O empresário e cineasta João Moreira Salles detalha sua visão de governança para o futebol e as condições para se tornar acionista do clube (Crédito: Reprodução)
Redator na Exame
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 18h10.
O xadrez societário da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo pode ganhar um reforço de peso no seu quadro de acionistas minoritários, trazendo de volta ao jogo uma das famílias mais tradicionais e capitalizadas do país. Em longa entrevista concedida ao canal Arena Alvinegra, o empresário e cineasta João Moreira Salles confirmou que existe a possibilidade real de investir na operação do clube carioca, que agora passa a ser comandada pelo fundo GDA Luma, do executivo Gabriel de Alba.
A engenharia financeira para a entrada de Moreira Salles no cap table (quadro societário) do Botafogo não envolveria uma injeção de capital direta para a compra de jogadores, mas sim uma conversão de ativos e passivos ligados à infraestrutura. O veículo para esse negócio é o Espaço Lonier, desenhado para ser o Centro de Treinamento da base alvinegra.
Durante as negociações iniciais em 2022, ainda sob a gestão do empresário norte-americano John Textor, a família Moreira Salles cedeu o local ao clube com duas opções de contrapartida na mesa: o recebimento de um percentual acionário na SAF ou o pagamento integral da dívida que a instituição detém com os irmãos. Com a mudança de comando na estruturação corporativa do Botafogo, a proposta de equity (participação) volta a ser a alternativa prioritária, desde que o novo projeto esteja alinhado com a visão da família.
"A gente precisa entender quem está chegando, qual é o projeto e se a pessoa topa essas condições, que são as mesmas que a gente propôs para o Textor e proporia para o de Alba", explicou o empresário. O acordo delineado converteria o alto investimento de capital fixo (CapEx) feito para a construção de toda a estrutura do Lonier em ações da SAF, garantindo a Moreira Salles uma cadeira com direito a voto no conselho de administração, operando estritamente como sócio minoritário.
Apesar do interesse em deter uma fatia da empresa e do histórico de auxílio financeiro na elaboração do próprio projeto que transformou o Botafogo em SAF, João Moreira Salles foi taxativo ao traçar uma linha vermelha sobre sua atuação: ele se recusa a participar da gestão executiva do futebol.
Sob a ótica de governança corporativa, o empresário alertou para os riscos do modelo de "mecenas", onde torcedores com capacidade financeira assumem operações complexas sem o devido know-how da indústria esportiva. "O Botafogo não precisa de amadores, e nós seríamos amadores no futebol", cravou.
Para Salles, a crença de que amor ao clube e dinheiro no banco são suficientes para gerir uma franquia esportiva é um equívoco. O seu aporte financeiro no Espaço Lonier foca em um projeto de educação e infraestrutura de base — área onde seu irmão, Walter Salles, possui interlocutores qualificados. O futebol profissional e as decisões de mercado devem ser terceirizados para executivos remunerados e especializados do setor.
A cautela de Moreira Salles em exigir clareza sobre "quem está chegando" e "qual é o projeto" expõe os gargalos corporativos e operacionais que a SAF do Botafogo ainda precisa sanar. A transição de comando para a GDA Luma, de Gabriel de Alba, exige uma rápida estabilização administrativa para garantir que os compromissos assumidos na era John Textor não se percam em quebras de continuidade.
Um dos principais problemas estruturais da franquia continua sendo o passivo acumulado. A dívida com a própria família Moreira Salles, atrelada à indefinição do Espaço Lonier, evidencia que a SAF ainda opera com pendências de infraestrutura para a revelação de ativos a longo prazo. Sem um Centro de Treinamento finalizado e quitado, o potencial de geração de receitas com a venda de jovens talentos (o chamado player trading) fica estrangulado.