Paraguai.

Os ingressos oficiais para a final, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, chegaram a US$ 32.970, cerca de R$ 168 mil, enquanto anúncios no mercado de revenda ultrapassaram US$ 2 milhões, ou R$ 10,2 milhões.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu os preços e afirmou que eles estavam alinhados aos valores cobrados em outros eventos esportivos nos Estados Unidos.

Os gastos não ficaram restritos aos estádios. Passagens aéreas, hospedagem, alimentação e transporte também pesaram no orçamento dos torcedores.

Um dos casos que ganhou repercussão foi o aumento das tarifas da New Jersey Transit. A viagem de cerca de 30 minutos até o MetLife Stadium passou de US$ 12,90, aproximadamente R$ 65, ida e volta, para US$ 150, cerca de R$ 765, durante o torneio.

Após as críticas, a empresa reduziu os preços, embora eles continuassem acima dos valores habituais.

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